Chico Mendes: um legado para o Brasil

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Prof. Neto Almeida
Mestre e Doutor em História - UFC

Este texto deve um agradecimento especial aos escritos de Ricardo Carvalho e Altino Machado.

“Se descesse um enviado dos céus e me garantisse que minha morte iria fortalecer nossa luta até que valeria a pena. Mas a experiência nos ensina o contrário. Então eu quero viver. Ato público e enterro numeroso não salvarão a Amazônia. Quero viver.”

Chico Mendes – Jornal do Brasil 8/ 12/1988 – 12 dias antes de sua morte.

O Brasil e o mundo recordam, agora em 2013, os 25 anos da morte de Chico Mendes, um brasileiro que se tornou símbolo mundial de resistência à invasão e exploração da floresta amazônica por interesses meramente econômicos que queriam transformar a mata em pasto, com a destruição, particularmente no Acre, dos seringais, fonte de vida para milhares de habitantes da floresta.

Chico Mendes era líder dos seringueiros e tem uma história de vida comum a milhões de brasileiros. Começou a trabalhar com 11 anos de idade, nos seringais, recolhendo o látex das árvores – a seringueira – para a fabricação da borracha. À noite, o menino Chico se entregava à leitura dos livros que caíam em suas mãos, além de ter um interesse sempre crescente por notícias da cidade que chegavam na floresta com semanas de atraso.

Lendo, estudando, conversando, se atualizando, Chico se tornou uma liderança na região, principalmente na organização familiar para defender suas terras diante do ataque feroz do desmatamento e da pecuária por parte das madeireiras e criadores de animais. Para impedir este avanço, os seringueiros, suas mulheres, seus filhos ficavam bravamente de mãos dadas na frente das máquinas e das motosserras que, para evitar uma tragédia maior, paravam de funcionar. Através destes movimentos, os seringueiros, índios e ribeirinhos – que haviam se juntado à luta – conseguiam atrasar os projetos de ocupação e, ao mesmo tempo, exerciam um forte poder de conscientização entre o que eles chamavam de “povos da floresta”.

É evidente que, do outro lado, também crescia a pressão pela ocupação, criando um constante clima de confronto. Há bem pouco tempo, muitas obras realizadas no Brasil reuniram protestos dessa forma. É o caso de Fortaleza, Ceará, onde a Prefeitura expulsou com balas de borracha ativistas que impediam a construção de viadutos dentro do principal parque ecológico da cidade. Voltando a Chico Mendes, em 1977 começavam a surgir as primeiras ameaças de morte. Em 22 de dezembro de 1988 um tiro de espingarda, desferido quase à queima roupa, matava o líder seringueiro e ambiental, na porta da sua casa, em Xapuri, no Acre.

Como um rastilho de pólvora que atravessa trilhas e caminhos, a morte de Chico Mendes repercutiu no mundo inteiro e na própria imprensa, que muitas vezes foi contrária a luta iniciada por ele, e que pressionou para a punição dos culpados que foram localizados, julgados e condenados, graças ao depoimento de um rapaz de 15 anos, Genésio Ferreira, que, apesar de ameaçado, apontou, corajosamente, os autores do crime.

No Brasil, ainda se trava uma briga pela construção do ideal Chico Mendes, muito por culpa da imprensa que lhe venera como alguém pacifista e enquadrado dentro das características que esta lhe quer dar, mas, principalmente, na Europa, Chico Mendes é visto e tratado como um exemplo de coragem e destemor em defesa da Amazônia e do meio ambiente. É colocado, inclusive, ao lado de grandes personalidades da história, como Martin Luther King, Nelson Mandela, Mahatma Gandhi. Em diferentes cidades do mundo se multiplicam homenagens e reconhecimento ao trabalho que ele realizou, como em Milão, na Itália, onde foi plantada, numa linda praça, uma árvore para reverenciar a sua memória e a sua luta.

