Sorrir não é o melhor remédio – Reflexões filosóficas

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Por que sorrimos? O movimento que nossos músculos fazem, ao contrair o rosto de modo a mostrar nossos dentes para uma outra pessoa está longe de ser algo involuntário. Faz parte, por aprendizado e repetição, dos nossos gestos cotidianos, banais, triviais. Se parássemos para contar quantas vezes sorrimos em nossa vida, a que número chegaríamos? Eu não me arriscaria a fazê-lo, muito menos a apostar se você que me lê sorriu mais que eu.

O ponto que quero levantar aqui não tem a ver com a matemática dos risos. Por que sorrimos? Associamos esse ato a alegria. Sorrimos porque queremos demonstrar a outra pessoa (e, por quê não, a nós mesmos) que algo, alguém, nos deixou felizes, alegres, animados. O sorrir é associado à excitação, o breve momento químico em que nosso cérebro entende que tal situação é boa, divertida, bacana. Sorrir é, então, o ápice desse momento de regozijo, e é através dele que exprimimos tamanha alegria.

Ora, se sorrir tem relação com alegria, então podemos compreender que é este ato, o sorrir, algo bom, porque a alegria é algo bom. Perseguimos, então, a cada dia, a possibilidade de sentir a alegria, ainda que ela esteja na escapada a alguma rede social, ou a vídeos em sites de streaming, ou mesmo alguns minutos de contato com alguém que apreciamos.

Qual o oposto da alegria, senão a tristeza? O lógico nisso é que nós, que buscamos a alegria, nos distanciemos cada vez mais do que é triste, do que representa e nos aproxima à tristeza. Como uma vez disse Ariano Suassuna, pela boca do personagem João Grilo, “quem gosta de tristeza é o diabo”. De fato, por que raios nós, que perseguimos a alegria, que queremos ser alegres, teríamos qualquer prazer em estar tristes? Particularmente, mantenho a dúvida sobre isso, mas consigo observar que nossa sociedade, com tantos anseios, recorrentemente vem dando resposta a esta pergunta. Se é apropriada, já é uma outra discussão.

Vou exemplificar: um dos fenômenos mais significativos e sintomáticos sobre o modo de vida da civilização humana no final do século XX e início do século XXI é o coach. Esse termo da língua inglesa invadiu os demais idiomas de modo quase avassalador, acompanhado de outro termo ainda mais popular e acessível aos paladares menos exigentes dos leitores ao redor do mundo: auto-ajuda. Um coach, que via de regra é um treinador (sua tradução literal), deixou de ser uma exclusividade dos campos de futebol, das quadras de basquete ou vôlei, dos abertos de tênis, ou seja lá quais outras modalidades de esportes que possamos elencar. Esse novo treinador tem uma especialidade ainda mais metafísica/espiritual. Ele treina pessoas para a vida. E o que isso seria? Ensinar técnicas e métodos para uma vida mais feliz, uma carreira profissional mais rentável, um processo de auto-conhecimento e aceitação, ou mesmo uma compreensão sobre a física quântica na sua vida!

A meta desses profissionais da “maximização da performance humana”: mudar o seu mindset (configuração da mente) para uma postura mais proativa e empreendedora. Em alguns casos, fazer com que você pense positivamente a ponto de “co-criar” coisas. Vislumbro aqui uma mistura de um marketing mequetrefe com doses muito generosas do livro O Segredo, sucesso nos anos 2000 e que encantou, como o flautista de Hamelin, muitas pessoas com a ideia de que, se você pensasse positivo, o universo trabalharia a seu favor. Há não muitos anos, a ideia de pensar positivamente já fazia parte de boa parcela da literatura de auto-ajuda, que se tornou um ramo literário quente no mercado de livros no mundo e, em especial, em nosso país.

A capacidade humana de imaginar coisas me fascina, mas, confesso que, em termos de coach e auto-ajuda, fico estupefato.

Esse fetiche com a positividade, a proatividade, a produtividade e, principalmente, a alegria enquanto modo de vida contínuo, criaram algo que está longe de ter controle. Estou falando do estado de adoecimento mental coletivo, representado pela ascensão da depressão e da taxa de suicídios em todo o mundo. Ser feliz, alegre, rir o tempo todo não são sintomas de uma vida plena. Principalmente quando esse tipo de comportamento para a ser uma condição imperativa ao ser humano. Ser, existir, são ações condicionadas ao fato de “ser feliz”.

Ou, ao menos, aparentar ser feliz.

Sempre que reflito sobre esse tema, entre um anúncio ou outro de coaches que aparecem para mim enquanto navego na internet, lembro de um filme muito bonito e que me marcou profundamente. Estou falando de Divertidamente, animação da Pixar. Assisti sem muita perspectiva, mas conclui cheio de perspectivas e um paradoxo dos mais apetecíveis a um professor de filosofia: e se precisássemos sentir e viver a tristeza para que isso nos ajudasse a amadurecer?

A todo o momento, a jovem personagem principal do filme sofria. Tendo de se mudar com seus pais, ela não conseguia se adaptar ao novo lar, a nova escola, aos novos amigos, e mesmo o esporte que ela tanto adorava revelara-se difícil demais de praticar. Enquanto isso, em sua mente, suas emoções pululavam em aventuras para tentar corrigir tantas coisas erradas. Em especial, Alegria e Tristeza (com iniciais maiúsculas, tratam-se de personagens).

Não vou revelar o roteiro do filme, mas vou revelar a essência dele (e vocês podem morrer ou matar com isso). Tudo passou a fazer sentido quando o filme mostra que, para que a jovem personagem principal pudesse dar um passo adiante em sua vida e na mudança pela qual estava passando, ela deveria sentir a Tristeza no âmago do seu ser, e chorar profundamente. Esse aprendizado, que apenas os momentos tristes podem transmitir, era o passo principal para que ela começasse a reconstruir seu eu e sua percepção sobre a vida.

Deixando a alegria de lado e colocando a tristeza no cerne de nossas reflexões, a esquizofrenia das relações mediadas pelos sites de redes sociais acaba por construir uma espécie de simulação sobre a realidade, onde você encontra a todo momento imagens e vídeos de pessoas sorrindo, felizes, posando de modo sexy, fingindo e teatralizando reações e emoções. Esse simulacro, como uma espiral louca de sorrisos e curtidas, cria a ideia de alegria full time. Isso nada mais é do que uma pílula para o adoecimento mental e emocional.

Retomando o título e o argumento inicial deste texto: sorrir não é o melhor remédio. Muitas e muitas vezes é no choro e no sentir-se triste que está o processo de reconstrução de si, tão necessário para a continuação desse caminho cheio de curvas, declives, buracos e montanhas que é a vida.

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