Carnaval de Maragojipe, a liturgia de um tripé Cultural

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Prof. Juliano Mota Campos
Licenciado e Mestre em História - UEFS

Fantasiados no carnaval de rua de Maragojipe.

Alegria. Essa palavra para muitos poderia ser encontrada no dicionário como sinônimo de carnaval, festa onde o incomum torna-se comum, a regra dá lugar à exceção, em que o único vilão é a tristeza, e a imaginação torna-se a principal alegoria, celebração que dura alguns dias, mas que, para muitos, é atemporal. Sobre o reinado de Momo em Maragogipe na Bahia, buscaremos identificar suas características, especificidades, contribuições das três culturas: europeia, indígena e africana, além da importância desse festejo sagradamente profano para o povo brasileiro e vitrine de nossa cultura para o mundo.

O país do carnaval, obra de Jorge Amado em 1930, e as músicas Amor de carnaval e País tropical do outro Jorge, o Ben Jor, foram alguns dos inúmeros confetes jogados pelos artistas sobre esse tema que é um dos elementos constituintes da identidade nacional. Segundo o historiador Voltaire Schilling, essa festa surgiu na Grécia Antiga (há mais de 3 mil anos), no culto ao deus Dionísio, que depois seria cultuado em Roma como Baco (deus do vinho e da alegria), disseminando-se a posteriori para os países de cultura neolatina. Schilling ainda afirma que as mulheres foram as primeiras a idolatrar esta divindade, que viram, nos dias que eram dedicados ao culto, um momento para escaparem da vigilância dos maridos para poderem cair na folia. Nos dias permitidos, elas saíam aos bandos, com o rosto coberto de pó e com vestes transformadas e cantando. Os homens não demoraram muito em aderir aos festejos.

Culto ao deus Dionísio na Grécia antiga

Para a historiadora Rita de Cássia Araújo, as festas populares que aconteciam na era pré-cristã no Hemisfério Norte, especialmente no Egito, em Roma e na Grécia, para comemorar o fim do inverno e a chegada da época do plantio de lavouras, impulsionaram o que se configurou como o início do Carnaval. De celebração agrária, a “farra” ganhou novos contornos quando o Cristianismo atribuiu significado à festa, que passou a ser vinculada à Páscoa – a Terça-Feira Gorda é 47 dias antes do domingo de Páscoa. Estas comemorações, então, passaram a ter um sentido de tempo de diversão e exagero, de comida e bebida, que antecede o início da quaresma.

O “abre-alas” para a algazarra momesca só chegou a terras tupiniquins no século XVII através da influência europeu-portuguesa. Inicialmente com o Entrudo (brincadeiras em que pessoas sujavam umas às outras) que era apreciado por todos os segmentos da sociedade, mas em lugares diferentes – as famílias brancas/elite nas casas e os escravos e menos favorecidos nas ruas -, e após a independência do Brasil, com a chegada das fantasias, máscaras (vindos da Itália e França principalmente), os grandes bailes e a formação das sociedades carnavalescas (inicialmente de elite), o carnaval foi ganhando os contornos do modelo de festa que predominaria como civilizado e nos moldes diferentes do negativo e ultrapassado entrudo, apesar de o mesmo continuar a existir, principalmente, entre a camada mais pobre da população.

Entrudo luso-brasileiro na América portuguesa séc.XVII

O carnaval se expandiu pelos quatro cantos do país, ressignificou-se a partir da matriz identitária africana e indígena e ganhou novas cores e sons, inclusive na boa terra, a Bahia. É em um povoado com características coloniais, de origem indígena, (mas com a malemolência africana) por nome de Maragojipe, que o carnaval vai mais tarde tornar-se autenticamente patrimônio imaterial da Bahia. As tribos dos Aymorés ocuparam uma região do recôncavo baiano cercada de rios e manguezais, que ficou conhecida como “rio dos mosquitos”, devido à ampla área de manguezal que lá existia, e deixaram nos caminhos estreitos desse lugar a arte, a simbologia e a técnica das cerâmicas que inspiraram muitas máscaras e a energia de todas as divindades que regiam o sucesso das colheitas e hoje orquestram a alegria do carnaval.

Os festejos de momo chegaram à essa terra ainda na transição do séc. XIX para o séc. XX, como afirma o “Jornal Nova Era” de 10 de março de 1897, quando diz que : Foi a nossa estréa nesta especie de festejo, que outras festas não nos faltam sempre: tardia a estréa é verdade mas prodigiosa de força e de enthusiasmo, robustissimo e miraculoso fructo de seiva tão fraca e rara, como é o metal que corre nas algibeiras destes operarios e destes pobres. E, como effeito, foi uma festa popular, nada de elemento oficial. Assim, enquanto o carnaval, na maioria do Brasil, estava organizado em grandes bailes carnavalescos com o intuito de esquecer o entrudo e importar o carnaval de Nice e Veneza, exaltando o luxo e a pompa de um carnaval da elite, Maragojipe, na virada do séc. XIX para o XX e em um considerável período deste referido século, se coloca na contramão de boa parte dos festejos nacionais, preservando referenciais herdados da cultura afro e valorizando as manifestações culturais locais, a partir de seu próprio povo, sua religiosidade, culinária, música e modo de ser.  

