A moderna música popular brasileira

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Prof. Carl Lima
Licenciado e Mestre em História - UEFS

Segundo o Historiador Marcos Napolitano, o Brasil é sem dúvida umas das grandes usinas sonoras do planeta e um lugar privilegiado não apenas para ouvir, mas também para pensar música. Podemos assim, supor que a música sempre esteve presente no cotidiano da sociedade brasileira: dos cantos gregorianos/religiosos aos lamentos dos escravos no eito do trabalho na colônia/império, passando pelo século XIX e a invenção da vida burguesa com suas expressões artísticas de lazer, no qual destacam-se os musicais, como a Modinha, Lundu, Polca, Choro, Maxixe.

É importante ressaltar que as classes populares também mantinham seus espaços de diversão musical, a exemplo do sarau doméstico, a rua, o pagode popular e as festas nas Senzalas.

Chegando ao século XX e ao desenvolvimento da música popular, denominada particularmente de Canção, que serviriam tanto para excitação corporal – música para dançar – quanto para emocional – música para chorar de dor ou de alegria – reelaborada e ressignificada pelos meios de comunicação, primeiramente o rádio e em posterior a televisão, a sua presença marcou época, cultivou paixões, criou ídolos e, o mais importante, relacionou-se intimamente com as fases de nossa história, sendo caracterizada como documento sócio-histórico e destacando-se pelos seus testemunhos que contribuem para pensarmos as transformações na sociedade brasileira por outro viés. Além disso, devemos reconhecer que a música foi, ao menos em boa parte do século XX, a tradutora dos nossos dilemas nacionais e veículos de nossas utopias sociais.

Ataulfo Alves: grande sambista da década de 1930.

O período que proponho a reflexão principia na década de 1960, é o momento de gestação e modernização da música popular brasileira (MPB). A MPB representa muito mais que um gênero musical específico, define-se de alguma maneira enquanto um complexo cultural que tem em suas bases o fechamento de um processo cultural/artístico/estético iniciado nos anos 20, que tinha como objetivo final a busca e apreensão de uma identidade nacional brasileira. Essa música popular é reconhecida, por muitos, como a síntese genealógica da experiência musical no Brasil, e a sua existência era sustentada por um complexo hibridismo.

A MPB entendida como um movimento amplo e complexo, responsável pela modernização da música tradicional, incorporou durante esse período que estou enfatizando – entre as décadas de 1960 e 1980 – dois outros movimentos que reivindicavam para si a tutela desse processo de modernização musical. O primero deles, os Bossa-Novistas, que, nos fins dos anos 1950, resolveram romper com o projeto de folclorização da música popular e passaram a buscar, a todo custo, a valorização da mistura dos gêneros musicais brasileiros, com as tendências da música internacional do período, que naquele momento convergiam no Jazz. Assim, João Gilberto, Carlos Lyra, Edu Lobo e Nara Leão tinham como características a sutileza interpretativa, a harmonia valorizada e o adensamento dos elementos estruturais da canção (harmonia, ritmo e melodia) sempre construído em torno de temáticas intimistas (amor, sorriso, flor). A Bossa-Nova mais que rompeu – como era dito por seus artistas – com a tradição musical, a exemplo do samba-canção dos morros cariocas; ela ressignificou, incorporou elementos e proporcionou um dinamismo na fixidez amalgamada cultural brasileira. 

O nascimento da Bossa Nova correspondeu ao período de otimismo da ideologia nacional-desenvolvimentista, emanada pelo governo de Juscelino Kubitschek, onde houve construções de grandes parques industriais e a inserção de fato, do país, ao capitalismo industrial.

Se no início do governo Kubitschek ocorrera alguns problemas na ordem de legitimidade ideológica ou de econômica/fiscal, a segunda etapa de sua administração, marcou-se pela calmaria ou por uma “harmonia forjada”, em nome do projeto brasileiro de futuro, assegurado e amparado pelo seu Plano de Metas. Portanto, momento mais do que propicio para o desenvolvimento do campo cultural e com uma temática voltada para modernidade.

