A invenção do jornal

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Prof. Pablo Michel Magalhães
Licenciado em História - UPE
Especialista em Docência da Filosofia - UCAM
Mestre em História - UEFS

Os jornais são um meio de comunicação usado pela civilização humana há mais de 2 mil anos.

Ao que tudo indica, Júlio César, general e ditador romano, criou o primeiro registro que pode ser remotamente considerado o primeiro jornal da história, a Acta Diurna, para poder divulgar suas conquistas militares (fazendo obviamente muita propaganda pessoal).

Sua criação, situada no ano 69 a.C., tinha como objetivo divulgar os principais acontecimentos da então República, através de tábuas fixadas nos muros das principais localidades, incluindo a residência do pontífice – cargo político-religioso então exercido por Júlio César.

Para poder escrever a Acta Diurna, surgiram os primeiros profissionais de jornalismo do mundo. Eles foram enviados para todas as regiões e províncias Romanas para acompanhar e escrever as notícias.

Na China, circulavam entre oficiais da corte, durante o final da Dinastia Han (séculos II e III AD) folhas de notícias do governo, chamadas tipao. Entre 713 e 734, o Kaiyuan Za Bao(Boletim da Corte) da Dinastia Tang chinesa também publicava notícias do governo; era escrito a mão, em seda e lido pelos oficiais do governo.

Durante o período medieval, os principais veículos populares de informação eram comerciantes, trovadores e demais indivíduos que acompanhavam as feiras e rotas comerciais ao longo das cidades europeias.

Com a maior integração da Europa, no início da Era Moderna, foi sentida uma maior necessidade de informação, inicialmente atendida por folhas de notícias escritas a mão. Em 1556, o governo da República de Veneza publicou o mensal Notizie scritte. Estes avisos eram boletins escritos à mão e utilizados para distribuir notícias políticas, militares e econômicas para as cidades italianas (1500–1700) — compartilhando algumas das características de um jornal, apesar de não serem normalmente considerados verdadeiros jornais.

No século XVI, o jornal teve o seu maior salto tecnológico: a prensa de papel inventada pelo Alemão Johannes Gutenberg possibilitou que o trabalho que antes era realizado manualmente pudesse ser feito por máquinas, tornando a publicação de livros e de jornais muito mais ampla, rápida e barata.

A prensa de papel, construída com base na tecnologia dos tipos (letras) móveis e também da prensa de vinho (que já era conhecida na Europa) permitiu que Gutenberg criasse toda uma nova indústria.

A necessidade de uma nova forma de mídia no século dessesete, ganhou força com a invenção da prensa móvel expandindo a imprensa. O jornal em alemão Relation aller Fürnemmen und gedenckwürdigen Historien, impresso a partir de 1605 por Johann Carolus em Estrasburgo, é reconhecido como o primeiro jornal da história.

Foi só na primeira metade do século XVII que os jornais começaram a surgir como publicações periódicas. Os primeiros jornais modernos nasceram em países da Europa Ocidental como Alemanha, França, Bélgica e Inglaterra. A maior de parte de suas publicações traziam notícias da Europa e raramente incluíam informações da América ou Ásia. Os jornais ingleses costumavam relatar derrotas sofridas pela França e os franceses relatarem os escândalos da família real inglesa.

Os assuntos locais começaram a ser priorizados na segunda metade do século XVII, mas ainda eram controladas para que os jornais não abordassem nada que incitasse o povo a uma atitude de oposição ao governo dominante. Ainda assim, alguns jornais conseguiram alguns feitos como as manchetes de jornais que noticiaram a decapitação de Charles I ao fim da Guerra Civil Inglesa, apesar de Oliver Cromwell ter tentado apreender os jornais na véspera da execução. A primeira lei para proteger a liberdade de imprensa surgiu em 1766 na Suécia.

invenção do telégrafo, sistema concebido para transmitir mensagens de um ponto para outro em grandes distâncias, em 1844, transformou a imprensa escrita, pois permitiu que as informações fossem passadas rapidamente, possibilitando relatos mais novos e relevantes. A partir daí, os jornais emergiram no mundo inteiro.

No início do século XIX, os jornais se tornaram, definitivamente, o principal veículo de divulgação e recebimento de informações. O período entre 1890 a 1920 ficou conhecido como “anos dourados” da mídia com a construção de verdadeiros impérios editoriais. Além de informarem, os jornais também ajudaram na divulgação de propaganda revolucionária como o texto “O Iskra” (A Centelha) publicado por Lênin em 1900.

A imprensa brasileira nasceu oficialmente no Rio de Janeiro em 13 de maio de 1808, com a criação da Impressão Régia, hoje Imprensa Nacional, pelo príncipe-regente Dom João.

Gazeta do Rio de Janeiro, o primeiro jornal publicado em território nacional, começa a circular em 10 de setembro de 1808, impressa em máquinas trazidas da Inglaterra. Órgão oficial do governo português, que se tinha refugiado na colônia americana, portanto evidentemente o jornal só publicava notícias favoráveis ao governo.

Porém, no mesmo ano, pouco antes, o exilado Hipólito José da Costa lançara, de Londres, o Correio Braziliense, o primeiro jornal brasileiro — ainda que fora do Brasil. O primeiro número do Correio Braziliense é de 1 de junho de 1808, mas só chega ao Rio de Janeiro em outubro, onde tem grande repercussão nas camadas mais esclarecidas, sendo proibido e apreendido pelo governo. Até 1820, apenas a Gazeta (e revistas impressas na própria Imprensa Régia) tinham licença para circular. Em 1821, com o fim da proibição, surge o Diário do Rio de Janeiro.

Enquanto o jornal oficial relatava “o estado de saúde de todos os príncipes da Europa, (…) natalícios, odes e panegíricos da família reinante”, o do exilado fazia política. Embora (diferentemente do que muito se divulga) não pregasse a independência do Brasil e tivesse um posicionamento político por vezes conservador, o Correio Braziliense foi criado para atacar “os defeitos da administração do Brasil”, nas palavras de seu próprio criador, e admitia ter caráter “doutrinário muito mais do que informativo”.

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