Branca de Neve, Cinema e Irmãos Grimm: cultura popular num cinema pop.

Compartilhe
Prof. Pablo Michel Magalhães
Licenciado em História - UPE
Especialista em Docência da Filosofia - UCAM
Mestre em História - UEFS

As recentes produções cinematográficas Branca de Neve e o Caçador Espelho, Espelho Meu trouxeram novamente ao gosto popular um dos contos mais difundidos e apreciados de todos os tempos. A história da jovem princesa atormentada e perseguida por sua madrasta má, amiga de incríveis 7 anões e que, ao final, recebe o beijo do príncipe e vive um final feliz para sempre, é das mais conhecidas, principalmente pelo trabalho de Jacob e Wilhelm, os irmãos Grimm, responsáveis por realizar uma vasta coletânea de contos populares, muitos deles escritos através de um trabalho de captação oral direto com camponeses.

Imagem/Reprodução: Lily Collins como Branca de Neve no filme Espelho, Espelho meu.

   Branca de Neve passou ao universo infantil através dos escritos dos irmãos alemães, mas nem sempre foi um conto para crianças. No entanto, a personagem está longe de ser a princesa guerreira de Branca de Neve e o Caçador, muito menos a bela e sagaz cantora de Espelho, Espelho Meu. Na fábula que Jacob e Wilhelm escreveram, que é apenas uma das versões, ainda que das mais antigas, Branca não tem mais que oito anos. Alguns toques sombrios e um final macabro selam a história que, apesar dos pesares, possui um final feliz.

   Para começar nossa análise, devemos refletir sobre alguns elementos que compõem este conto.

   Os Grimm perpetuaram em sua coletânea uma história alemã da Branca de Neve, fornecida por duas irmãs chamadas Jeannette e Amalie Hassenpflug, de uma comunidade de mineiros da Baviera. Nesta versão, Branca tem 7 anos ao provocar a ira de sua madrasta rainha, pelo fato de ser muito bela e todos repararem nisso. Por ciúmes, ela encarrega um caçador de conduzir a pequena menina para a Floresta Negra e lá matá-la, trazendo como prova de seu trabalho os pulmões e o fígado da vítima. Tendo pena de Branca, o caçador deixa que a princesa fuja, levando à madrasta rainha os órgãos de um javali. Ao receber o regalo, a mulher come-os ainda sangrando.

   Nesse meio tempo, Branca de Neve encontra a casa dos anões mineiros que aceitam recebê-la de bom grado, contanto que ela cozinhe, passe, lave e costure para eles.

   Ao receber notícias de que a menina ainda respirava sobre a Terra, a madrasta não poupa esforços para destruir a vida da pequena. Na primeira tentativa, disfarçada de vendedora de roupas, ela vai à casa dos anões e tenta oferecer um corpete à menina; ao oferecer-se para vestir Branca, a bruxa (pois realmente a é, os Grimm assim a chamam) aperta o corpete para matá-la, o que não funciona. Depois, com a desculpa de pentear os belos cabelos da jovem, a madrasta utiliza um pente envenenado, mas é desmascarada pelos anões mineiros, que expulsam-na de casa.

Imagem/Reprodução: Iluminura de 1905, por Franz Jüttner.

   Por fim, a famigerada maçã aparece. A madrasta, disfarçada como sempre, induz Branca a comer um pedaço da fruta, e esta logo cai em profundo sono. Ao chegarem do trabalho, os anões tentam, sem sucesso, acordar a pequena. Como ainda conservava as róseas faces que sempre teve, eles decidem colocar o corpo em um caixão de vidro, o que chama a atenção de um príncipe que, de todas as formas, tenta persuadi-los a dar-lhe a cripta com o corpo de Branca.

   Com pena, os anões cedem aos pedidos do rapaz. O príncipe, feliz, pede que seus empregados retirem o caixão do local. No entanto, um deles tropeça e deixa cair o objeto. Nesse momento, o pedaço de maçã, que estava entalado na garganta da menina, é expelido, e Branca de Neve volta a viver. 

   Felizes e apaixonados, o príncipe e a princesa decidem se casar, e preparam uma grande festa. A rainha madrasta também foi convidada, e se preparou para se apresentar lindamente no casamento. Ao chegar ao castelo, depara-se com Branca de Neve ao lado do príncipe e, apavorada, procura fugir, mas sua condenação já estaria por vir: sapatos de ferro, na brasa, foram retirados e colocados nos pés da vilã, e esta obrigada a dançar até a morte.

   Para Giuliano Palmieri, pesquisador dessa fábula, muitos elementos presentes no conto são, na verdade, referentes às comunidades de mineiros da Itália, de uma região no entorno do Monte Pore, no Tirol Italiano, chamada Cordevole. Durante o século XVIII, ainda sob o Império Austro-Húngaro, muitos mineiros alemães trabalhavam por lá, um dos argumentos para a presença do conto na Alemanha do século XIX dos Grimm.

   Um costume bastante característico dessa região pode ser um elemento da história de Branca de Neve. Nos contos italianos, a pequena é enviada à floresta para que possa servir de presa a um ser abominável. No costume das comunidades mineiras do Monte Pore, quando uma jazida se esgotava por completo, uma jovem das mais belas era enviada ao fundo da mina, no intuito de transmitir à Mãe Terra sua energia vital.

   O professor Palmieri também assinala uma outra possibilidade de inspiração: os mineiros da região de Cordevole, em especial das Dolomitas, seriam homens de baixa estatura, tendo em vista a estrutura encontrada por escavações nessa área.

   Além disso, persistiu durante muito tempo a lenda de que, nos bosques da região de Cordevole, habitava uma bruxa que possuía um grande conhecimento em venenos. Seria esta a inspiração para a madrasta má?

Leia também:

PALMIERI, Giuliano. I Regni Perduti dei Monti Pallidi. Roma: Cierre Edizioni, 1996. (Infelizmente, não há tradução para o português).

BURKE, Peter. A cultura popular na Idade Moderna. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.