As Guerras Médicas e a Batalha de Plateia

Compartilhe
Prof.ª Fernanda Moreira
Mestre em História - UFRRJ

“Por tempos refleti sobre a conversa enigmática do meu rei sobre a vitória e o tempo me mostrou que ele foi sábio. De grego livre para grego livre, a palavra foi espalhada sobre o intrépido Leônidas e os seus trezentos. Tão longe de casa. Deram suas vidas não por Esparta, mas por toda a Grécia […]. Agora, nesse trecho de terra acidentado chamado Plataeia, as hordas de Xerxes estão cara a cara com a destruição! Os bárbaros se amontoam ali. O puro terror aperta fortemente […] sabendo muito bem os horrores impiedosos que sofreram pelas lanças e escudos dos trezentos. Agora, olham fixamente para o outro lado dessa planície… para dez mil espartanos comandando vinte mil gregos livres. […] hoje libertaremos o mundo da tirania e do misticismo!”

(Discurso de Pausânias- Extraído do filme 300- Ascensão do Império)

Nos últimos anos, as guerras e batalhas travadas por gregos e persas saíram das páginas dos livros de história, ganharam as folhas coloridas das histórias em quadrinhos e também as telas dos cinemas. Aventuras, heroísmos e dramas. De Leônidas e seus 300 homens até a vitória grega na planície de Plateia. Lugar que daria nome a uma das batalhas derradeiras entre persas e gregos. Em 479 a. C., no Sul da antiga Grécia, acontecia o último grande conflito das chamadas Guerras Médicas ou Persas. Para alguns estudiosos, o maior confronto travado durante as Guerras Persas.

Um breve histórico das Guerras Persas ou Médicas

Para compreender a batalha de Plateia é preciso considerá-la no âmbito de um painel histórico específico. A saber, do desenvolvimento das Guerras Médicas. As chamadas Guerras Persas ou Médicas tiveram início, aproximadamente, em 490 a.C. e chegaram ao fim em 479 a. C. Um longo conflito que envolveu a vontade Persa de aumentar o território do Império e também o interesse das cidades-estados da Grécia (especialmente, Atenas e Esparta) em manter a hegemonia da civilização grega no mundo antigo. Era uma disputa por poder, território e também cultural.

Diferentes civilizações em confronto. Como dizem as palavras de Pausânias, para os gregos era a chance de “libertar o mundo da tirania e do misticismo” e também recuperar territórios invadidos pelos imperadores Dario e Xerxes (filho de Dario), ou seja, que estavam sob o domínio da Pérsia. Se voltarmos o olhar para os Persas, também encontraremos argumentos semelhantes. Na guerra entre gregos e Persas, ambos olhavam para própria cultura e civilização como mais avançada que a do “outro”. Nesse caso, conquistar e dominar eram sinônimos de aumentar o poder, o território e impor a própria cultura.

Alguns estudiosos dividem as Guerras Médicas em dois grandes períodos: A primeira Guerra Persa, que chegou ao fim com a batalha de Maratona, e a segunda Guerra Persa, cujo final foi marcado pela Batalha de Plateia. Na primeira parte, os persas foram liderados por Dario I, no segundo momento, por Xerxes. Um espaço de dez anos separou os dois conflitos e trouxe novos elementos para as disputas entre persas e gregos.

O caminho até Plateia: Termópilas e Salamina

A primeira fase das Guerras Médicas chegou ao fim com a vitória Grega, liderada por Atenas, em Maratona. No entanto, a vitória em Maratona acirrou uma série de rivalidades entre os gregos. Vimos que existiam diferenças culturais entre persas e gregos, porém, entre as cidades-estados gregas havia uma cultura diversificada e algumas rivalidades. Principalmente, entre Atenas e Esparta. Após a vencer a batalha de Maratona, Atenas alcançou certa hegemonia entre os gregos. Esparta não tinha participado da campanha contra os Persas em Maratona, pois, esta teria ocorrido numa data religiosa. Esse fato, momentaneamente, acirrou as rivalidades com os espartanos.

Assim, dez anos mais tarde, os Espartanos, buscando um protagonismo maior, caminharam rumo à batalha de Termópilas, em 480 a. C. O lendário Leônidas e seus 300 seriam derrotados nesse confronto. Após a vitória, os persas, liderados por Xerxes e pelo general Mardônio, seguiram avançando pelo território grego. Chegando a dominar Atenas. Cidade que acabou evacuada pelos gregos. De acordo com alguns estudiosos, a tática de Xerxes era dominar o exército grego. Tentativa que seria fundamental para a vitória da Grécia na batalha de Salamina, em setembro de 480 a. C.

