Martinho Lutero: o personagem por trás da História.

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Antissemitismo e Reforma: algumas perspectivas.

Prof. Pablo Michel Magalhães 
Licenciado em História - UPE 
Especialista em Docência da Filosofia - UCAM 
Mestre em História - UEFS

De acordo com a tradição perpetuada nas aulas de história das escolas de ensino regular, Martinho Lutero lutou bravamente contra a opressão e a tirania da Igreja Católica, que extorquia dinheiro dos seus fiéis mediante a oferta de sufrágios e indulgências, que miraculosamente poderiam salvar os mortos de acabarem no Inferno, ou reduzir os anos no Purgatório, permitindo um caminho mais tranquilo até o Céu.

Para muitos, a imagem desse personagem histórico ficou atrelada ao ideal de heroísmo, e seu nome frequentemente é assimilado à liberdade e luta por melhoria de condições, bem como a um retorno à verdadeira religiosidade cristã.

Ora, muito disso é verdade: Lutero levantou-se realmente contra a Igreja, defendendo suas ideias contra a corrupção que assolava Roma. No entanto, ele também foi uma das ferramentas no jogo de poder entre os príncipes alemães contra o Imperador Romano-Germânico, que representava uma força estrangeira nos assuntos de uma Alemanha que ainda não era um país como conhecemos atualmente.

O contexto no qual Lutero está inserido apresenta uma transição entre o período Medieval e a Idade Moderna, que os historiadores comumente situam entre os séculos XIV e XVI, onde as ideias políticas, sociais e religiosas sofreram grandes mudanças.

É nesse período que o papel do dinheiro cresce consideravelmente nas cidades, uma vez que as transações comerciais se aperfeiçoavam cada vez mais para aquilo que conhecemos como Mercantilismo, um pré-capitalismo que começa a se desenvolver. A Itália desse período, longe de estar unificada como um único país, é o centro dessas trocas comerciais, principalmente por deter os melhores portos do Ocidente, como Veneza e Gênova.

Os papas (Alexandre VI Borgia, Júlio II, Leão X) foram representantes cristãos preocupados principalmente com o governo secular e o poderio econômico. Eram homens de negócios, não homens de fé propriamente. Dessa forma, grande parte do clero estava atacado pela corrupção. Existia um consenso, mas não uma ordem, de que os padres e monges deveriam satisfazer os desejos carnais com prostitutas, fugindo assim do pecado de felação (relações sexuais anais com homens) e de fugir aos votos de celibato (não constituírem família, em hipótese alguma).

Lutero representa uma multidão de vozes que se mostravam insatisfeitas com esse quadro geral, sugerindo uma grande mudança das instituições religiosas.

No entanto, longe de ser o herói que muitos pregam, Lutero mostrou-se, em diversos momentos, avesso aos rumos que a Reforma tomou. Quando camponeses começaram a tomar atitudes violentas contra o clero, como assassinatos e holocaustos, Lutero mostrou-se indisposto ao movimento e sugeriu aos duques e príncipes que o apoiavam que fossem presos os revoltosos.

Além disso, Lutero foi um dos primeiros homens públicos a demonstrar abertamente seu antissemitismo. Em seu livro Sobre os Judeus e suas mentiras, ele mostra todo seu ódio em relação aos judeus que habitavam os estados alemães. Em uma das partes, Lutero afirma o seguinte:

“Queime suas sinagogas. Negue a eles o que disse anteriormente. Force-os a trabalhar e trate-os com toda sorte de severidade … são inúteis, devemos tratá-los como cachorros loucos, para não sermos parceiros em suas blasfêmias e vícios, e para que não recebamos a ira de Deus sobre nós. Eu estou fazendo a minha parte.”

Ao contrário do que muitos pensam, Lutero não foi o primeiro a traduzir a Bíblia para a língua vulgar. Segundo o historiador André Corvisier, a tradução feita por ele foi a 18° tradução alemã do livro sagrado do cristianismo. Além disso, várias outras traduções para línguas vulgares (italiano, francês, inglês) já circulavam na mesma época, como o exemplar que o moleiro Menocchio possuía, quando do seu processo pela inquisição, no início do século XVI (Ver o livro O queijo e os vermes, de Carlo Ginzburg).

Como devemos saber, os heróis que a sociedade costuma cultivar, em se tratando do trabalho historiográfico, devem ser desmistificados, passando por uma análise mais acurada.