Nem sempre Salvador fez aniversário no dia 29 de Março

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Prof. André Araújo
Mestre em História - UEFS

Dia 29 de março, os soteropolitanos comemoram a fundação da cidade. Aniversário da urbe de São Salvador! O senso comum convoca todos a dizerem, de forma uníssona, algo como: se na Bahia, a terra do carnaval, dia de finados é também dia de festa, imagina em dia de aniversário!? No entanto, sentimentos de alegria, indiferença, apatia, revolta com uma cidade cheia de problemas não resolvidos e alardeados há mais de quatro séculos tomam a cidade.

(Samba de roda em 40, por Pierre verger. Uma visão sobre a chamada alegria natural do soteropolitano)

Urbanizada, clamante para ser centro cultural e referência em se tratando de cultura da população de origem africana, negligenciada pelas camadas dominantes. Desejosa por ser referência política no processo de invenção do Brasil. Marco inicial da administração portuguesa e recuperação de uma memória de protagonismo destas terras em detrimento do sul-maravilha, são algumas das questões que o baiano, conhecedor de apenas um viés da história da Bahia, reclama para suas terras nesta data comemorativa. “São Salvador da Bahia de Todos os Santos”, “Cidade da Bahia”, “Baia de São Salvador”, “Roma Negra” ou simplesmente “Salvador”.

Há mais de quinhentos anos, desde a chegada dos portugueses, no chamado Novo Mundo, a cidade é conhecida por alguns nomes que, de alguma forma, ainda povoam o imaginário soteropolitano até os dias atuais. Causam até mesmo indefinição, quando perguntados de forma mais enfática qual o real nome da cidade. Entre eles, existe confusão, mas em se tratando de data de fundação da cidade, os soteropolitanos não têm dúvidas, comemoram o aniversário da cidade no dia 29 de março. Mas nem sempre foi assim.

Em 1952, após intenso debate e pesquisas realizadas por representantes do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia (IGHB), foi resolvido oficializar a data do 29 de março, mandado erigir um monumento na praia da Barra para ser o marco da fundação da cidade. Essa memória elogiosa ao empreendimento colonizador português foi elaborada por membros de um instituto, que existe também em outras capitais brasileiras, e que tem histórico de ser um reduto intelectual das elites e de suas respectivas cidades. Descendentes de colonizadores, donos de engenho, barões da cidade, políticos proeminentes, como Pedro Calmon, Luiz Viana entre outros, procuraram exaltar, entre muitas questões, a participação de suas famílias (e seus ancestrais portugueses) na construção da cidade e as provas documentais mais antigas que encontrassem para justificar a demarcação da data.

(monumento em homenagem à fundação da cidade)

Basicamente Salvador teria as seguintes datas comemorativas:

· 29 de março de 1549: Dia do desembarque do primeiro Governador-Geral do Brasil, Tomé de Souza, na praia do Porto da Barra (conhecida na época do desembarque como a Vila Velha do Pereira, onde viviam o famoso casal Caramuru e Catarina Paraguaçu) com a ordem de D. João III para construir a primeira capital. Vieram prontos de Portugal o nome da cidade (Cidade do São Salvador da Baía de Todos os Santos) e a sua planta. A cidade antiga teria aproximadamente a extensão do que é hoje a Praça Castro Alves até o Santo Antonio e do seu lado continental, onde hoje fica o comercio da Barroquinha, corria um rio. Cerca de 15 minutos e seria possível percorrer toda cidade. Cercada pelo mar de um lado e por um rio do outro;

· 1º de maio de 1549: A data dos primeiros recibos de pagamento recebidos pelas pessoas que trabalharam na construção da cidade. Estes não concordavam com a data do 29 de março, pois no momento em que Tomé de Sousa chegaria na praia da Barra, o projeto da cidade ainda não teria começado, e só haveria documentos relatando a construção da cidade somente no dia 1º de maio;

