Amores platônicos – amar o ideal ou a realidade?

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Prof. Pablo Michel Magalhães
Editor
Mestre em História - UEFS
Especialista em Docência da Filosofia - UCAM
Licenciado em História - UPE

É comum ouvirmos, aqui ou acolá, que alguém sente por outra pessoa um amor nunca realizado, nunca consumado, que fica apenas no desejo, sem que os dois de fato vivam esse amor. Um amor platônico. Sem se preocupar, contudo, com o que o platônico no nome poderia significar, ou subentendendo a possibilidade de conexão com o filósofo fundador da Academia em Atenas, a acepção vulgar passou a ser tomada como uma expressão oficial dos amores não correspondidos. E é por aqui que começamos nossa reflexão, porque é no amor platônico que podemos identificar um problema na sobrevivência do próprio amor, ou dos amores, relacionamentos entre duas (ou mais) pessoas.

O que seria o amor platônico?

O Beijo, de Gustav Klimt

Platão (428/427 a.C – 348/347 a.C) é considerado um pilar do pensamento filosófico ocidental, acompanhado por seu mentor Sócrates e seu pupilo Aristóteles, compõem uma tríade referencial para a compreensão de mundo característica da cultura helênica a partir do século V a.C. É de Platão, e sua base socrática, que recebemos o conceito de Teoria das Ideias: todas as coisas pre-existem em substância, de modo imutável, no mundo inteligível (das formas ou ideias), em um estado perfeito. Ao serem representadas no mundo sensível, material, elas perderiam sua perfeição, sendo apenas objetos disformes, distantes da essência principal, que está apenas no mundo inteligível.

Trocando em miúdos: há o mundo inteligível (perfeito, onde a essência das coisas já existe, de forma imutável) e o mundo sensível (físico, onde a essência das coisas é representada nos objetos reais, que seriam disformes, não capazes de revelá-las de forma completa).

Desde as coisas mais simples (cavalo, cadeira, casa) às mais complexas (república, democracia, amizade e, o nosso tema, o amor), todas possuem uma essência perfeita no mundo inteligível, e uma representação fraca no mundo sensível (real). O amor, sendo um ideal, habita no mundo inteligível de modo completo, enquanto sua representação no real estaria bem distante de seu original.

Em O Banquete, temos um registro interessante sobre o pensamento platônico sobre o amor. Na obra, Platão reconta, pela boca de Aristodemo, um festim na casa de Agatão, poeta trágico ateniense. Sócrates é o mais importante dentre os homens presentes. Entre outros, também ali estão o próprio Aristodemo, amigo e discípulo de Sócrates; Fedro, o jovem retórico; Pausânias, amante de Agatão; o médico Erixamaque; Aristófanes, comediante que ridicularizava Sócrates, e o político Alcibíades.

O banquete (depois de Platão) – segunda versão, de Anselm Feuerbach, 1874.

É nesse festim que temos o registro, pela boca de Alcibíades, do mito de criação dos gêneros: no princípio, os deuses criaram 3 gêneros, qual seja, o homem, a mulher e o andrógino. Cada um deles possuía em si um duplo, ou seja, como se 2 habitassem o mesmo corpo, com quatro braços, pernas, mãos, pés, duas faces, etc. Por desagradarem aos deuses, os gêneros foram cortados ao meio, dividindo-os em metades que desejariam o tempo inteiro sua outra metade, sendo o Amor aquele que une-os.

Um a um, os convidados expõem em um discurso o que é o Amor, até o momento em que o próprio Sócrates se manifesta. Ele relata suas perspectivas sobre o Amor a partir de suas experiências e iniciação sexual com Diotima, sacerdotisa e filósofa do século V a.C.

Em um momento de sua narrativa, o filósofo conta que, ao ser indagada por ele sobre a origem do Amor, Diotima relata-nos o mito de Eros. Quando Afrodite nasceu, houve uma grande festa no Olimpo. Entre os convidados, se encontrava Recurso, possuidor de toda riqueza. Esse rico rapaz era filho da deusa Métis (a sabedoria, inteligência prática, prudência): 

“Depois que acabaram de jantar, veio para esmolar do festim a Pobreza [Penia, uma jovem mendiga], e ficou pela porta. Ora, Recurso, embriagado, penetrou o jardim de Zeus e, pesado, adormeceu. Pobreza então, tramando (…) engendrar um filho de Recurso, deita-se ao seu lado e pronto concebe o Amor.

