O Candomblé e as práticas religiosas da identidade negra no Brasil

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Prof.ª Josi Brandão
Licenciada em História - UPE

O êxodo forçado dos africanos pelos europeus, a partir do século XV, provocou profundas mudanças raciais e culturais no continente americano. Numa longa viagem, cruel e desgastante, os escravos trouxeram como bagagem sua memória, sua cultura e espiritualidade.

Os primeiros escravos africanos chegaram ao Brasil no século XVI. Apesar de todas as dificuldades que enfrentaram, conseguiram preservar sua cultura milenar. Durante quase quatro séculos, construíram a economia brasileira e contribuíram para a formação cultural do país. Dentre as diversas contribuições, a religiosa foi uma das mais marcantes, pois foi por meio dos escravos que os deuses africanos, os orixás, chegaram ao Brasil.

Tanto os bantos quanto os sudaneses, sobretudo os de origem iorubá, criaram, no Brasil, diversas vertentes religiosas que, com o tempo, passaram a conviver com a religião oficial do Estado, o Catolicismo, assim como outras denominações cristãs.

Quando chegaram ao país, assim como em outras regiões das Américas, eles não falavam a língua local, e muitas vezes nem conseguiam se comunicar entre eles, pois eram provenientes de diversas regiões da África. A multidão de escravos não falava a mesma língua e possuía hábitos e religiões diferentes. No entanto, apesar de todas as dificuldades que encontraram no regime da escravidão, três fatores foram fundamentais para uma unificação: a situação de escravo, a cor da pele e a religiosidade.

Dentre as contribuições dos africanos para a sociedade brasileira, destacamos a religiosidade, com toda sua diversidade. Destaque para o Candomblé, que é o culto dos orixás, de origem totêmica e familiar, uma das religiões afro-brasileiras praticadas principalmente no Brasil, mas também em países adjacentes como Uruguai, Argentina e Venezuela.

A palavra Candomblé é de origem banta, que significa um complexo de crenças, rituais litúrgicos, cultos e conhecimentos; tradições trazidas de vários cantos da África, durante os tempos da escravidão. 

As primeiras referências ao Candomblé no Brasil datam do século XIX, onde esse culto resume-se na prática de oferendas aos ancestrais e no processo de iniciação dos participantes no ritual de possessão. Esses ancestrais, relacionados à fundação das principais linhagens africanas, são denominados orixás e voduns e se comunicam com os devotos por meio da possessão. Desde aquela época, esses devotos são conhecidos como pai e mãe de santo e precisam passar por um processo de iniciação para incorporarem os espíritos dos ancestrais.

Os candomblés na Bahia no século XIX eram liderados por libertos, embora fosse muito comum a entrada de escravos, servindo até mesmo de ajuda para aqueles que vinham fugidos dos seus senhores. A participação de pardos, crioulos, brancos, livres, escravos, libertos, pobres e ricos era incentivada como uma estratégia para a sua sobrevivência.

O candomblé recebeu uma maior influência das tradições religiosas da região ocidental da África, que tinham como prática o culto de imagens em pequenos altares e os sacrifícios de animais em oferendas às divindades, realizados em espaços especificamente destinados aos rituais coletivos.

Dentre essas tradições africanas ocidentais, duas, em especial, marcaram o Candomblé: a jeje ou daometana, dos cultos voduns, e a iorubá ou nagô, dos cultos dos orixás. No século XVIII, quando a maior parte dos africanos desembarcados na Bahia eram originários de Ajudá e Aladá, predominavam nesses reinos o culto dos voduns. Em linhas gerais, esse culto resumia-se na prática de oferendas às divindades e aos processos de iniciação de devotos (vodúnsis), a maior parte, mulheres. Essa forma de expressão religiosa era bastante complexa na África, incluindo templos em homenagens às divindades, uma hierarquia entre os sacerdotes e rituais, como procissões e manifestações com toques de tambor. O culto aos voduns daomeanos foi importante, por exemplo, na concepção do tambor de mina do Maranhão.

O candomblé baseado no culto aos orixás dos povos iorubás ou nagôs foi formado na Bahia, no século XIX, quando o tráfico trouxe do continente africano um número significativo de escravos originários de várias cidades iorubás: Queto, Ijexá, Efá, entre outras. No Brasil, estas acabaram emprestando o nome aos terreiros de sua influência. Foram, sobretudo, os candomblés da nação queto, cujos rituais e divindades serviram de exemplo aos demais cultos dos orixás, que predominaram na Bahia. No entanto, os candomblés iorubás com diferentes origens expandiram-se por todo o Brasil. Em Pernambuco, por exemplo, conhecido como Xangô, recebeu influência da nação egba. No Rio Grande do Sul, por sua vez, chamado de batuque, é de origem oió-ijexá.

Para os candomblecistas, os orixás são considerados emanações do “Ser Supremo”, Olodumaré, que possuem alguns dos seus atributos e qualidades, e têm como objetivo servir a vontade divina em seu governo no mundo. Essas emanações cobrem uma parcela da Criação de Deus e ajudam a evolução dos seres segundo as leis cósmicas. Dessa forma, eles podem ser considerados os “braços” de Deus atuando em toda a criação.

