A Segunda Guerra Mundial na linguagem da arte sequencial

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Prof.ª Aline Martins dos Santos
Licenciada em História - UFRRJ
especialização em História Contemporânea - UFF
Mestrado em História Social - UFF 

Histórias em Quadrinhos e desenhos animados possuem um valor documental bastante significativo, e seu potencial enquanto fonte historiográfica é muito grande. Essas produções, assim com outras formas de cultura de massa, servem como instrumento para desvendar o modo de pensar e entender o mundo das gerações que nos antecederam, como verdadeiras janelas para o passado. No nosso caso em questão, tentaremos mostrar como essas fontes foram utilizadas como um potente e eficaz meio de propagação de ideias, crenças e modelos, sobretudo em momentos de intensa crise política e/ou econômica, como no período da Segunda Guerra Mundial.

Em 1939 começa a Segunda Guerra Mundial. O nazismo avança pela Europa e a situação de incerteza e medo domina o planeta. Assim que os Estados Unidos entraram na guerra em 1941, os meios de comunicação de massa foram utilizados para unificar a população, despertar o nacionalismo para aumentar a certeza da vitória na guerra e, claro, fazer com que os inimigos parecessem monstros. E que meio melhor do que os quadrinhos, que circulavam diariamente nos jornais, e os desenhos, na época em plena ebulição, para fazer isso?

Fosse disseminando imagens patrióticas, fosse incentivando políticas públicas de apoio aos militares, fosse sendo utilizados como meio propagandístico e ideológico, os quadrinhos passaram a tomar seu lugar no esforço de guerra, e, desta forma, heróis com tema patriótico não demoraram a surgir.

Com a Grande Depressão (1929-1940) e a Segunda Guerra Mundial (1941-1945), as mulheres foram obrigadas a assumir papéis mais ativos na sociedade e na família. Muitas delas passaram a trabalhar em fábricas — principalmente de munições – para sustentar a família e ajudar nos esforços de guerra. “Outras — mais de 350 mil — foram ao próprio front auxiliando as tropas dos Estados Unidos, servindo como enfermeiras ou operadoras de rádio.

Estas mudanças sobre a performance das mulheres na sociedade estadunidense refletiram-se nos quadrinhos de super-heróis. Até então os criadores e editores nunca haviam estado tão preocupados em criar novas idéias para atrair o público jovem feminino para suas publicações. Por décadas, os criadores de quadrinhos de super-heróis julgaram que o público de suas histórias era predominantemente masculino. Durante a história dos comics houve muitas heroínas, mas a maioria tinha mais a finalidade de alimentar as fantasias de garotos adolescentes do que focar o interesse de uma audiência feminina.

Em 1942, fez então sua estréia a primeira super-heroína do mundo: a Mulher Maravilha, criada pelo psicólogo William Moulton Marston. Provocando certa celeuma, pois o conceito de uma figura feminina que subjugava o macho, em todos os sentidos, não era bem aceito. O editor-chefe Max Gaines procurou Marston com o objetivo de inventar uma nova personagem feminina no mesmo estilo de Batman, Super-Homem e outros super-heróis da época. Em resposta, ele escreveu uma história chamada”Suprema, a Mulher Maravilha” o que originou a nova personagem na All Star Comics, Sensation Comics Detective Comics.

Vinda de um passado mitológico, a princesa Diana, filha da rainha Hipólita, foi criada em uma ilha de Amazonas e tinha poderes enormes, mas só usava a força em último caso. Ela resolvia tudo com a inteligência, astúcia e a utilização de seu laço mágico, no qual quem fosse amarrado só conseguia falar a verdade.

Ao contrário dos outros super-heróis, a sua missão não era só acabar com o crime, mas também reformar os criminosos e torná-los cidadãos de bem. A Mulher Maravilha usava (e usa) as cores da bandeira americana, além da águia no top e estrelinhas no shortinho.  Os braceletes que a personagem utiliza seriam uma lembrança da época mitológica em que as Amazonas haviam sido vencidas e escravizadas por Heracles e uma forma de dizer que ela está usando contra os homens aquilo que eles usaram contra nós mulheres para nos escravizar.

Na maioria das HQ’s deste período inicial, a personagem combatia o crime e ajudava as mulheres. Ela tinha uma função importante na guerra verdadeira: mostrar para as mulheres que elas tinham de entender seu potencial, serem capazes de cuidar de si mesmas e lutar por direitos iguais.

Por mais que a personagem seja uma representação tida na época como “positiva” da mulher – segundo os parâmetros sobre os quais seus produtores se baseavam com o intuito de atrair o público feminino mais intensamente -, acabava-se por revelar um constructo do feminino sob os olhos masculinos. Com a volta dos soldados para os EUA, as vendas da revista foram reduzidas consideravelmente (na mesma medida em que as mulheres foram recolocadas em “seu lugar”: dentro de casa).

Tio Sam (personificação nacional dos Estados Unidos), também ganhou uma versão em quadrinhos onde justificava, em sua capa, a isenção dos Estados Unidos da responsabilidade sobre a entrada na II Guerra Mundial. Tio Sam ecoava o mantra que imbuía a nação norte-americana da função de disciplinadora do mundo, o gigante pacífico que agia quando provocado, e não por interesse próprio.

http://www.coverbrowser.com/covers/national-comics

Por um bom tempo a temática de guerra perduraria nas capas das HQ’s. Eram comuns caricaturas de Hitler, Mussolini e Hirohito em situações cômicas. Mas, representações realistas também tinham espaço. Entretanto, a tarefa mais importante dos personagens de quadrinhos no esforço de guerra era estimular o público a comprar bônus de guerra, ou seja, títulos de dívida pública que ajudavam a financiar as operações militares na zona de combate.