Durante curso recente de formação de lideranças no Acre, um jovem seringueiro foi convidado a expressar, em desenho, o que pensava sobre o futuro da Reserva Extrativista Chico Mendes, um bolsão verde de 970 mil hectares que atravessa seis municípios e simboliza a luta ambientalista no estado. O rapaz, de uma comunidade tradicional da floresta, não hesitou: em traços rápidos, desenhou um prédio.

A reserva é um dos legados da tragédia de 22 de dezembro de 1988, quando um tiro de escopeta encerrou, em Xapuri (a 175km de Rio Branco), a luta de Chico Mendes contra a destruição nos seringais do Acre. Ele acreditava que a sobrevivência do caboclo dependia da mata em pé. Vinte e cinco anos depois, este sonho padece sob a pata do boi e a lâmina das motosserras. Enquanto a borracha sucumbe à lógica de mercado, a pecuária, a extração de madeira e a modernidade conquistam corações e mentes dos povos da floresta, incluindo seringueiros que lutaram ao lado de Chico.

A entrevista do dia 8 de dezembro de 1988, ficou conhecida como aquela que poderia salvar a vida de Chico Mendes. O Jornal do Brasil publicou naquele dia as palavras de defesa de Francisco Mendes Filho. Uma entrevista marcada por denúncias de muitas que foram feitas naquele dia, e deixadas com um enorme pesar, pois Chico Mendes não seria o único a morrer em nome da luta pela terra, pela floresta ou por seu povo, contra o capitalismo feroz. Nesse relato nomes são citados, situações são descritas com incrível capacidade de síntese sobre a situação de disputa política e econômica no Norte do Brasil.

JORNAL DO BRASIL – Como está a situação no Acre?

CHICO MENDES – Minha segurança ultimamente foi reforçada, no Acre, por decisão do governador Flaviano de Melo. Ele sabe que um assassinato vai complicar a situação do estado. Não que a morte de um seringueiro no Acre seja novidade. Mas é que o nosso movimento tornou-se conhecido mundialmente. Principalmente junto às autoridades do Banco Mundial (Bird), do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e do Congresso americano. Ora, não se bate de frente com essas entidades. Hoje minha vida passa pelos policiais da PM. Tenho tido uma relação amigável com meus seguranças.

JORNAL DO BRASIL – Quem mais o ameaça Publicamente?

CHICO MENDES – Agora são dois fazendeiros em Xapuri (AC), os proprietários da Fazenda Paraná, Darly Alves e Alvarinho Alves. São irmãos. Estão inclusive foragidos da Justiça, com mandado de prisão decretado. Desde 1973, esses dois fazendeiros tinham ordem de prisão no Paraná. Nós invocamos essa ordem de prisão para o Acre, e confiamos, infelizmente, no superintendente da Polícia Federal, Mauro Spósito, que reteve durante 16 dias essa ordem de prisão. Segundo o próprio juiz da Comarca de Xapuri, tal retenção não foi por acaso. Houve uma expectativa inicial: quem teria avisado os dois foragidos da Justiça? Hoje estamos absolutamente convencidos, por informações vazadas do próprio DPF, que esses dois fazendeiros são amigos do delegado da Policia Federal no Acre, Mauro Spósito. Os irmãos já mandaram assassinar mais de 30 trabalhadores.

[…]

JORNAL DO BRASIL – Qual é a ameaça dos dois irmãos fazendeiros?

CHICO MENDES – Só se entregariam à Justiça após verem o meu cadáver. Duvido que se entreguem. A PM do Acre sabe da existência de pistoleiros no meu encalço, a serviço deles.

JORNAL DO BRASIL – Onde o perigo é maior?

CHICO MENDES – Nos aeroportos. É porque desconfio que vão me pegar. Agora em São Paulo tive o acompanhamento de policiais civis e PMs do estado. Ao chegar no Rio, estou também sob a cobertura de amigos e do pessoal da Campanha Nacional de Defesa pelo Desenvolvimento da Amazônia (CNDDA).