Pensando no perigo de ter o exército grego tomado por Xerxes, o general ateniense Temístocles pensou numa ousada estratégia: concentrou uma frota de cerca de 200 navios trirremes no Estreito de Salamina, atraindo a frota persa. Os persas que eram a maioria e já tinham sofrido problemas em seus exércitos devido a vendavais, foram derrotados pelos gregos. A esquadra persa era considerada uma das mais fortes do mundo antigo. A tática vitoriosa de Temístocles consistiu em impedir o movimento dos navios persas e aproximar os soldados do combate corpo-a-corpo. Eram, mais ou menos, 200 navios gregos contra 600 persas. A estratégia de Temístocles foi fundamental. Estima-se de 40 mil persas morreram nessa batalha.
Liderados por Mardônio, os persas se retiraram para a região da Tessália. Era preciso tempo e novas táticas para reorganizar o exército e tentar uma nova investida ao território grego.

A Batalha de Plateia: A preparação e o conflito

Após a derrota grega em Termópilas, os gregos reuniram uma força nunca antes vista. No entanto, o exército da Grécia ainda era inferior às tropas Persas. A vitória em Salamina foi fundamental para os gregos e uma derrota considerável para os persas, no entanto, outros fatores influíram nesse quadro e foram de suma importância para o desenrolar da batalha de Plateia.

Durante a expansão, o Império persa passou a controlar diversas regiões como, por exemplo, o Egito e a Mesopotâmia. Especialmente, o controle da região da Mesopotâmia era fundamental para consolidação dos planos de Dario I e de Xerxes, ou seja, de dominar o mundo antigo e de submeter os povos ao poder de um único rei. Porém, durante a batalha de salamina, Xerxes não contou com o apoio e a participação de todos os reinos que lhe foram subordinados. Isso explica, pois, o império persa enfrentou diversas pequenas rebeliões nessas regiões citadas. Não podemos falar na expansão de um império e na dominação de povos, sem deixar de considerar as tensões e conflitos envolvidos.

Desde antes da batalha de Termópilas, os persas começaram a construir uma ponte no atual estreito de Dardanelos que tinha como base de apoio as embarcações. A ideia era facilitar a passagem de suas tropas. Muitas cidades no Sul da Grécia, sabendo da caminhada de Xerxes se renderam e muitas passaram a compor o exército persa. Porém, outras cidades decidiram fazer um bloqueio ao Sul da região de Tessália. Após a derrota em Salamina e com a baixa nas embarcações, a construção desse estreito tornou-se fundamental.

Em 479 a. C. (no ano seguinte após a derrota em Salamina), os Persas seguiram investindo contra os gregos e invadiram a região da Ática. Seguindo em direção ao Sul, as tropas comandadas por Mardônio acamparam em Plateia, na Boécia. Sabendo da aproximação dos exércitos gregos, organizados e liderados por Pausânias (general espartano) e Aristides (general ateniense), os persas fizeram de Plateia uma parada estratégica e de proteção. Não se pode esquecer que a derrota de Salamina tinha mexido com a estima e o poderio do exército da Pérsia. Ainda no mesmo ano, os persas também sofreram uma derrota significativa na região da Sicília, ponto estratégico para intenção de Xerxes expandir seus domínios ao oeste.

Separados por um rio, de um lado, a infantaria grega com (aproximadamente) 70.000 homens, do outro, a cavalaria persa com 250.000 soldados. Contudo, o exército da Pérsia havia perdido seus melhores homens na batalha de Salamina e não contava com um apoio total de determinadas regiões subordinadas. Durante dias, gregos e espartanos apenas se mediram à distância. A batalha começou, em julho de 479 a. C., quando Mardônio ordenou o ataque dos persas aos gregos. Segundo relatos, o general persa teria acreditado que uma parte das tropas gregas estava se retirando da região. Mas, na verdade, estavam apenas fazendo uma mudança de posição para aguardar a chegada de mais tropas oriundas de outras regiões gregas.

A batalha de Plateia foi marcada pelo maior contingente de soldados que a Grécia conseguiu reunir. O ataque de Mardônio, somado a todas as baixas sofridas pelos persas, levou o grandioso exército da Pérsia a derrota. Os espartanos lideram os ataques dos gregos aos persas. Estima-se que no já no início do combate 50 mil soldados persas foram mortos, inclusive, o próprio Mardônio. Muitos soldados persas fugiram e boa parte foi morta durante o conflito. Após Plateia, os persas ainda sofreram uma derrota considerável na batalha de Micale. Os persas foram expulsos da Grécia e Xerxes desistiu de sua expansão pelo ocidente.

Assim, as Guerras Médicas chegavam ao fim, mas entravam para a história devido às diversas estratégias militares e também à improvável vitória dos gregos. Como aparece no trecho que abre este artigo, após as Guerras Persas, aumentou a rivalidade entre espartanos e atenienses. Ambos reivindicavam a liderança e protagonismo na vitória sobre os persas.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *