FASCÍNIO E HORROR: A ATRAÇÃO QUE A GLADIATURA EXERCIA NO POVO ROMANO.

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ESPECIAL GLADIADORES – TEXTO 2

Prof. Pablo Michel Magalhães
Licenciado em História - UPE
Especialista em Docência da Filosofia - UCAM
Mestre em História - UEFS

 Seriam os romanos viciados em sangue, mortes e lutas? Apreciar um combate entre gladiadores representaria um gosto desmedido pelo horror dos combates sangrentos e carnificina?

   Essas perguntas fazem parte da curiosidade do público, em face de produções como a série Spartacus ou o filme Gladiador, onde os espectadores desses embates gritam, urram e reclamam mortes e muito sangue como resultado dos golpes desferidos. Entretanto, até que ponto essas produções cinematográficas estão certas ou erradas? Qual a motivação dos cidadãos do Império Romano em assistir jogos de luta?

Imagem: cena da série “Spartacus: Blood and Sand

   Aqui vamos além do primeiro texto desta série especial: os combates já não são realizados apenas como homenagem a honoráveis cidadãos nos funerais, mas representam também uma estratégia eleitoral. Os embates passam a crescer, e os locais onde ocorrem também. Anfiteatros são erguidos, pouco a pouco, nas cidades mais proeminentes, como investimento de famílias mais abastadas, tendo em vista o apoio popular e a exaltação do nome do paterfamilias, que oferece embates por ocasião das eleições, ou em homenagem a seus antepassados heróicos.

ROMANIDADE

   O gosto por estes espetáculos já era algo comum entre os romanos, e esses espetáculos adquiriam um público grande, que costumava lotar as arenas. Para além de Roma, as demais cidades da península itálica seguiram o ritmo de sua capital, e a gladiatura começou a significar fama e sucesso para aqueles envolvidos em seu exercício.

   O Império excede seus limites: na Hispânia, anfiteatros são erguidos, fruto do contato das culturas tribais hispânicas com o ideal romano de civilidade, como bem explica a historiadora Renata S. Garaffoni. Os romanos não impõem sua cultura em suas possessões. Eles assimilam a cultura de seus dominados e, dentro dessa realidade, aplicam a romanidade na vida urbana. A exemplo disso, podemos citar a relação destes conquistadores com os deuses locais: nunca destruíam os cultos e impunham seus próprios deuses, pelo contrário, os magistrados romanos enviados para governar o local realizavam sacrifícios a esses deuses locais, para que não se voltassem contra si próprios.

Imagem: Ceia de Trimalciao

   Ser romano é ser, acima de tudo, cidadão de uma Urbs (ou seja, ser urbano), e viver os prazeres de sua cidade (aqueles que viviam fechados em casa eram vistos com desconfiança). O privado, nesse momento, se confunde com o público, como bem define o historiador Paul Veyne.

GLÓRIA E FAMA

   Não se engane: poucos ou quase nenhum escravo que exerce a gladiatura está lá obrigado pelo seu senhor. Ninguém obriga um homem a treinar, aprender a arte da batalha e lutar. De acordo com Paul Veyne, os gladiadores são voluntários na maioria das vezes, exceto quando a justiça encaminha um criminoso para a gladiatura como opção, ao invés de enviá-lo aos campos de concentração e trabalhos forçados.

   Dentre os escravos, também, os senhores observavam os mais ligeiros e espertos, com potencial ao combate, e encaminham-nos para os ludus, locais de treino dos combatentes. Para o escravo, isso significaria um passo para a glória, caso realmente tivesse habilidades de bom gladiador: dinheiro, fama, mulheres, essas eram as recompensas de um lutador bem sucedido, além da possibilidade de aposentadoria (caso sobrevivesse, claro).

   Os gladiadores eram, também, super estrelas, como os grandes jogadores de futebol na atualidade. Eles são louvados pela população, seus fãs os eternizam nas paredes das cidades, com desenhos de suas batalhas, principalmente no momento em que ele decapta seu adversário. A população ama seus gladiadores, mas também os rejeita: é péssimo ser visto ao lado deles, pior ainda visitar um ludus. Mas não são poucas as moças de elite que buscam prazeres sexuais com gladiadores, esses personagens sagrados e profanos.

O ÊXTASE DE UMA ADORAÇÃO

   Conta Tácito, membro da elite romana, que em 59 d.C, durante o principado de Nero, uma troca de injúrias provocou um embate colossal entre colonos de Pompéia e Nucéria. Provavelmente, esse enfrentamento teria sido motivado pela preferência por um ou outro gladiador que estavam, naquele momento, se enfrentando na arena.

   Em seu relato, Tácito diz que esse evento ocorreu durante o espetáculo de gladiadores organizado por Livíneo Regulo, magistrado local que teria sido retirado de seu cargo pouco depois por ordem de Roma. A princípio, alguns espectadores começaram a divergir sobre o melhor gladiador em batalha, indo rapidamente de uma simples divergência para discussão e troca de injúrias, e logo pompeianos e nucerianos armaram-se com paus e pedras, e a batalha começou.

   Os nucerianos foram massacrados pelos torcedores de Pompéia, e o caso foi parar em Roma, que resolveu punir os agressores de ambos os lados, além de dissolver os colegiados pompeianos. Em Pompéia, também, foram proibidas as reuniões públicas para os próximos 10 anos.

   Realmente, falar em gladiadores em pleno Império Romano era mexer com os brios de vários torcedores.  

 Texto do Profº Pablo Magalhães, da redação d’O Historiante.

TEXTO 3 – ARMAS, SUOR E SANGUE: COMO FUNCIONAVAM OS LUDUS.