O nascimento da Filosofia

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Prof. Pablo Michel Magalhães
Licenciado em História - UPE
Especialista em Docência da Filosofia - UCAM
Mestre em História - UEFS

O que nossa existência significa? Como devemos encarar o desafio de sobreviver em sociedade? De que maneira devo interpretar a morte? Como governos devem se organizar? Esses questionamentos são alguns possíveis dentro de uma infinidade muito maior de perguntas que encontram na Filosofia suas frequentes respostas.

E, apesar de o governo atual achá-la desnecessária e pouco “rentável”, a Filosofia está na raiz de todas as ciências e, principalmente, é ela que instiga o pensamento crítico e humanista nas pessoas.

A palavra Filosofia vem do grego e em sua etimologia, aborda o significado sintético: philos ou philia que quer dizer amor ou amizade; e sophia, que significa sabedoria; ou seja, literalmente significa amor ou amizade pela sabedoria.

A palavra, nessa concepção que temos, surgiu com Tales de Mileto (aproximadamente em 595 a.C), e ganhou especial sentido com Pitágoras (aproximadamente em 463 a.C).

A Filosofia é o estudo das inquietações e problemas da existência humana, dos valores morais, estéticos, do conhecimento em suas diversas manifestações e conceitos, visando à verdade; porém, sem se considerar como verdade absoluta, nem tentando achar essa máxima como verdade absoluta.

Ela se distingue de outras vertentes de conhecimento como a mitologia e a religião, visto que tenta, por meio do pensamento racional, explicar os fenômenos e questões humanas. Mas também não pode ser igualada, em termo de métodos, às ciências que têm a pesquisa empírica e experimentos práticos como fundamentos, uma vez que a Filosofia não se atém (não sendo descartada essa hipótese) a experimentos. Os métodos dos estudos filosóficos estão fundamentados na análise do pensamento, experiências práticas e da mente, na lógica e na análise conceitual.

Tradicionalmente, identifica-se a origem da Filosofia como saber oficializado no século VI a.C, na Grécia antiga, que é chamada comumente de “o berço da Filosofia ocidental”. Porém, a origem do pensamento filosófico e mesmo da filosofia (antes de ter esse nome) tem um lugar pouco lembrado e marginalizado. Estou falando do Egito Antigo e, consequentemente, da África.

Em tempos remotos, a filosofia Africana floresceu no Egito (ou Kehmet, como era chamado pelos próprios egípcios) e em Kush (também conhecida como Núbia ou Etiópia pelos gregos).

Era, então, uma espécie de pedagogia que continha os sábios ensinos (sebayit) dos antigos sábios, que eram estudiosos, padres e oficiais ou estadistas ao mesmo tempo. Esse conhecimento estava enraizado em várias áreas do saber (engenharia, arquitetura, religião, astronomia, matemática, geometria)… Ou seja, todas as áreas nasciam do conhecimento filosófico e dele estavam completamente embevecidas.

O conceito rekhet (escrito com o hieróglifo para noções abstratas) significa “conhecimento”, “ciência”, no sentido de “filosofia”, isto é, investigação sobre a natureza das coisas (khet) com base em conhecimento preciso (rekhet) e bom (nefer) julgamento (upi). O homem sábio ou a mulher sábia, claro, amam a verdade (maat, representada como uma das deusas do panteão egípcio).

Por que ilustrar uma ideia com uma imagem, no caso um hieróglifo de uma deusa? Isso pode ser explicado. O pensamento egípcio era gráfico e abstrato ao mesmo tempo. Os sinais, figuras e símbolos tangíveis estavam relacionados a ideias e significados.

As mulheres também estavam envolvidas na tradição intelectual, científica e filosófica. Peseshet foi a primeira mulher médica da medicina na história do mundo. Ela viveu durante a 4ª Dinastia ou no início da 5ª Dinastia (2584 ou 2465 a.E.C.)

Plotino (205-70 d.E.C.), filósofo e escritor romano nascido no Egito que fundou o neoplatonismo, escreveu durante o terceiro século d.C. que os “sábios egípcios mostraram sua ciência consumada usando sinais simbólicos… Assim, cada hieróglifo constituía uma espécie de ciência da sabedoria.”

Os principais nomes da filosofia grega aprenderam com os mestres egípcios os principais conceitos filosóficos (a existência, o ser, a lógica, o universo). Platão, Pitágoras, Tales de Mileto são alguns desses respeitosos alunos dos egípcios.

Além deste início egípcio, outras tradições filosóficas no mundo foram ainda mais antigas do que o legado grego.

A filosofia chinesa se desenvolveu antes do ano 1000 a.C., tendo como marco o oráculo I Ching (Livro das Mutações), e podemos datar sua era de ouro entre os séculos X e III a.C., com o desenvolvimento de uma série de correntes de pensamento filosófico, como o confucionismo, o taoísmo e o Yin Yang. O estilo chinês de Filosofia se caracteriza pelo aspecto prático, procurando orientar o ser humano sobre como se portar com harmonia em sua vida cotidiana.

Outra tradição muito antiga e importante é a indiana. Quando falamos em filosofia indiana, estamos tratando de escolas de pensamento que se desenvolveram desde o século XV a.C., quando a literatura oral deu origem aos Vedas, principal fonte de sabedoria indiana. Essa tradição filosófica legou as correntes de pensamento do hinduísmo, jainismo e budismo, que equilibram a reflexão filosófica às concepções religiosas.

Concluindo: muito antes do século VI a.C, ano em que oficialmente os gregos batizaram a Filosofia, ela já existia, era praticada em larga escala, e foi dessa fonte que os gregos beberam, se banharam e, posteriormente, receberam o título de “berço” sem ter sido.

Você pode se perguntar: mas por quê? Ora, a narrativa histórica oficial foi construída pelos brancos europeus, que em hipótese alguma cogitariam conferir à asiáticos e africanos, considerados inferiores por eles, a origem de um saber tão profundo e revolucionário. Principalmente nos séculos XVII e XVIII, o legado afro-asiático foi completamente escondido.

Mas, agora, você já sabe disso. Que tal compartilhar?

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