JORNAL DO BRASIL – Ao retornar, agora, ao Acre, sua vida corre mais perigo ainda?

CHICO MENDES – Eu tenho consciência de que todas as lideranças populares, nesses últimos dez anos – advogados, padres, pastores, líderes sindicais – todos eles foram mortos. Mesmo com a garantia de vida do governo. Não precisa nem citar exemplos, pois eles estão vivos na memória de todos. Tenho esperança de continuar vivo. É vivo que a gente fortalece essa luta. De parte do governo do estado não tenho o que temer. Pelo contrário. Agora, por outro lado, eu estou diante de dois inimigos poderosos: a União Democrática Ruralista (UDR) e a Polícia Federal no Acre.

JORNAL DO BRASIL – A Polícia Federal o acusa agora de dedo-duro. Mas a Imprensa de Rio Branco já denunciou essa velha manobra, como herança dos anos ditatoriais.

CHICO MENDES – É uma campanha de calúnia, na tentativa de me desmoralizar na região. Mas vamos supor que de fato eu seja um informante da Superintendência da Policia Federal no Acre. Ora, o doutor superintendente estaria cometendo um desserviço ao queimar um quadro tão conhecido. Mas não é por aí. Estou sob dois fogos. Na data em que ele me acusa de informante, em 1975, eu estava sendo submetido a duros interrogatórios, sob o comando desse policial, em Xapuri.

[…]

JORNAL DO BRASIL – O que é um empate?

CHICO MENDES – É uma forma de luta que nós encontramos para impedir o desmatamento. É forma pacífica de resistência. No início, não soubemos agir. Começavam os desmatamentos e nós, ingenuamente, íamos à Justiça, ao Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal (IBDF), e aos jornais denunciar. Não adiantava nada. No empate, a comunidade se organiza, sob a liderança do sindicato, e, em mutirão, se dirige à área que será desmatada pelos pecuaristas. A gente se coloca diante dos peões e jagunços, com nossa famílias, mulheres, crianças e velhos, e pedimos para eles não desmatarem e se retirarem do local. Eles, como trabalhadores, a gente explica, estão também com o futuro ameaçado. E esse discurso, emocionado sempre gera resultados. Até porque quem desmata é o peão simples, indefeso e inconsciente.

JORNAL DO BRASIL – Mas Isso fura às vezes?

CHICO MENDES – Sim, o fazendeiro recorre a uma ordem judicial e, com apoio das forças policiais, executa o desmatamento. Espero que com a nova Constituição esse absurdo não prossiga. Mesmo assim, nosso movimento continuava crescendo, sem prejuízo de grandes recuos. Já em 1980, esse movimento dos seringueiros, movimento de empate, se generalizava por toda a região. Até aquele momento, a luta era liderada pelo Wilson Pinheiro, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Brasiléia (AC). Era um homem comprometido com a defesa da floresta e muito corajoso.

JORNAL DO BRASIL – Quer dizer que essa luta começa em Brasiléia?

CHICO MENDES – Começa em Brasiléia. Só que, em 1980, o Wilson Pinheiro foi assassinado dentro do sindicato, pelas costas, quando assistia a um programa de televisão. Foi assassinado a mando de fazendeiros. Houve uma reunião dos fazendeiros, em julho de 1980, em que ficou acertado que uma forma de barrar o movimento dos seringueiros era matar as principais lideranças. Na noite de 21 de julho de 1980, Wilson foi fuzilado na sede de seu próprio sindicato. A nossa luta sofre um grande abalo. Mas logo depois ressurge em Xapuri, que fica a menos de 100 quilômetros de Brasiléia. E Xapuri, via sindicato, começa a comandar todas as nossas operações de resistência, e vale dizer resistência pacifica, mas resistência. Quando conduzimos nossas famílias para o empate, deixamos transparente que o movimento é pacífico. Ninguém vai pra guerra levando mulher e filhos.

JORNAL DO BRASIL – Qual o balanço dessa resistência em defesa da floresta?