O outro movimento reivindicatório do modernismo musical foi o Tropicalismo ou simplesmente Tropicália. Inaugurado na virada de 1967 para 1968, período historicamente conhecido como do “golpe dentro do golpe”, desenvolvido a partir da instauração do Ato Institucional 5 (AI5) e que radicalizou o processo ditatorial em andamento, caracterizando-se por proibir toda e qualquer forma de oposição e manifestação contrária ao regime. O Tropicalismo nasce inicialmente crítico à MPB, principalmente à sua faceta nacionalista engajada. As críticas, conforme Napolitano (2005) seriam as seguintes: a MPB privilegia o conteúdo e não a forma; folcloriza o subdesenvolvimento, Xenófoba, era mistificadora e idealista, pois se voltava apenas para o “dia que virá nos libertar”. Além do caráter crítico, a Tropicália demonstrou desde o seu nascimento personalidade, particularmente por incorporar outros estilos e materiais sonoros renegados tanto pela Bossa Nova, quanto pela MPB nacionalista, para os quais eram denominadas de cafonas e difamadas pelo mau-gosto, a exemplo do bolero e das marchinhas populares; ou por sua inserção ao Pop e aos modismos fonográficos internacionais, como destaque para o Rock’n roll dos Beatles. Caetano Veloso, Gilberto Gil, Torquato Neto, Tom Zé, Jorge Mautner, Capinam, Gal Costa – líderes do movimento – tornam-se vanguardistas de uma estética nacional, que agora, se queria também internacionalista.

O primeiro time da Bossa Nova: Tom, Vinícius, Bôscoli, Menescal e Lyra.

O nascimento da Bossa Nova correspondeu ao período de otimismo da ideologia nacional-desenvolvimentista, emanada pelo governo de Juscelino Kubitschek, onde houve construções de grandes parques industriais e a inserção de fato, do país, ao capitalismo industrial.

Se no início do governo Kubitschek ocorrera alguns problemas na ordem de legitimidade ideológica ou de econômica/fiscal, a segunda etapa de sua administração, marcou-se pela calmaria ou por uma “harmonia forjada”, em nome do projeto brasileiro de futuro, assegurado e amparado pelo seu Plano de Metas. Portanto, momento mais do que propicio para o desenvolvimento do campo cultural e com uma temática voltada para modernidade.

O outro movimento reivindicatório do modernismo musical foi o Tropicalismo ou simplesmente Tropicália. Inaugurado na virada de 1967 para 1968, período historicamente conhecido como do “golpe dentro do golpe”, desenvolvido a partir da instauração do Ato Institucional 5 (AI5) e que radicalizou o processo ditatorial em andamento, caracterizando-se por proibir toda e qualquer forma de oposição e manifestação contrária ao regime. O Tropicalismo nasce inicialmente crítico à MPB, principalmente à sua faceta nacionalista engajada. As críticas, conforme Napolitano (2005) seriam as seguintes: a MPB privilegia o conteúdo e não a forma; folcloriza o subdesenvolvimento, Xenófoba, era mistificadora e idealista, pois se voltava apenas para o “dia que virá nos libertar”. Além do caráter crítico, a Tropicália demonstrou desde o seu nascimento personalidade, particularmente por incorporar outros estilos e materiais sonoros renegados tanto pela Bossa Nova, quanto pela MPB nacionalista, para os quais eram denominadas de cafonas e difamadas pelo mau-gosto, a exemplo do bolero e das marchinhas populares; ou por sua inserção ao Pop e aos modismos fonográficos internacionais, como destaque para o Rock’n roll dos Beatles. Caetano Veloso, Gilberto Gil, Torquato Neto, Tom Zé, Jorge Mautner, Capinam, Gal Costa – líderes do movimento – tornam-se vanguardistas de uma estética nacional, que agora, se queria também internacionalista.

Mesmo que, esteticamente, houvesse diferenças explícitas entre essas canções – representantes legítimas da gênese da MPB – algo as unia: a temática, oriunda de um conjunto de preocupações sociais e ideológicas. Isso já é o bastante para colocá-las como símbolos da memória artística nacional.