Essas ações vão evidenciar, a partir da busca pela manutenção das tradições, que o carnaval de Maragojipe não aderiu, completamente, ao projeto empresarial vivido pelo carnaval baiano, especialmente o de Salvador, mesmo que se perceba a inserção de uma variedade de adereços e fantasias colocadas pelos comerciantes à disposição dos consumidores/foliões, além de certa profissionalização na estrutura da festa, no decorrer do séc XX. A folia em Maragojipe perpetua a tradição dos mascarados, o fazer por várias mãos as próprias fantasias, de guardar segredo sobre esta produção e de recontar a vida cotidiana pelo olhar da irreverência e criatividade, não esquecendo de mesclar a isso suas origens e valores a partir da memória.

Homens vestidos de mulher no carnaval de rua de São Paulo, 24 de março de 1954.

Na obra História e Memória, Jaques Le Goff afirma que a memória, como propriedade de conservar certas informações, é um conjunto de funções psíquicas, graças às quais o homem pode atualizar impressões ou informações passadas, ou que ele entende como passadas. Utilizando-se desta propriedade é que o Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural (IPAC), através do livro Carnaval de Maragojipe, a partir da análise de profissionais das ciências humanas, produziu uma síntese dessa celebração ao descrever a década de 1920 como momento em que inúmeros cordões, inclusive de mulheres, participavam da festa, além dos clubes Amigos do Silêncio e Deustcher Club, do Bloco dos Caipiras, do Rancho do Jacaré e na década de 1930 os Cordões das Hespanholas, Assustados e dos Nagôs; Ternos da Esperança, Marujas, Bonecas, Turcas e A Fauna; Rancho do Macação, mascarados, pierrôs, colombinas e, ainda, passeatas promovidas pelas filarmônicas.

A partir das décadas de 40 e 50, a presença de entidades carnavalescas, a exemplo do Bloco Vicente Peixoto, Afoxé de Albertina, o Bumba-meu-boi do Inspetor Ângelo, o Bloco da Garrafa, o Bloco do Bambolê, o Terno Infantil e o Bloco do Tiro ao Alvo (composto por meninas negras), e os clubes sociais, tais como a Associação Atlética, a Rádio Clube, Filhos da Terpsycore e filarmônicas A Sociedade Filarmônica Dois de Julho e a Philarmônica Terpsycore, compunham a diversidade e riqueza do patrimônio cultural de Maragojipe. Da década de 60 em diante, a população acolheu a chegada do trio elétrico, sendo um dos primeiros o Maragós, seguido pelo Oriente e Canto das Sereias. É nessa festa democrática, que sempre buscou conciliar o atual com o antigo, que grupos filantrópicos como O GRAMMA – Grêmio Recreativo dos Amigos Mascarados de Maragojipe – que tinha como objetivo trabalhar com idosos e crianças – e as meninas (esposas e filhas) com o VAQA, grupo carnavalesco – Várias Amigas Querendo Aparecer – demonstram que cuidar do outros é ter carinho com o passado e futuro.

A presença de temas afro e integrantes negros nesses blocos carnavalescos demonstra a preocupação que essa sociedade tinha em repercutir suas origens, percebendo o carnaval, também, como um lugar de expressão daquilo que brota do povo. O lugar social que o carnaval tardio de Maragogipe tem, ainda hoje, é o da explosão democrática, seja do convívio do novo com o antigo, da autonomia do povo em construir o seu próprio manifesto de liberdade, independentemente das intenções do poder estatal, bem como da preocupação de não se tornar uma indústria de emoções ou folclores, enfim, de buscar através de uma miscelânea de crenças e sujeitos os reais sentidos do carnaval: democracia, diversidade e alegria.

Bloco das almas, Maragojipe

VER TAMBÉM:

DAMATTA, Roberto. Carnavais, malandros e heróis: para uma sociologia do dilema brasileiro. 6. ed. Rio de Janeiro: Rocco, 1997.

DIAS, Diego Bomfim. Carnaval de Maragojipe símbolo de resistência cultural. Revista I Passos de História. Disponível em: <http://passoshistoricos.blogspot.com>. Acesso 10 maio 2010.

Bahia. Governo do Estado. Secretaria de Cultura. IPAC. Carnaval de Maragojipe. / Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia. – Salvador : FPC, 2010.  (Cadernos do IPAC, 2)