O Banquete, ou, Do amor – Platão. Trad. José Cavalcante de Souza. Rio de Janeiro: DIFEL, 2008.

O Amor, filho de um pai sábio e rico e de uma mãe que não é sábia, e pobre, nasce sob o signo da beleza: 

“Eis porque ficou companheiro e servo de Afrodite o Amor, gerado em seu natalício, ao mesmo tempo que por natureza amante do belo, porque também Afrodite é bela”. (…) “Primeiramente ele é sempre pobre, e longe está de ser delicado e belo, como a maioria imagina, mas é duro, seco, descalço e sem lar, sempre por terra e sem forro, deitando-se ao desabrigo, às portas e nos caminhos, porque tem a natureza da mãe, sempre convivendo com a precisão. Segundo o pai, porém, ele é insidioso com o que é belo e bom, e corajoso, decidido e energético, caçador terrível, sempre a tecer maquinações, ávido de sabedoria e cheio de recursos, a filosofar por toda a vida, terrível mago, feiticeiro, sofista (…) está no meio da sabedoria e da ignorância. (…) Nenhum deus filosofa ou deseja ser sábio – pois já é –, assim como se alguém mais é sábio, não filosofa. Nem também os ignorantes filosofam ou desejam ser sábios; pois é nisso mesmo que está o difícil da ignorância, no pensar (…). Não deseja, portanto quem não imagina ser deficiente naquilo que não pensa lhe ser preciso”.

O Banquete, ou, Do amor – Platão. Trad. José Cavalcante de Souza. Rio de Janeiro: DIFEL, 2008.

A estrangeira reitera que uma das coisas mais belas é a sabedoria e o Amor é amor pelo belo, de modo que é forçoso o amor aspirar à sabedoria, como um filósofo. Sendo que o filósofo está entre a sabedoria e a ignorância.

Então, temos aqui que o Amor (Eros) é uma representação do filósofo. Eros está entre a sabedoria e a ignorância, como o filósofo, e tem uma relação estreita com a carência, ligada à aporia, momento onde há impasse, incerteza. Através do saber, da sophia, o filósofo e Eros chegam à euporia, abundância.

Na busca pela abundância, típica de sua natureza, o Amor vai galgando degraus rumo ao ideal de bom e belo que ele anseia. O corpo, o material, é algo secundário, dispensável, dentro da perspectiva platônica. É na essência inteligível, e não na sensível, que o Amor busca aquilo que deseja, ao mesmo tempo em que deseja não perder o que já possui. O amor, que Sócrates apresenta no Banquete e que representa o ideal platônico, está ligado ao desejo por algo, não sendo um bem em si, mas desejando o bem, o bom e o belo a todo momento.

Dentro da perspectiva platônica, o amor é similar à sabedoria, à inteligência. Não é bom nem mal em si, visto que é uma constante busca pelo ideal, e esse ideal é o ponto chave do processo de busca. Para Platão, o ideal habita no mundo das ideias, de modo puro, perfeito. Sua representação material é fraca, distorcida, efêmera. Assim, o amor a ser buscado dispensa o material, o corpo, por exemplo. Amar alguém é amar o ideal desse alguém.

Amantes . Detalhe da decoração do teto (em madeira) do claustro da abadia de Sto. Domingo de Silos (século XV – Burgos).

Mas (e nesse “mas”, nosso contraponto), quando desejamos algo/alguém, não desejamos também seu corpo, aquilo que é sensível e através do qual atingimos o prazer? O próprio Platão considera que Amor é algo irracional, que segue a natureza de seus instintos.

Pode haver quem pergunte: “Mas amor é algo puro, já paixão é o que está ligado ao desejo, ao prazer”. É equivocado pensar assim, uma vez que Eros é o amor dos amantes, o mesmo Eros que é debatido no Banquete e que Sócrates analisa em seu discurso. Amor e paixão, em Eros, estão juntos como o desejo de algo que não possuo. Ora, não desejamos o corpo, a matéria, o cheiro, o suor, o prazer?

E mais: quais perigos existem na construção ideal de um amor na vida de uma pessoa? Buscar um ideal de amor não poderia asfixiar os amores possíveis, de carne e osso, que circulam pelas ruas diariamente, ansiando por um encontro com alguém?