A capa da edição número 58 da Action Comics pode ser tomada como exemplo dessa prática. Usando sua super força, Superman figurava em um cartaz com os seguintes dizeres: “VOCÊ também pode estapear um japa comprando bônus de guerra e selos”.

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Em 1942, a Ordem de Exclusão Civil 346 garantiu que todos os cidadãos de ascendência japonesa na costa do Pacífico deveriam se reportar a centros militares, de onde foram enviados para campos de “relocação”. Os “japas”, como eram constantemente apresentados nas capas dos gibis logo tomaram para si o posto de inimigo preferencial dos heróis combatentes, sendo muito mais comuns que nazistas ou fascistas.

Em cartazes veiculados neste período, pode-se verificar a utilização de representações racistas e estereotipadas do inimigo japonês. É impossível ignorar um forte elemento de preconceito nas representações das forças japonesas encontradas nas revistas e cartazes da época.

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As forças nipônicas eram constantemente retratadas com traços inumanos nos desenhos de Jack Kirby na revista Captain American e mesmo artistas com um viés mais realista desenhavam o inimigo oriental de forma caricata, sempre em situações de fuga ou derrota. Soldados europeus do Eixo também eram sempre apresentados sendo derrotados, mas sofriam bem menos deformações em sua aparência.            

A opção norte-americana por quem se caricaturava demonstra a existência de um preconceito prévio que, no âmbito de uma declaração de guerra, ganhava legitimidade para ser demonstrado à luz do dia. Os limites entre patriotismo e intolerância eram borrados, e o que deveria servir como demonstração de apoio às tropas tomava a forma de uma linguagem visual que incentivava a exclusão. Com seus traços fisionômicos característicos tornado-se símbolos denunciantes de perversidade e covardia, um norte-americano de ascendência japonesa passou a ter muita dificuldade de ser visto como um verdadeiro cidadão dos Estados Unidos.

O fim da Segunda Guerra Mundial não foi um tema muito presente nas capas das histórias em quadrinhos de 1945. Para a maior parte dos títulos, houve apenas um súbito desaparecimento dos vilões nazistas e japoneses que povoaram as cenas de ação dos anos anteriores, substituídos por gângsteres ou monstros e super-heróis por personagens cômicos. Desta forma, quase todos os super-heróis que existiam na época, ganharam de seus autores aventuras nas quais enfrentavam espiões nazistas ou conspirações de alemães, japoneses e italianos. Todavia, os super-heróis não foram os únicos a irem para a Guerra.

Os estúdios Disney – cuja música “Quem tem medo do Lobo Mau” (Os três porquinhos) já tinha sido usada pelo governo como slogan do “New Deal” do governo

Roosevelt-, tiveram seus personagens praticamente “convocados” a realizar propaganda contra os inimigos dos EUA.

As histórias – e mais ainda as capas das edições – abordavam excessivamente o momento tenso por que passava o mundo, e eram sempre vistas sob uma ótica caseira, mostrando a escassez de produtos (incluindo alimentos) decorrente da guerra. Foram feitos documentários e filmes a respeito do conflito, mas isso era pouco.

Tanto os Ingleses quanto os Norte Americanos, veiculavam propaganda preconceituosa visando instigar os soldados contra o inimigo. Certas peças de comunicação, por exemplo, retratavam os soldados japoneses e Alemães como pessoas sádicas, desprovidas de emoções e até estupradores. A propagação da idéia do inimigo não humano, incentiva o ódio e elimina responsabilidades, estimulando em conseqüência a prática de atrocidades.

Assim, Mickey e Donald acabaram entrando no combate. O ratinho foi usado em todo o tipo de material, até mesmo cartazes de guerra no qual lembra os americanos do ataque japonês a Pearl Harbor e diz que é preciso ficar alerta. “Mickey Mouse” teria sido inclusive, um dos códigos usados pelas tropas americanas no desembarque na Normandia, no “Dia D”.

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Já Donald, em A Face do Füher de 1943 (curta-metragem de animação), é representado como um louco nazista, um pobre homem simples alemão que sofria lavagem cerebral do nazismo e se tornava um soldado humilhado, obcecado e insano.

Vale lembrar ainda que os personagens Zé Carioca (Brasil) e Panchito (México) surgiram nesta época em decorrência justamente da política de boa vizinhança dos EUA em função da guerra, como forma de angariar a simpatia dos países candidatos a integrar o grupo dos Aliados na Segunda Guerra Mundial.

Mas essa era uma via de mão dupla e as forças do Eixo também sabiam se utilizar muito bem do mesmo artifício. Os líderes do Japão, Itália e Alemanha proibiam a venda dos gibis norte-americanos em seus países. Hitler, que por sinal bania os gibis de O Príncipe Valente das cidades que conquistava, mandou seu ministro das comunicações, Goebbels, preparar um duro discurso atacando os personagens Disney, em especial Donald.

Desenhos animados também foram utilizados como um forte aliado pelo Eixo. Nimbus Libere é um exemplo de uma produção Alemã onde são apresentados os principais personagens estadunidenses, Mickey, Pateta, Popeye e Donald bombardeando a França em uma falsa libertação do País.

Omocha Bako é uma produção japonesa, retratando Mickey como uma criatura má invadindo o Japão, e o povo japonês recorrendo a seus guerreiros nipônicos.

Os aliados, como se sabe, ganharam a guerra e os personagens voltaram a “ser civis”, mas demonstraram ser ótimos soldados. E, com certeza, o governo estadunidense não teria dúvidas em convocá-los de novo, se preciso…