ARMAS, SUOR E SANGUE: COMO FUNCIONAVAM OS LUDI ROMANOS.

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ESPECIAL GLADIADORES – TEXTO 3

Prof. Pablo Michel Magalhães 
Licenciado em História - UPE 
Especialista em Docência da Filosofia - UCAM 
Mestre em História - UEFS

Quem eram esses lutadores anônimos? O que os movia a lutar até a morte na arena, para o divertimento de milhares de pessoas? Partimos desses questionamentos para começar a desvendar os meios pelos quais os gladiadores são formados e preparados para os combates mortais.

   A princípio, precisamos saber que, tais como as academias de boxe ou lutas marciais em nosso tempo, os romanos dispunham dos Ludi. Porém, não se enganem: os romanos não praticavam musculação nesse local, muito menos buscavam neles praticar exercícios para manter a boa forma. Esses locais, que em latim significam, literalmente, jogos, serviam como verdadeiras academias de batalha para a formação dos gladiadores. Esses locais gozavam de um péssimo conceito em sua época, e as pessoas da alta sociedade romana não frequentavam os ludi com medo de serem alvo de fofocas e maldizeres.

   O dono do local, o açougueiro (chamado assim pejorativamente), em latim,lanista, era o responsável por fornecer aos seus homens comida, abrigo e treinamento, investindo em cada gladiador uma considerável soma de dinheiro buscando seu próprio enriquecimento. Para isso, ele não precisava que seus lutadores fossem os mais vitoriosos: era necessário que estes gladiadores fornecessem ao público um grande divertimento, demonstrando garra e disposição na luta. Viver ou morrer era apenas um detalhe, ou antes morrer seria ainda mais rentável, pois o lanista receberia um prêmio por fornecer tamanho espetáculo aos presentes.

   Em geral, os ludi podiam ser encontrados ao redor das grandes arenas. Um exemplo clássico era o ludus ao lado do Coliseu, que forneceu por séculos vários gladiadores que perderam suas vidas em batalhas sangrentas em suas areias. A localização facilitaria o translado, mas essa característica não é uma regra.

Por entre gládios, os treinamentos.

   Vamos utilizar a trajetória de um gladiador qualquer. Este pode ser um escravo com habilidades de combate, um homem livre capturado em guerra, um bandido ou ladrão que, em troca de redução de pena, poderia ser direcionado à gladiatura, ou até mesmo um homem livre que queria glória e fama nas areias de um anfiteatro (interessante é notar que, apesar de livre, ao iniciar sua carreira como gladiador, esse cidadão deve assinar um contrato com o lanista, onde permita que este possa castigá-lo e puni-lo quando ache necessário).

   Para Paul Veyne, seria difícil imaginar um homem (ou mulher) forçado a lutar contra a própria vontade, uma vez que este (ou esta) não seria capaz de fornecer o tão esperado espetáculo na luta.

   Voltemos ao nosso gladiador qualquer. Digamos que ele tenha sido capturado em campo de batalha e, por suas habilidades em batalha, foi encaminhado a umlanista. Nesse caso, a gladiatura é o meio mais promissor de escravidão no Império Romano, porque permite ao escravo acesso à fama e fortuna, capazes de lhe fornecer a liberdade ao custo de alguns combates.

Uma vez que ele é comprado por um lanista, o gladiador passa a viver em um regime em tudo parecido à vida militar romana. Deve respeitar as horas de treinamento no pátio, sob a supervisão do Doctore, um ex-gladiador e ex-escravo, sobrevivente aos combates e que havia conseguido alcançar sua liberdade, além da confiança do seu ex-dono, culminando com sua promoção à treinador de novos gladiadores.

A alimentação fornecida aos lutadores durante os treinamentos é rica em gordura e proteínas: eles precisam adquirir em pouco tempo a massa corporal necessária para suportar as batalhas, de acordo com sua modalidade de luta. Nesse sentido, eles vão sendo direcionados pelo Doctore. Os treinamentos incluem embates corpo a corpo, além de repetições de movimentos de luta e levantamento de pesos (nada parecido com o que temos hoje, os lutadores carregavam objetos pesados, dando voltas no pátio).

A gladiatura fornecia as seguintes categorias:

1) Bestiário (em geral, um lutador sem treinamento prévio, designado para se apresentar nas lutas matinais, contra animais ferozes, como leões, tigres, panteras, etc.).

2) Secutor, o perseguidor (utilizava uma armadura pesada, e em seu elmo havia apenas dois buracos negros para a visão, o que dava ao seu aspecto ares bastante sombrios; era treinado principalmente para lutar contra Reciários).

3) Reciário (lutador leve, com proteção para ombro e uma manga revestida para um dos braços, suas armas eram a rede e o tridente, embora também utilizasse um punhal)

4) Equites, o cavaleiro (categoria predominantemente de homens livres, dado a utilização de cavalos, pressupõe-se que apenas nobres que buscavam fama na gladiatura poderiam atuar nessa modalidade).

5) Murmillo, o peso pesado (gladiador pesado, com armadura completa, utilizava um elmo com desenho inspirado em peixes; portava sempre um escudo grande e um gládio característico de soldado romano).

6) Hoplomachus, o heleno (gladiador pesado, utilizava escudo redondo e armadura pesada de couro, com espada e lança como armas, frequentemente simbolizando um guerreiro grego).

7) Trácioo espadachim (apesar do nome, não era realmente um habitante da Trácia; possuía armadura pesada e escudo quadrado, tendo habilidades para lutar com duas espadas, as chamadas sicas, e era protegido por Nêmesis, a deusa da vingança).

   Uma vez que é treinado e direcionado para uma categoria, o lutador é encaminhado para sua luta na arena, onde deve mostrar ferocidade e animalidade. Lutar com todas as forças parece ser a melhor saída, porque ou se vence e cai nas graças da multidão, ou se perde com a mesma glória, podendo mesmo ser poupado pelo editor, magistrado que está organizando os jogos.

  Sobreviver a dez combates era algo impensável na vida de um gladiador, porém pouquíssimos, como Prisco e Vero, conseguiram atingir uma tal fama, após vários combates vencidos, que lhes rendeu a liberdade. O símbolo dessa conquista era um gládio de madeira, o rudis, que atestava, em escritos cravados nele mesmo, a história do campeão e sua incondicional liberdade.

   Apesar da efemeridade da gladiatura, não era raro encontrar os chamados cemitérios de gladiadores, onde as epígrafes, mais do que simplesmente identificar o morto, serviam como testemunhas da vida de vitórias e glórias desses lutadores, banhados à sangue e suor.

VALE A PENA CONFERIR:

Documentário Gladiadores: De volta à vida, da Discovery Channel.

GARRAFFONI, Renata S. Gladiadores na Roma Antiga: dos combates às paixões cotidianas. São Paulo: Annablume/FAPESP, 2005.

ROSTOVTZEFF, M. História de Roma. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1983.

VEYNE, Paul. Sexo e poder em Roma. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008.

Texto do Profº Pablo Magalhães, da redação d’O Historiante.

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Texto 1 – Sacramentum gladiatorum: os gladiadores dos circos romanos.