CHICO MENDES – Bom, de março de 1976 até agora já realizamos 45 empates, sofremos 30 derrotas e tivemos 15 vitórias.

JORNAL DO BRASIL – O empate tem que objetivo?

CHICO MENDES – Criar um fato político. Mais que isso: desapropriar a área e final- mente criar a Reserva Extrativista.

JORNAL DO BRASIL – A Reserva Extrativista é uma criação de vocês?

CHICO MENDES – Veja bem: até 1984, a gente realizava os empates, mas não tínhamos muita clareza do que queríamos. Sabíamos que o desmatamento era o nosso fim e de todos os seres vivos existentes na selva. Mas a coisa terminava aí. As pessoas falavam: “Vocês querem impedir o desmatamento e transformar a Amazônia em santuário? Intocável?”. Estava aí o impasse. A resposta veio através da Reserva Extrativista. Vamos utilizar a selva de forma racional, sem destruí-la. Os seringueiros, os índios, os ribeirinhos há mais de 100 anos ocupam a floresta. Nunca a ameaçaram. Quem a ameaça são os projetos agropecuários, os grandes madeireiros e as hidrelétricas com suas inundações criminosas. Nas reservas extrativistas, nós vamos comercializar e industrializar os produtos que a floresta generosamente nos concede. Temos na floresta o abacaba, o patoá, o açaí, o buriti, a pupunha, o babaçu, o tucumã, a copaíba, o mel de abelha, que nem os cientistas conhecem. E tudo isso pode ser exportado, comercializado. A universidade precisa vir acompanhar a Reserva Extrativista. Estamos abertos a ela. A Reserva Extrativista é a única saída para a Amazônia não desaparecer. E mais: essa reserva não terá proprietários. Ele vai ser um bem comum da comunidade. Teremos o usufruto, não a propriedade.

JORNAL DO BRASIL – Quem aprovou a idéia primeiro?

CHICO MENDES – Por incrível que pareça foi o exterior. Lamentamos que isso tenha acontecido. Em 1987, em janeiro, recebemos uma comissão da ONU, em Xapuri. Viram nossa luta. Já em março desse mesmo ano fui convidado a participar de uma reunião do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), em Miami. Por que minha presença ao lado desses banqueiros? Por que são esses bancos que com seus financiamentos estão destruindo a Amazônia. Durante esse encontro fui entrevistado seguidas vezes pela imprensa internacional. Não fui procurado por um único jornalista brasileiro. Logo depois, fui ao Congresso e falei para os congressistas americanos.

[…]

JORNAL DO BRASIL – O governo de Rondônia parece não gostar de sua atuação, que teria ajudado a suspender o financiamento de um projeto de US$ 200 milhões por parte do Banco Mundial (Bird). É verdade?

CHICO MENDES – O governo de Rondônia anunciou um projeto com mais de 1 milhão de hectares para criação de reservas extrativistas. Tudo armação. Denunciamos. Mandei uma carta para o Bird, alertando-o sobre a importância do projeto. A partir disso, o empréstimo foi sustado.

JORNAL DO BRASIL – Rondônia foi violentada?

CHICO MENDES – A maior vítima de todos esses projetos de desenvolvimento. Nada similar foi feito no mundo em termos de destruição em tempo tão curto. Terras férteis transformadas em pastos, mata queimada, seringueiros expulsos. Um apocalipse.

JORNAL DO BRASIL – Quantas reservas extrativistas já foram criadas no Acre?

CHICO MENDES – O governador já aprovou o São Luís do Remanso, 40 mil hectares; Santa Quitéria, em Brasiléia, com 40 mil hectares, que já está se encaminhando; e o Seringal Cachoeira, com 25 mil hectares, em Xapuri, na base da luta, do empate, da resistência; e Macauã, em Sena Madureira, com mais de 50 mil hectares. Nós não ignoramos que o governador Flaviano de Melo também recebe muita pressão dos fazendeiros.

[…]

*Jornal do Brasil, 25/12/1988

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