“PELA LEI NATURAL DOS ENCONTROS, EU DEIXO E RECEBO UM TANTO”

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André Ramalho

Incerta vez, numa escola nas montanhas, um aluninho chegou e disse “posso entregar o trabalho que era para sexta-feira? É que minha mãe morreu, não pude vir”. RECEBI um baita nó na garganta. Quis dizer, nas não DEIXEI mais do que um silêncio que ainda grita na minha cabeça que não dorme.

Fui divulgar um evento numa escola que havia trabalhado. Fui aplaudido ao entrar em uma das salas. Não conto isso por vaidade, mas por espanto. Ninguém merece tanto. Na verdade, nunca tinha pensado no que podia ter DEIXADO naquele lugar, naquelas pessoas. Mas, aos poucos, fui lembrando que fora ali que decidi, pela primeira vez, DEIXAR não apenas meu conteúdo de História. Falei sobre um tal Repertório Cultural, que RECEBI e também queria DEIXAR. “Interpretar é dar sentido”, queria de verdade saber as palavras que carregavam. Desenhei uma árvore no canto do quadro (isto não é uma árvore!), brincava de Magritte. Onde, ainda tímido, usei violão e cavaquinho para mostrar as canções que aprendi em casa e que me deram as lentes que uso. Coisas que hoje me acompanham em todos os lugares.

Resolvi falar de Orwell e seu Big Brother trágica e lindamente anunciado. Falei do meu irmão que gostava de Fuga das Galinhas porque leu Revolução dos Bichos. Li João Cabral, intertextualizando com Vida Maria. Falamos de Renascimento, ainda mexidos com a Invenção da Infância. Acima de tudo, li suas histórias quando perguntei “Como você gostaria que estivesse sua vida daqui a 10 anos?”. Nada é clichê por acaso, mas, RECEBI muito mais que DEIXEI.

Só sei das coisas que RECEBO. Do que DEIXO, dependo de notícias. Tudo isso me fez e faz pensar no meu lugar, no meu ofício. Palavras e atitudes deixam registros e não temos quase nenhum poder sobre suas interpretações. Mesmo assim, cabe a nós direcionar as intenções. Nunca esquecer que todos têm história e que ao longo da caminhada RECEBEM e DEIXAM. Isso é trajetória e merece respeito.

Não tenho medo de ser esquecido, não sou Aquiles. Mas receio não DEIXAR nada de bom em ninguém. Ainda mais de quem RECEBO tanto. Não é justo ser desproporcional nessa questão.

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