O ABC da imprensa brasileira.

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Prof. Juliano Mota Campos
Licenciado e Mestre em História - UEFS

EXTRA! EXTRA! O Historiante anuncia uma série de quatro textos que contarão as primeiras linhas da imprensa no Brasil, sendo o jornal a nossa matéria de capa. Analisaremos (em primeira mão!) quais foram os jornais pioneiros na arte de informar, seus protagonistas, os fatos dessa história, que mereceram a primeira página, as relações políticas, econômicas e culturais que ajudaram a compor os mais polêmicos e importantes editoriais. Esse texto inicial fará uma incursão pelo período colonial como gênese da produção impressa, refletindo sobre o contexto político e social em que se instalou a imprensa em terras tupiniquins, a quê e a quem se reportavam esses periódicos e com quais objetivos. Para abrir os trabalhos na nossa redação é necessário, primeiramente, abordar sobre as origens do jornal e da imprensa no mundo e na América Latina, bem como as formas de comunicação que antecederam estes escritos na América portuguesa.

A palavra jornal tem sua origem no latim “diurnális”, que significa “dia”, “diário”, ou seja, o relato de um dia de atividades. Os governos foram os responsáveis pioneiramente por criar, distribuir e  reproduzir a escrita, desenvolvendo esta sob um suporte de cera ou de argila com os selos cilíndricos e cunhas, encontrados nas mais antigas cidades mesopotâmicas  na Idade Antiga. A primeira publicação regular foi a Acta Diurna, publicação oficial do Império Romano, criada no ano de 59 A.C., durante o governo imperial de César, que falava do cotidiano popular, conquistas militares, ciência e  política. Como não existiam tecnologias de impressão no Império Romano e nem mesmo papel em quantidade suficiente, a Acta Diurna era publicada em grandes placas brancas de papel e madeira (estilo Outdoor). Estas placas eram expostas nas principais praças das grandes cidades para que as pessoas lessem de graça; os textos eram transportados a pé ou a cavalo, chegando dias atrasados e não publicavam noticias contrárias aos interesses do imperador.

Na transição da Idade Média para a Moderna, os jornais e o jornalismo realizaram um grande salto tecnológico: a prensa de papel reinventada pelo Alemão Johannes Gutenberg. Isto possibilitou que o trabalho que antes era feito manualmente pudesse ser feito por máquinas, tornando a publicação de livros e jornais muito mais ampla, rápida e barata. Graças a esse avanço, o “Notizie Scritte”, publicado em Veneza (1556), tornou-se o primeiro jornal mensal. O primeiro semanário foi o “Relation”, impresso na Antuérpia (1605), e o “Post-och Inrikes Tidningar”, publicado pela primeira vez na Suécia, em 1645, e que existe até hoje, sendo considerado o jornal em circulação mais antigo do mundo. Apesar de alguns impressos circularem no Peru em 1594, era  o “Publick Benjamin Harris”, o primeiro jornal das colônias americanas (1690), sendo impresso em três folhas, e uma quarta página era deixada em branco para que os leitores pudessem adicionar suas próprias notícias, sendo que, depois, repassavam o exemplar a outros leitores.

Mesmo com o surgimento constante de jornais (comparável aos que se editavam na Europa) em território latino-americano – a exemplo da  Gazeta de México y Noticias de Nueva España (1722) – , na América portuguesa a escrita impressa ainda estava ausente, ficando ao encargo da população local lançar mão de outros meios para comunicarem-se. Segundo Isabel Lustosa, era através do diferente badalar dos sinos da cidade do Rio de Janeiro – que eram inúmeros – que esse cotidiano se organizava e as pessoas se informavam. A igreja também contribuía para a circulação da informação anunciando atividades religiosas e civis depois das missas, assim como as fontes de distribuição de água e o Largo da Polé, hoje Praça XV, no centro do Rio, onde o Senado da Câmara pregava avisos para informar aos habitantes da cidade sobre fatos importantes. Os “bandos” que circulavam pelas ruas propagando os avisos públicos também auxiliavam na comunicação com a população.

Quem começou a dar os primeiros passos para a instalação da imprensa no Brasil foi Antônio Isidoro da Fonseca em 1746, dono do primeiro prelo a comprovadamente funcionar nestas terras. Ele transferiu sua oficina de Lisboa para o Rio de Janeiro e, com a devida autorização do governador Gomes Freire, imprimiu dois textos, um dos quais de apenas uma página. Apesar disso, conforme afirma a historiadora Isabel Lustosa, uma Ordem Régia, editada meses mais tarde, mandou sequestrar e enviar as letras de imprensa de volta ao Reino, por conta e risco de seus donos. O primeiro jornal a circular no Brasil foi o Correio Braziliense (1°de junho 1808), editado por Hipólito José da Costa, impresso em Londres, trazido de navio e distribuído na colônia. O termo Braziliense refere-se aos portugueses nascidos ou estabelecidos no Brasil e que se sentiam vinculados ao país como a sua verdadeira pátria, o que demonstrava que Hipólito da Costa queria enviar sua mensagem preferencialmente aos leitores do Brasil.

