Sacramentum gladiatorum: os gladiadores dos circos romanos.

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ESPECIAL GLADIADORES – TEXTO 1

Prof. Pablo Michel Magalhães 
Licenciado em História - UPE 
Especialista em Docência da Filosofia - UCAM 
Mestre em História - UEFS

Muitos são os elementos legados como herança da Civilização greco-romana que fascinam os contemporâneos. Um desses elementos, que aqui evidenciamos, é a gladiatura. Guerreiros semi-nus, empunhando escudos, elmos e gládios, lutando por suas vidas numa arena onde o público só alcançava a saciedade com um grande derramamento de sangue. Areia e sangue, corpos em contato, gládios reluzindo e cabeças rolando. Tudo isso, fazendo parte da tal política de panem et circenses (Pão e circo), onde magistrados, senadores, imperadores e demais líderes romanos entretinham as massas, fazendo-as esquecer dos problemas e impossibilitando que esse povo promovesse uma revolução.

   Essa ideia preconcebida ao longo do século XIX e primeira metade do século XX é a explicação mais simples e fácil que a maioria dos professores de história repetem aos seus alunos. Porém, afirmar que apenas isso é verdade, e que gladiadores e gladiadoras (sim, mulheres também lutaram em arenas)eram nada mais que estratégias de contensão das massas, é simplesmente ser levado pelo conformismo.

ORIGENS DOS COMBATES ENTRE GLADIADORES

   De acordo com Paul Veyne, respeitado historiador especializado em Civilização greco-romana, os combates entre gladiadores tem sua origem ligada aos funerais dos cidadãos notáveis. Era comum a prática de encenações de choros e lutas simuladas como forma de demonstrar toda a tristeza e desolação pela morte de alguém. Essas lutas, por exemplo, eram encenadas durante o enterro ou cremação dos corpos. Geralmente, boa parte da população comparecia para assistir a esse espetáculo funerário, bem como acompanhar o testamento do notável cidadão falecido.

   O costume de munus funebre,de dar algo para a população (divertimento, comida, benefícios), fazia com que a memória do morto fosse exaltada, bem como sua casa e família. A popularidade das lutas fez com que, a cada funeral de um ilustre cidadão romano, estas fossem oferecidas em honra do defunto e para o divertimento da população. Esse costume fez com que, cada vez mais, a luta entre esses desafiantes caísse no gosto popular.

   A princípio, torneios de gladiadores não existiam, mas a partir do século I, os embates entre esses guerreiros começaram a ser mais frequentes, como sugere a historiadora Renata S. Garraffoni.

SINE MISSIONE

   Geralmente, os combates entre gladiadores ocorriam até que um dos dois chegasse a admitir a derrota, apontando o dedo indicador para cima, em sinal de rendição. A esse gesto, público e o nobre que oferecia a festa decidiriam o destino no perdedor. O enforcamento era o destino comum para esses gladiadores que, à beira da morte, ainda deveriam demonstrar força e indolência, encarando sua sentença com coragem. Em outros casos, quando a luta era disputada até o fim e não havia unanimidade entre vencedor e perdedor, ambos os gladiadores da batalha eram poupados, pela bravura demonstrada na arena.

   Porém, torneios ou desafios entre gladiadores poderiam ser marcados sine missione, ou seja, sem misericórdia, sem perdão: ao perdedor, decapitação ou forca, sem esperar a decisão dos espectadores.

LANISTAS

   Quem compra ou vende esse tipo de escravo? Quem cuida do treinamento, para que o gladiador esteja em forma para as lutas?

   Pejorativamente chamados de lanistae (açougueiros), eram eles quem se encarregavam de movimentar o mercado de escravos com potencial para a gladiatura. Verdadeiros mercadores de carne humana. Os ludus, centros de treinamento dos gladiadores, eram lugares muito mal vistos pela sociedade. Segundo Paul Veyne, quando alguém queria ofender outra pessoa que frequentava locais mal vistos, dizia-se que ela visitava os bordéis e as casas de gladiadores, lupanaria et ludus.

GLADIADOR X ESCRAVO

   Muitos escravos eram direcionados para a gladiatura. Entretanto, essa não era a única fonte de víveres para esta atividade. Muitos dos gladiadores que atingiram relativa fama eram voluntários. Não há como forçar alguém a lutar: a batalha perde toda sua magia. Por isso, a gladiatura passou a ser uma 2ª chance para bandidos e ladrões que poderia escapar da prisão exercendo a função de gladiador. Além disso, em busca de dinheiro para saldar dívidas, muitos cidadãos que deviam na praça buscavam a gladiatura para angariar fundos e saldar seus penhores.

Texto do Profº Pablo Magalhães, da redação d’O Historiante.

TEXTO 2 – FASCÍNIO E HORROR: A ATRAÇÃO QUE A GLADIATURA EXERCIA NO POVO ROMANO.