Desde que foram criados, os orixás exerceram o papel de intermediários entre o criador e a criatura. Relacionados com todas as forças da natureza, eles regem a existência do homem. Alguns orixás participaram da criação do mundo e são conhecidos como seres primordiais. Outros são ancestrais, divinizados por suas vidas exemplares. Há também aqueles que personificam forças e fenômenos da natureza.

Longe de se parecerem com os santos católicos, os orixás revelam características humanas, com emoções, vontades e tendências diversas. As divindades são simultaneamente boas e más, podendo trazer felicidade ou infortúnio aos homens. Na Africa, cada orixá estava ligado a uma cidade ou nação, e os seus cultos eram regionais. Quando o africano era transportado para o Brasil, o orixá assumia um caráter individual ligado à sorte do escravo que se encontrava separado do seu grupo familiar de origem.

Para os iorubás, os orixás são arquétipos universais, personificam virtudes e valores fundamentais dessa tradição. Para compreender a hierarquia dos orixás e a sua organização, é importante observar algumas concepções dos iorubás. Para eles, a existência acontece de forma simultânea em dois planos: no aiye (mundo material onde vivem os seres naturais) e no orum (mundo imaterial onde vivem os seres sobrenaturais). Olodumaré habita o orum e rege toda a existência, tanto no orum como no aiye. Os seus poderes foram transmitidos para os irunmalés, que se dividem em dois grupos: os quatrocentos irunmalés da direita e os duzentos da esquerda.

Os da direita são conhecidos como orixás funfun ou orixás do branco, divindades relacionadas à criação do mundo. Em todas as cidades iorubás, independentemente do irunmalé padroeiro, existem templos para os orixás funfun. Eles são reconhecidos como pais da humanidade, os senhores do mundo, os pais dos duzentos irunmalés da esquerda e representam o poder fecundador masculino. Seus pertences são marcados com pintas brancas e eles só se vestem de branco. Geralmente se apresentam como velhos, lentos e sábios.

Os duzentos irunmalés da esquerda, chamados de eborás, são todas as outras divindades cultuadas pelos iorubás como Ogum, Oiá, Xangô, Oxumaré e Egum.

A grande maioria dos orixás está intimamente ligada à noção de família. O orixá seria em principio um ancestral divinizado que, em vida, estabelecera vínculos que lhe garantiam um controle sobre determinadas forças da natureza ou domínio sobre atividades como o trabalho com metais, caça, ou ainda, o conhecimento das propriedades e uso das plantas.

O conhecimento dos orixás, suas energias e rituais sempre foram transmitidos pela tradição oral, não existindo tipo de registro escrito.  Os seus mitos oferecem uma formação ético-moral importante, que movimenta o mundo, como uma referencia de valores para a vida.

Os orixás estão presentes no cotidiano de seus fieis. Cada um tem sua cor, égide, pedra, dia da semana, dança, canto, saudação, animal sagrado, comida, objetos de oferendas, filiação, função e lugar de poder.

Para os iorubás, todo ser vivo deve ser respeitado como uma criação divina. O iorubá, antes de se alimentar, deveria primeiro devolver aos orixás o axé, a energia divina. Dessa forma, ao consumir a carne do animal ele estaria em comunhão com o próprio deus. Eles agiam da mesma forma com os vegetais, pois a terra era considerada sagrada. Os homens poderiam usá-la, mas não possuí-la.

No Brasil, os principais orixás são:

Exu ou Elegbara – é considerado o mensageiro entre os orixás. Tem a função de atender aos pedidos feitos aos orixás e punir as pessoas que não cumprem suas obrigações. É simbolizado com um tridente. As cores que representam esse orixá são o vermelho e o preto e o dia da semana é segunda-feira.

Iansã – é um orixá feminino, considerada uma guerreira. Seu símbolo é um raio, possuindo o domínio dos ventos e das tempestades. Suas cores são o branco e o vermelho e o dia da semana é quarta-feira.

Iemanjá – é outro orixá feminino, considerada a mãe de todos os orixás. Ela representa as águas, por isso seu símbolo é um colar de contas cristalinas. Sua cor é azul e o dia da semana é o sábado.

Ogum – é o orixá das guerras. Criou as montanhas e os minerais. Tem o poder de abrir os caminhos para a evolução do mundo usando a sua espada. As cores que o representam são o vermelho ou o anil e o dia da semana é a quinta-feira.

Oxalá ou Obatalá – é o orixá criador da humanidade, é também divindade do pensamento, do silêncio, do frio e dos defeitos físicos. Seu símbolo é o cajado, sua cor o branco, e o dia da semana é sexta-feira.

Oxóssi – é o orixá da caça e junto com Ogum desbrava os caminhos e remove os obstáculos da vida. É representado pelo arco e a flecha, pela cor verde e seu dia é quinta-feira.

Oxum – é um orixá feminino que representa a beleza e o amor. Seus símbolos são os seixos rolados e a sua cor é o amarelo. O dia da semana é sábado.

Xangô – é o orixá do poder e da justiça. Domina os raios e os trovões. Seu símbolo é o machado de duas lâminas e as cores são o branco e o vermelho. O dia da semana é a quarta-feira.

Nanã – é a mais velha dos orixás femininos e por isso é muito respeitada. Associada à lama, às águas paradas e aos pântanos, e como estes é lenta, perseverante e tranquila. Nanã dança com a dignidade duma pessoa anciã, segurando nas mãos o seu símbolo, ibirí. Suas cores são lilás e branco e seu dia da semana é o sábado.