O Rock e as questões raciais

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Na imagem destacada deste post, Chuck Berry, um dos pioneiros do rock n’roll

Prof. Cleber Roberto Silva de Carvalho
Licenciatura plena em História - UPE
Especialização em História do Brasil - Faculdade Montenegro

Combine um formato de canção popular tradicional europeia com um ritmo irregular afro-americano, uma ejaculação vocal e/ou instrumental para quebrar ou distorcer a melodia, e, em 1955, você tem um som novo.

Don Hibbard e Carol Kaleialoha, historiadores do rock em The Role of Rock

Nestes últimos meses os fãs de Rock/Metal ficaram diante de notícias relacionadas ao racismo envolvendo estes estilos. Uma destas notícias envolvia o ex-vocalista do Pantera e atualmente na banda Down, Phil Anselmo, o mesmo fez uma saudação nazista e gritou “White Power” (Poder Branco) no evento Dimebash, na cidade de Hollywood. Já na cidade de Anaheim, na Califórnia, uma passeata promovida pela Ku Klux Klan terminou em briga quando o grupo foi defrontado por manifestantes contrários ao movimento racista, entre estes manifestantes havia vários metalheads (fãs de Heavy Metal), a briga terminou com feridos e com várias pessoas presas. Mas o racismo dentro do Rock já vem de longa data, ainda nos primórdios do estilo.

Em suas origens o Rock’n’roll é essencialmente um estilo afro-americano, com suas raízes no R&B (Rhythm and blues) que por sua vez tem sua fonte no blues e do gospel, que é uma música de origem negra. 
Mesmo com o aumento da popularidade do R&B, a grande população branca norte-americana não ver com “bons olhos” aquela música dançante de negros.

Para os “brancos conservadores” norte-americanos havia o country, que andava ao lado do R&B em popularidade, mas não havia uma “apropriação cultural” entre os dois estilos musicais. Isso até eclodir a Segunda Guerra Mundial.

Após o conflito mundial, com sua grande quantidade de perdas entre os jovens, e durante os anos 50, período envolvido na “ditadura” do governo  Eisenhower, com todo conservadorismo da sociedade norte americana, a juventude estava desejosa de curtir a vida, e a música era o “catalizador” dos desejos daquela geração. 

Na década de 1950 o R&B não enfrentava problemas apenas com o racismo na sociedade, mas também, no meio comercial. As grandes gravadoras não investiam na música negra o que forçava os artistas a lançarem seus álbuns por gravadoras pequenas. Exemplo disso foi o de Fats Domino que gravou o álbum The Fat Manem um estúdio que se resumia a um quarto nos fundos de uma loja de móveis. 
Mas a popularidade do R&B e do Country foçava cada vez mais a aproximação de ambos. Antes separados pela origem étnica de cada estilo, eles começaram a se fundir, era o nascimento do Rock‘n’roll.

A sociedade conservadora e racista da época não aceitava seus jovens dançando sensualmente ao som das músicas que eram cantadas pelos negros, chegando ao ponto do Conselho dos Cidadãos Brancos do Alabama, anunciar uma campanha para eliminar, dos Estados Unidos, o “animalismo bop negro”. 
Por mais popular que o Rock fosse ainda faltava algo para se transformar em um fenômeno estadunidense. E o personagem que se apropriou culturalmente do movimento iniciado pelos negros, e se tornou este fenômeno, foi Elvis Presley.

Elvis não foi o primeiro a se utilizar de apresentações sensuais, não era o mais talentoso, ou criador daquela sonoridade, os negros já faziam isso antes, mas o preconceito racial da época impedia que um negro se tornasse o “Rei do Rock”. Elvis surgiu e aproveitou o momento para angariar a coroa. Era o Rock and roll se tornando definitivamente música de massa. 

Não obstante não podemos negar a importância de Elvis Presley para “abrir as portas” para o Rock and roll, como disse o músico negro Little Richard: “Eu agradeço a Deus por Elvis Presley. Ele abriu as portas para muitos de nós”.

Mesmo com a ascensão de um branco ao posto de “estrela” do Rock, o conservadorismo da sociedade norte-americana ainda perpetuava. E mesmo com a popularidade do Rockabilly de Elvis nas rádios, o mesmo era condenado pelas associações de pais e professores, por comitês ligados ao governo e líderes religiosos. Mas o Rock, R&B, a música de origem negra se disseminava entre os jovens. E esta juventude estava sedenta para ouvir aquele novo ritmo, independente da etnia dos seus músicos.

Um dos fatos mais relevantes sobre isso ocorreu em 1960, quando o DJ Shelley Stewart, radialista negro, estava apresentando um show em Bessemer, no Alabama, quando foi avisado que cerca de 80 membros da Ku Klux Klan estava indo para o clube para ataca-lo. Eles cercaram o local e ameaçaram invadir. Quando Stewart avisou que teria que parar o show, o inesperado aconteceu. Os cerca de 800 brancos que estavam no local, se rebelaram e saíram do local, atacando os membros da Ku Klux Klan, como o próprio Stewart afirmou “Eles saíram correndo do local e atacaram a Klan, lutando por mim.” Eram brancos lutando pelo direito de ouvir música negra.

As questões raciais sempre permearam o rock, nos seus primórdios, a MTV foi acusada de racismo, pela quase inexistência de artistas negros em sua grade de exibição, ou os casos citados no inicio deste texto. São exemplos que o preconceito existe em qualquer área da sociedade, cabe a cada um “lutar” sem uso da violência, contra isso.

Para saber mais leiam:  Rock and Roll, Uma história social, de Paul Friedlander

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