História social do Jazz

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Prof. Pablo Michel Magalhães
Licenciado em História - UPE
Especialista em Docência da Filosofia - UCAM
Mestre em História - UEFS

O Jazz é um estilo musical e uma expressão artística que surgiu nos Estados Unidos, entre o final do século XIX e início do século XX. Uma manifestação musical que se originou principalmente de um legado religioso afro-americano e que influenciou diretamente na cultura do país.

Utilizado entre o fim dos anos 1910 e começo da década de 1920, o termo “jazz” designava um tipo de música que nascia em localidades como Nova Iorque, Chicago e New Orleans, onde surgiram os pioneiros e principais expoentes do gênero: a Original Dixieland Jass Band e a Original Creole Jazz Band. Especialmente em Chicago, os nomes mais importantes eram Louis Armstrong e Bix Beiderbecke, seguidos pelos músicos de Nova Iorque, Fats Waller e Fletcher Henderson. A partir do ano de 1930 o gênero já se encontrava proeminente e com diversas grandes orquestras consolidadas. Entre elas, destacam-se as de Earl Hines, Count Basie, Duke Ellington e Cab Calloway.

A história desse estilo musical está intrinsecamente ligada à escravidão negra nos Estados Unidos.

O tráfico de escravos no Atlântico trouxe forçadamente algo em torno de meio milhão de africanos aos Estados Unidos, em grande quantidade para os estados do sul. Grande parte foi trazida do oeste da África. Consigo, apesar da violência do rapto que sofreram, trouxeram fortes tradições da música tribal.

Podemos identificar algumas dessas tradições:

– os griots da savana do oeste africano, sob influência Islâmica. Estes contadores de história, que eram músicos, possuíam uma função social fundamental ligada à memória das tribos;

– A complexidade rítmica da orquestra de tambores da costa da floresta temperada

– A música de cordas do interior sudanês

Uma vez nos EUA, os membros de uma mesma tribo eram separados. O intuito era claro: dividir clãs, famílias, línguas e identidades, facilitando a dominação e inviabilizando possíveis revoltas. E, pela mesma razão, nos estados da Geórgia e Mississippi não lhes era permitida a utilização de tambores ou instrumentos de sopro. Acreditavam que eles poderiam enviar mensagens codificadas.

Entretanto, muitos fizeram seus próprios instrumentos com materiais disponíveis. O canto, a música e a dança mantinham a confiança e a unidade do grupo. Nas grandes fazendas de algodão, o canto dava o ritmo da colheita.

Esse canto passou a reforçar a identidade tribal, mantendo a unidade dos grupos negros escravizados em meio à exploração e aos maus tratos. Essas canções eram as work songs e field hollers, parecidas com a canção nativa ainda utilizada no Senegal. No porto de Nova Orleans, estivadores negros ficaram famosos pelas suas canções de trabalho.

Com a manifestação musical dos africanos e a influência da música europeia, podemos identificar 3 estilos musicais que deram origem ao jazz: blues, ragtime e spirituals.

Podemos definir o blues como um estilo ou forma musical que se baseia no uso de notas baixas (graves) com fins expressivos e que mantém uma estrutura musical repetitiva. O gênero surgiu nos Estados Unidos a partir do século XVII.

É chamado ragtime o ritmo musical cultivado nos Estados Unidos especialmente entre 1896 e 1917, e que é reconhecidamente uma das matrizes formadoras do jazz norte-americano. Sua origem está relacionada aos bares e juke-joints frequentadas pelos negros norte-americanos, e seu nome deriva da expressão “ragged time” (em uma tradução livre em português, “tempo rasgado”, ou ainda fragmentado, referindo-se ao ritmo sincopado e de contratempo).

Já o estilo harmônico dos hinos religiosos, salmos e demais músicas cristãs que eram adaptados para uma canção ritmada por palmas e movimentos corporais, foi chamado de Spiritual.

New Orleans é a cidade que viu o Jazz surgir. Uma cidade do estado de Louisiana, na qual habitavam afro-americanos, brancos, asiáticos e outros. Uma mistura perfeita para ver o surgimento de uma manifestação artística como o Jazz.

O “Jelly Roll Blues”, composta por Jelly Morton em 1905 e publicada em 1915, foi o primeiro arranjo de jazz impresso. Isso permitiu que mais músicos fossem apresentados ao estilo de Nova Orleans.

O novo estilo musical surgia nos bordéis da cidade, especificamente no bairro de Storyville, nos anos em que a prostituição não era considerada ilícita – 1897 a 1917.

Os ritmos que formavam o novo estilo musical eram ouvidos nos pequenos bares de Storyville, os honk tonks, como eram chamados, e viram o novo estilo musical se formar, sendo palco para uma nova expressão artística.

Em New Orleans o Jazz se formou e se expandiu e o que contribuiu muito para isso foi justamente a sua essência livre. Mas algumas cidades do sul também foram importantes locais para a formação e expansão do jazz, tais quais Baltimore, Memphis e St Louis.

Com o passar do tempo a popularização do Jazz foi inevitável, a partir do início do século XX surgiam as primeiras bandas que tinham uma formação composta de trombone, contrabaixo, piano, corneta e clarineta.

Uma banda em particular foi a responsável por propagar a nomenclatura “jazz” e tornar o estilo mais conhecido, essa banda era a “Original Dixieland Jass Band”.

A partir dos anos de 1910 os brancos ouviam e tocavam jazz, mas é somente a partir de 1920 que a manifestação artística passou a fazer parte também da cultura branca. Isso aconteceu logo após a Primeira Guerra Mundial. Nesse cenário, ouve uma forte emigração dos músicos negros para grandes cidades, como Nova Iorque.

A proibição da venda de bebidas alcoólicas nos Estados Unidos, que vigorou de 1920 a 1933, resultou na criação dos speakeasies, locais onde a bebida era vendida ilegalmente. Esses estabelecimentos acabaram sendo grandes difusores do jazz, que, por isso, ganhou a reputação de ser um estilo musical imoral.

Nesse período, em 1922, a Original Creole Jazz Band se tornou a primeira banda de jazz de músicos negros de Nova Orléans a fazer gravações. No entanto, era Chicago o novo centro do desenvolvimento do Dixieland, porque lá se juntaram King Oliver e Bill Jonhson. Naquele ano Bessie Smith, famosa cantora de blues, também gravou pela primeira vez.

São inúmeros os gênios do Jazz. Billie Holiday, Louis Armstrong, Ella Fitzgerald, Ray Charles, Miles Davies… Só pra citar alguns. Hoje, é um dos estilos musicais mais populares e influentes em todo o mundo.

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