Considerações sobre os filmes Muito além de cidadão Kane e Chatô, o rei do Brasil¹

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João Lucas Poiani Trescentti
Graduado em História pela Unesp/Assis-SP

Em 03 de dezembro de 1904, quando Roberto Pisani Marinho nasceu, no Rio de Janeiro, o paraibano Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Mello, mais conhecido por Assis Chateaubriand, ou simplesmente Chatô, já havia completado seus 22 anos de idade e iniciava seu flerte com a imprensa, escolha decisiva pra a sua carreira. Chatô, cabe destacar, enveredou-se também pela política ao participar, por exemplo, de eventos de grande impacto e repercussão nacionais, caso da Revolução de 1930 que levou Getúlio Vargas (1882-1954) ao poder. Chateaubriand e Marinho foram homens da imprensa em cujo terreno trilharam, relativamente, em concomitância. Nesse sentido, estão produções cinematográficas dedicadas a apresentá-los quais sejam: Muito além de cidadão Kane (Simon Hartog, 1993) e Chatô, o rei do Brasil (Guilherme Fontes, 2015), nas quais não faltam boas doses de críticas às duas figuras que interviram a partir da imprensa no meio público brasileiro.

As produções nos convidam a refletir acerca do papel dos dois jornalistas e formadores de impérios comunicacionais (Chateaubriand construiu os Diários Associados e Marinho as Organizações Globo, a partir do jornal O Globo fundado por seu pai Irineu Marinho), uma vez que as mesmas se esforçam por demonstrar não somente o que desempenharam na formação da área jornalística (impressa, radiofônica e televisiva), mas também as relações políticas e econômicas, na maioria das vezes escusas, que garantiam a influência deles nos meios econômico, político, social e governamental do país.

São dignas de nota as escolhas dos diretores com as quais podemos levantar algumas questões: ambos os personagens não deixam de ser apresentados a partir de uma crítica negativa, observadas as ênfases às suas posturas menos éticas e morais, ou seja, um Chateaubriand manipulador de notícias (lembrar-se do caso da Coca-Cola e da empresa de fósforos que se recusando às publicidades em seus periódicos foram alvos de duras críticas), apoiador de regimes de direita e ditadores, mulherengo, pouco afeito à família e aos filhos etc.; e um Roberto Marinho também defensor de regimes autoritários, nas palavras de Leonel Brizola: “o Stálin das comunicações”, ao se referir ao fato de ele mandar calar quem fosse contrário à sua atuação. Enquanto em Chatô, o rei do Brasil, título homônimo à biografia escrita em 1994 por Fernando Morais, faz-se uma releitura a partir daquela obra, cujo diretor optou por não manter a linearidade cronológica dos eventos vividos por Chatô, Muito além de cidadão Kane,realizado por ingleses e divulgado naquele país, vale-se do gênero documentarista para expor o dono da principal rede de televisão brasileira, a Globo e, sobretudo, seu obscuro envolvimento com o grupo americano Time Life, que lhe garantiu a formação do padrão Globo de qualidade, que adentra a casa de milhares de brasileiros ainda hoje.² Apesar das divergências técnicas adotadas pelos cineastas são visualizados um Assis Chateaubriand e um Roberto Marinho afeitos à postura do americano William Randolph Hearst (1863-1951) dono da principal cadeia de jornais e revistas dos Estados Unidos e representado pelo personagem Kane no importante filme de Orson Welles (1915-1985), Cidadão Kane (1941).

Por isso, se o historiador Marc Bloch (1886-1944), em seu clássico livro Apologia da História ou o Ofício do historiador, nos proporcionou a reflexão acerca da posição do homem no tempo a partir, mas não somente, do dito árabe, “um homem se parece mais com o seu tempo do que com os seus pais”, também é possível, sem prejuízo de sentido, afirmar que o homem sabe mais do seu tempo do que sobre o tempo de seus pais, uma vez que hoje ou mesmo há alguns anos falar de Roberto Marinho (era)é trazer à lembrança a Rede Globo e a afirmação de seu caráter manipulador de notícias (cf. interpretação do documentário). Já ao mencionar Assis Chateaubriand é referi-lo, provavelmente, à uma cidade paranaense ou à uma rodovia do interior paulista, se esquecendo das atitudes, posturas, ações realizadas, mesmo que à primeira vista de forma não proveitosa, em seu momento de vida e que se assemelham às desempenhadas pela emissora de Marinho.

Nesse sentido estão o trabalho e olhar do historiador. Com postura crítica e perguntas a documentos (que ao serem analisados tornam-se fontes históricas) o profissional promove questionamentos e entendimentos de temáticas do passado para propor às pessoas do presente interpretações sobre as permanências, rupturas, escolhas, atitudes desempenhadas por homens e mulheres ao longo do tempo, promovendo a lembrança de fatos que poderiam passar despercebidos por aqueles que não tiveram a oportunidade de se debruçar sobre o estudo da História.

Obras consultadas:

BLOCH, Marc. Apologia da História ou o ofício do historiador. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.

MORAIS, Fernando. Chatô. O rei do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.

1 Texto originalmente escrito para a disciplina da graduação em História da Unesp/Assis, “Tópicos de História da Imprensa”, sob a responsabilidade da Profª. Drª Tania Regina de Luca.

2 Basta ver a propaganda da emissora, divulgada em 2017, que demonstra sua grande quantidade de telespectadores ao dia.