Entramos aqui em um paradoxo interessante. A fala de Sócrates, aprendiz de Diotima, expõe o Amor como uma busca por um ideal, ou seja, um amor pela Forma (entenda forma como padrão). Ora, mas nós não amamos ALGO, ALGUÉM? O amor não é um querer algo individualmente, do tipo, João deseja Maria? Pedro deseja Paulo? Marta deseja Mônica? O próprio Gregory Vlastos, estudioso da filosofia platônica, critica em Platão a ausência do amor individual.

Mas, de modo genial, Platão insere essa questão, pela boca de Alcibíades. Tendo chegado bêbado, ele subverteu a lógica dos discursos e afirmou que iria falar do amor através do seu objeto amado, Sócrates. Ou seja, seguindo o amor pelo indivíduo Sócrates ( e seu corpo).

Ao invés do ideal, temos o carnal. Platão não silencia Alcibíades, colocando-o no livro.

Contudo, permanecem minhas indagações, uma vez que: a representação de Alcibíades, o porta-voz do contraponto ao amor ideal da forma pelo amor real individual, é secundária; o próprio personagem, que existiu e foi de fato seguidor de Sócrates, suscita reprovação por parte do leitor, uma vez que ele foi traidor de Atenas, em favor de Esparta, e possivelmente figurou entre os acusadores do filósofo durante seu julgamento. Com Alcibíades no diálogo, Platão tenta mostrar que, sem compreender o real significado do Amor dentro do pensamento de seu mentor, Alcibíades tornou-se um político de atitudes nefastas apesar de conviver com Sócrates, e não por causa dele.

Em resumo: o amor por um indivíduo aparece como menor, ou mesmo sendo a versão errada do que é o amor, que Platão e Sócrates apresentam como o desejo do ideal.

O preâmbulo para a reflexão foi longo, mas precisamos concluir. Os amores platônicos são os amores ideais, pelo padrão do que se entende como o desejado. Se o amor é a busca constante por aquilo que nos falta, o aquilo que desejamos é justamente o que ideamos. Ideamos o par, inserimos nele as virtudes que admiramos, as formas que representam para nós o belo. Mas, e se o amor real não for nada disso, o que faremos?

A fluidez das relações na contemporaneidade refletem essa busca exaustiva por aquilo desejado, a ponto de o próprio ideal ser superior ao indivíduo, ao corpo, ao real das pessoas. Amar é uma constante metamorfose daquilo que é desejado diante de uma infinidade de padrões e da própria indefinição definitiva do eu. O que desejo? A cada dia, uma definição diferente.

Tela impressionista de Leonid Afremov

E qual a saída para as relações líquidas? Do amor sensível para o amor inteligível, há um processo de aprendizagem. Diotima, pela boca de Sócrates, diz que há escalas, níveis, degraus que subimos de acordo com nossas vivências do amor. Do desejo do corpo ao desejo da alma, há a construção racional do ideal, com o qual nos relacionamos e amamos.

Amar o belo, como um ideal, é amar o belo construído por você, e não um emprestado de alguém. O que é o belo que amamos? Um toque, um sorriso, um gesto, um ato diante de uma situação, o modo como alguém fala, ou mesmo um olhar… A construção do ideal é racional a partir do momento em que o indivíduo, de acordo com o seu subir nas escalas, degraus, do puro desejo corporal ao desejo espiritual, ideal, elabora e ama o objeto desejado inteligível.

SUGESTÕES DE LEITURA

BOLZANI FILHO, Roberto. O elogio de Sócrates por Alcibíades. Discurso, v. 46, n. 1, p. 47 – 72, 2016.

CHAUÍ, Marilena. Convite à filosofia. São Paulo: Editora Ática, 2000.

GHIRALDELLI JR., Paulo. O Amor e a origem da filosofia – mais um ou dois erros de Marilena Chauí. Disponível em: < https://ghiraldelli.wordpress.com/2009/06/13/o-amor-e-a-origem-da-filosofia-mais-um-ou-dois-erros-de-marilena-chaui/ >, acesso em: 12 de outubro de 2019, 19:07:32.

MARQUES, Marcelo P. Amor platônico?. Disponível em: < https://revistacult.uol.com.br/home/amor-platonico/ >, acesso em: 12 de outubro de 2019, 18:13:20.

PAVIANI, Jayme. O amor, do mito à dialética platônica. Disponível em: < https://revistacult.uol.com.br/home/o-amor-do-mito-a-dialetica-platonica/ >, acesso em: 12 de outubro de 2019, 18:30:22.

PLATÃO. O banquete. São Paulo: Nova Cultural, 1987. [Coleção Os pensadores]

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