Brasil, brasileiro…

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Prof. Lucas Adriel S. de Almeida
Mestre em História - UEFS

Exibida no tradicional horário das 18 horas, escrita por João Ximenes e Cláudia Lage, com a direção de Denis Carvalho, a novela Lado a Lado, da Rede Globo de Televisão, impulsionou a temática do Brasil República na mídia e na sociedade brasileira. A trama global é ambientada no começo da era republicana, e se utiliza de características transversais do cotidiano da sociedade brasileira do início do século XX para estruturar seu enredo. A intenção deste texto não é fazer uma crítica de arte sobre a novela; a nossa busca será pautada no intuito de analisar algumas questões levantadas pela obra, no que tange ao campo do conhecimento historiográfico. Assim, a proposta deste texto tem por objetivo instrumentalizar o leitor, para que este possa compreender com mais profundidade algumas situações retratadas na trama.

Neste sentido, a compreensão de alguns elementos, característicos da sociedade brasileira, do início da era republicana são de fundamental importância para que possamos ter uma visão diferenciada sobre algumas experiências retratas na novela. Com este fim, buscaremos problematizar algumas questões que caracterizavam parte da sociedade brasileira deste período, e que, corriqueiramente, apoiam o desenrolar da trama global. A ficção faz uso do pós-abolição no Brasil, como pano de fundo, para desenvolver o cotidiano das suas personagens. O primeiro cuidado que devemos ter aqui é o de não tomar as questões levantadas como gerais, pois, apesar de algumas se aplicarem a cidades diferentes do Brasil, como Salvador e Rio de Janeiro, por exemplo, em outros lugares do país estas questões podem ter abarcado peculiaridades que não devem ser menosprezadas. Não devemos perder de vista, também, que a novela é uma ficção, e como ficção não precisa ser exatamente fiel à realidade. Bom, então vamos lá!

Assinada pela princesa Isabel no final do século XIX, a Lei Áurea determinou o fim da escravidão no Brasil. Entretanto, o fim da escravidão, enquanto instituição oficial no país, não teve o poder de determinar também o fim da segregação, do preconceito e discriminação em função da cor da pele.  Assim, as pessoas que outrora foram escravizadas passaram a desfrutar de uma liberdade apenas parcial, por todas as questões já mencionadas, mas, principalmente, porque não lhes foram oferecidas (através do Estado brasileiro) as condições necessárias para que pudessem se inserir de forma livre e igualitária na sociedade brasileira. Sem instrução, sem oportunidades de trabalho e continuando presos pelas correntes do preconceito racial, a maioria destas pessoas acabou por encontrar sua sobrevivência em subempregos, provocando a manutenção da desigualdade social.

Outro aspecto levantado pela novela se refere ao que viria ser a futura paixão nacional: o futebol.  Diferente de hoje, onde este esporte é o mais popular do país, o futebol no início do século XX constitui-se num esporte extremamente elitizado, basicamente praticado por pessoas de pele branca e das elites do país. Este esporte – o futebol – funcionava como elemento de diferenciação social e tinha a afeição das elites brasileiras. Agradava, também, pela sua origem inglesa, que atraia as classes mais abastadas do país. Estes grupos viviam desejosos de se assemelhar aos hábitos e costumes das sociedades europeias. As elites brasileiras, com isto, buscavam se distanciar das camadas mais populares da sociedade e também de sua origem colonial, escravocrata e atrasada. A influência cultural europeia era, portanto, supervalorizada entre as elites brasileiras, enquanto os elementos culturais, oriundos das populações de origem africana (a exemplo da prática da capoeira), eram marginalizados, depreciados e estigmatizados. O futebol, a partir desta ótica, era visto como um elemento civilizador e, ao lado de outros aspectos (como os higienistas, por exemplo), cortavam o cotidiano de parte da sociedade brasileira do período que estamos estudando.

Apesar do espanto que certas situações nos causam, pelas diferenças ou semelhanças com as situações que enfrentamos nos dias atuais, estas questões nos rementem a uma importante reflexão: alguns problemas, que ainda afligem nossa sociedade, são seculares, e o estudo da disciplina História nos instrumentaliza para que possamos perceber o que muitas vezes nos passa despercebido. A instrumentalização histórica nos retira do estado de alienação social e nos faz refletir sobre a nossa própria vivência, nos dando a oportunidade de buscar saídas para estes problemas. Por fim, é conveniente salientar que o fim da escravidão não veio acompanhado de nenhum tipo de projeto educacional. Tão pouco houve um projeto de oferta de empregos que incorporasse os cidadãos brasileiros egressos da escravidão. No sentido contrário, o abandono destas pessoas, e de seus descendentes, criou outros problemas que ainda estão presentes e que a nossa sociedade ainda carece resolver.