· 13 de junho de 1549: dia da procissão de Corpus Christi, que marcou o início das atividades na Câmara Municipal de Salvador. O mundo português, que estava sendo recriado na Bahia, não poderia preterir de uma referência católica. Na cidade, havia já alguns jesuítas que desembarcaram com Tomé de Sousa (precisamente, seis membros da ordem, inicialmente) e a participação dos irmãos leigos da Irmandade da Misericórdia. Aliás, em se tratando de representação religiosa e atividades desenvolvidas na colônia, a irmandade da misericórdia gozava de certas prerrogativas que a ordem religiosa não dispunha. O hospital que D. João mandou construir e a assistência aos pobres, em determinado momento, são passadas à administração integral da irmandade leiga em vez da ordem religiosa. Uma estratégia para limitar os poderes da Igreja na colônia portuguesa;

· 1º de novembro de 1549: data em que a Câmara Municipal recebeu a benção oficial da Igreja Católica. Se a referencia do funcionamento teria que ser religiosa, que partisse então de Roma. Para os que quiserem polemizar e inserir mais uma referência, tem o 25 de fevereiro de 1551, quando uma bula papal instituiu o Bispado de Salvador e a igreja do Salvador fora elevada a categoria de catedral.

Estas foram algumas referências sobre os marcos de fundação da cidade. Mas cidade sem povo é só terra, não é cidade! E que povo era esse que habitava estas terras? A instituição destes marcos buscou de todas as formas reafirmar o empreendimento colonial em detrimento da população que ali habitava. Uma construção da memória que não contempla os tupinambás e tupiniquins da região, por exemplo. Uma memória que nega, ou melhor, que silencia a participação forçada do povo africano em sua diversidade étnica.

(povo soteropolitano pelas lentes de Pierre Verger, ao fundo o famoso elevador)

Esta cidade da Bahia tinha uma população que meio século após a chegada dos portugueses já era marcada por uma diversidade étnica. O jesuíta Fernão Cardim, nascido por volta de 1549, e que teria percorrido as terras da Bahia à São Sebastião do Rio de Janeiro, estimara já em 1584 que a terra já contava com uma população de 3000 portugueses, 8000 índios convertidos ao catolicismo e 4000 escravos da guiné (a população africana escravizada). Ressaltando que a maior parte da população concentrava-se na capitania da Bahia de Todos os Santos.

Paisagem que encantava, seja na Cidade Baixa ou na Cidade Alta, espaços que se ligam entre tantos caminhos, e que hoje contam com o famoso e bastante fotografado e filmado elevador Lacerda. Salvador encanta até os dias de hoje, mesmo em meio a diversos problemas. Pessoas que conhecem a cidade saem saudosas destas terras, desejando voltar o mais breve possível. Exaltam o carisma, receptividade e gentileza da população. Em meio a muitas desigualdades de classe, raça, gênero… problemas de toda cidade urbana, Salvador ainda consegue encantar e destoar de muitas cidade. A Roma Negra, termo cunhado por mãe Aninha do Ilê Axé Opô Afonjá, é uma cidade que encanta pela sua população predominantemente negra, cuja semelhança se vê só no outro lado do atlântico em África. Preserva um patrimônio cultural dos povos de origem africana que em seus locais de origem, muitas vezes, nem existem mais.

(Mãe Aninha do Ilê Axé Opô Afonjá)

Independente da data do seu aniversário, a equipe d’o Historiante deseja à cidade, sua população e a todos que deste lugar, seja por nascimento ou por sentimento de pertencimento, se sentem filhos e filhas, um feliz aniversário. Que nunca se perca de vista que, mais do que governos constituídos, a população é o que dá vida a cidade. Se a natureza ali foi generosa e abundante, que não se perca este patrimônio natural por anseio de ser uma megalópole aos moldes “urbanóides” de concreto de outros países. Se a população encanta por pluralidade e ao mesmo tempo certas singularidades, que não se perca esse patrimônio imaterial em detrimento de uma cultura de massa propagada pela grande mídia do sul-maravilha! 

Confira também:

– Livro Filantropos e Fidalgos, de Russel-Wood, sobre a fundação de Salvador.

– Livro História da fundação da cidade de Salvador, de Theodoro Sampaio.

– Uma outra obra interessante é História da fundação da Bahia, de Pedro Calmon.

 Tratados da Terra e Gente do Brasil, de Fernão Cardim.

– Revista do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, nº 73.

-Vale a conferir também a reconstituição da Salvador antiga num mapa feito por um monge beneditino. Clique aqui