“Nascido para jogar futebol”? – Série Historiante Futebol Clube

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Prof. Carlos Alberto A. Lima
Licenciado e Mestre em História - UEFS

Lembro-me de uma frase que fora estampada em algumas camisetas da Seleção Brasileira de futebol: “Nascido para jogar futebol”. Esse aforismo de alguma forma sintetiza o sentimento que nós brasileiros temos em relação ao esporte bretão. Nos reconhecemos e também somos reconhecidos como a “pátria de chuteiras”, “a terra brasilis da bola”, os mestres do futebol arte. Em nossa História ludopédica apresentamos ao mundo futebolistas da qualidade de: Pelé, Garrincha, Didi, Nilton Santos, Carlos Alberto Torres, Zico, Romário, Ronaldo e tantos outros. Com certeza, pensando brevemente, faríamos mais de 5 seleções com craques, que representam a técnica, ginga e a malemolência da arte tupiniquim.

No entanto, quase sempre quando falamos da trajetória futebolística brasileira, nos reportamos aos anos 1950 em diante. No imaginário nacional, após à tarde do Maracanazo, findado com o gol do Uruguaio Ghiggia e a falha do Goleiro Barbosa, o futebol brasileiro passou a viver a chamada fase de ouro, da dor para alegria generalizada, em apenas uma década. Sem contar, que ajudando nesse processo de divulgação/consolidação do futebol, seja como identidade ou preferência de lazer nacional, tivemos os meios de comunicação de massa, com destaque num primeiro momento para a Era do Rádio e posteriormente a dominação da imagem com o sinal da televisão e a invenção do VT. Dessa forma, os futebolistas, já não são simples atletas, tornam-se heróis, mitos, ícones, ídolos de uma geração.

E anterior a década de 1950? Mais precisamente entre as décadas de 1920 e 1940, quem jogava futebol no Brasil? Tivemos ídolos? Pensando em responder a essas e outras perguntas, O Historiante lança uma seqüência de textos que trará, para o centro dos questionamentos, figuras que marcaram a História do futebol anterior ao período áureo e propulsor inesgotável de talentos, ou seja, anterior ao momento da famosa frase estampada pela Nike.

A Confederação Brasileira de Futebol instaurou o dia 19 de julho como sendo o Dia Nacional do Futebol; a data seria uma alusão à fundação do Sport Club Rio Grande em 1900, o primeiro clube particularmente voltado para o futebol no Brasil. No entanto, essa data poderia ter sido o dia 18 de julho, justamente a data de nascimento de Arthur Friedenreich, a primeira lenda do nosso futebol, apelidado de “El Tigre” pela imprensa latina, dado a qualidade e a raça com que jogara o Campeonato Sulamericano de 1919. Fora alcunhado também de o Rei do Futebol – anterior a Pelé – pela imprensa francesa ao se destacar numa excursão feita ao Velho Mundo, jogando pelo Paulistano em 1925.

Fried – como era chamado pelos companheiros – herdou geneticamente características físicas da mestiçagem que marcou o encontro entre um comerciante alemão e uma negra lavadeira brasileira. Assim, o mulato alto, magro, forte, olhos verdes e cabelos crespos, introduziu, de acordo com cronistas que testemunharam suas façanhas, dribles curtos e rápidos, agilidade nos deslocamentos laterais e centrais, além de chutes fortes, colocados e com efeito, naquele estilo de jogo que ainda estava inspirado na mecânica e lentidão do Football inglês.

Em relação às suas façanhas, destaca-se que até o final da década de 1990, a FIFA, mesmo sem comprovação documental alguma, apenas baseado em relatos, o reconhecia como o maior artilheiro de todos os tempos. Os seus 1329 gols superavam em muito a marca estabelecida posteriormente por Pelé. No entanto, com a biografia intitulada “O Tigre do Futebol” do jornalista Alexandre da Costa, os números reais e comprovados através das súmulas apareceram. O craque ao longo de 26 anos de carreira e vestindo a camisa de vários clubes, dentre o quais: Germânia, Mackenzie, Ypiranga, Paulistano, São Paulo da Floresta, Santos e Flamengo, marcou 556 gols em 592 jogos, obtendo uma média de 0,93 gols por partida, superior, essa sim, a marca de Pelé.

Artur Friedenreich vivenciou grandes transformações no Brasil. Da proclamação da Republica à sua consolidação, da Republica dos coronéis e barões do café ao Estado Novo varguista; da formação dos primeiros clubes à profissionalização do esporte.

Acrescenta-se que não apenas vivenciou como também participou diretamente de alguns desses acontecimentos. Com destaque para as discussões em torno da profissionalização do Futebol, se posicionava contra por achar que isso poderia desvirtuar a ideia do esporte coletivo e privilegiar alguns poucos futebolistas e clubes. Seu maior temor era que o negócio/capital superassem o jogo. Com essa postura, “El Tigre” comprou briga com a CBD (Confederação Brasileira de Desportos) – antecessora da CBF – sofrendo retaliação quanto à sua convocação para o selecionado brasileiro. Além dessa querela com a instituição-mor, após a confirmação da profissionalização encerrou sua passagem pelo Flamengo, recusando uma oferta vantajosa de contrato, seguindo os novos moldes.

No campo da política governamental, utilizando-se de sua figura conhecida nos campos de futebol, mesmo que ainda não fossemos a “pátria de chuteiras”, colocou-se à disposição para o alistamento do exército paulista na Revolução Constitucionalista de 1932. Movimento armado ocorrido no Estado de São Paulo entre julho e outubro de 1932, organizado como uma contra-resposta à Revolução de 1930 que levou Getúlio Vargas ao Poder. Os paulistas se mostraram contra a política varguista dos primeiros anos, criticando a imposição de interventores tenentes, bem como a gestão sem constituição. Dessa forma, o povo organizado e financiado pela oligarquia cafeicultora fora às ruas e combatera bravamente o Exército Nacional. Mesmo sendo rendidos em 04 de outubro de 1932, e tendo baixa em torno de 2200 pessoas, esse movimento cívico se colocara como vitorioso, pois a partir daquele momento o Estado voltara a ser governado por políticos paulistas, sem contar que, em questão de dias, o presidente da República convocara os trabalhos de uma Assembleia Constituinte. “Fried”, além de combater, doou seus troféus, medalhas e prêmios para o financiamento da luta.

Artur Friedenreich foi o primeiro rei, o primeiro craque, o primeiro artilheiro, o primeiro ícone do futebol brasileiro, para além de nossas fronteiras. Sem dúvida alguma, o grande futebolista da era do amadorismo, quase sem rádio, com poucas imagens e muita genialidade.