Segundo o professor Antonio Fernando Costella, o Correio seria mais parecido com uma revista, por ter muitas páginas, cerca de 200, e poucas notícias urgentes. O jornal tinha todo o tipo de informações, não era só político ou doutrinário, dividido em seções: política, comércio, artes, literatura, ciências, miscelânea e, às vezes, correspondência. Por meio do Correio Braziliense, Hipólito da Costa formulava políticas públicas para o Brasil, criticava a administração portuguesa, a falta de liberdade e o monopólio comercial, defendia a liberdade de imprensa e via o trabalho escravo como nocivo à economia, costumes, cultura e educação. Para a historiadora Isabel Lustosa, Hipólito da Costa é um exemplo da propagação de ideias anti-absolutistas no Brasil, que passaram a ter no Correio Braziliense um veículo de expressão, que mais tarde auxiliaria na independência brasileira.

Ao contrário dos principais países latinos americanos, o Brasil entrou no século XIX sem tipografia, bibliotecas e universidades, sendo esquecido pelas autoridades portuguesas até as invasões napoleônicas que forçaram a vinda da família real para os trópicos tupiniquins. Em pouco tempo, a colônia atrasada, onde não era permitido qualquer tipo de impressão por ordem do Rei, passou ser sede do reino. A partir da necessidade da Corte, de comunicar-se com os súditos, D. João VI  baixou o decreto de 13 de maio de 1808, determinando a instalação da Impressão Régia no Rio de Janeiro (Real Officina Typographica)  com o objetivo de publicar os atos oficiais do governo. A primeira tipografia brasileira (que viria a bordo da nau Medusa) publicou alguns livros e decretos até que, em 10 de setembro de 1808, lançou a Gazeta do Rio de Janeiro. O jornal era redigido por frei Tibúrcio José da Rocha, publicava atos do governo, notícias sobre a Europa traduzidas de jornais portugueses e ingleses, e notas sobre o cotidiano da cidade.

Na Bahia em 1811, surgiu o periódico A idade de Ouro no Brasil, com a licença de D. João VI. Para a pesquisadora Mary Del Priore, o jornal baiano ofereceu uma dimensão das mudanças estruturais do país após a chegada da Corte, sendo que este propiciou um realce no desenvolvimento do interior do Brasil, com obras públicas, como a abertura de estradas, construções de pontes e mudanças na comunicação entre as províncias, caracterizando-se como um grande espectador dessas transformações. Apesar das transformações econômicas, sociais e políticas ocorridas no Brasil desde a chegada família real, a situação da imprensa não se alterou antes de 1821. Nesse ano, devido às decisões das Cortes portuguesas, as restrições à imprensa diminuíram, enquanto no Brasil as tensões que levariam à independência faziam florescer uma imprensa política, polarizada (como as posições políticas do momento).

Apesar do seu nascimento tardio, a imprensa brasileira contribuiu para a difusão da cultura, circulação de ideias, formação de um Estado brasileiro e mediação de debates em um momento em que o escrito ainda era novidade. A postergação do ensino superior, manufaturas, independência política e abolição da escravatura – assim como foi a da imprensa – gerou consequências maléficas à nossa sociedade (analfabetismo, concentração da renda, discriminação étnico-social), de forma que o exercício pela busca do conhecimento, pela defesa das liberdades, inclusive a de imprensa, e o ato politicamente critico de opinar, pode fazer com que não só a imprensa brasileira, mas a sociedade como um todo possa sair da infância permanentemente tutelada e dar vivas (pelo dito e escrito) à maturidade democrática.    

Leia a sequência:

Texto 2 – Entre redações e realezas: A imprensa brasileira e o milagre da multiplicação das notícias no período imperial.

VER TAMBÉM:

http://www2.uol.com.br/historiaviva/artigos/gutenberg_nao_inventou_a_imprensa.html

BAHIA, Juarez. Jornal, História e Técnica, vol. I – História da Imprensa Brasileira, São Paulo: Ática, 1990, 4ª ed.

CAPELATO, Maria Helena R.. Imprensa e História no Brasil. São Paulo: Contexto/EdUSP, 1988.

LUSTOSA, IsabelO Nascimento da Imprensa Brasileira. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003.