O poder, a pompa e os punhais no primeiro triunvirato romano

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Prof. Pablo Michel Magalhães
Licenciado em História - UPE
Especialista em Docência da Filosofia - UCAM
Mestre em História - UEFS

O PODER

Corrupção, conluios, mentiras, fofocas, acusações e caras-de-pau. Não, caro leitor, não estou tratando aqui da Câmara dos Deputados ou do Senado do Brasil. Na verdade, estes ainda teriam que aprender muito com os sujeitos de quem estou querendo falar, os políticos romanos da Antiguidade, quando a República Romana (ainda distante da dimensão geográfica do Império dos Augustos) buscava sua hegemonia sobre as demais nações e tribos. Os últimos dois séculos antes da era cristã foram bastante tumultuados na vida política de Roma, o que culminou com um período de crise da República, por muitos compreendido entre 134 a.C, com a ascensão dos irmãos Graco como tribunos (sendo estes responsáveis pela primeira proposta de reforma agrária, algo que começou a sacudir a sociedade romana e deu margem para os primeiros conflitos civis) e 27 a.C, ano em que Otaviano assumiu o título de Augusto e iniciou seu principado, extinguindo a República e construindo o imperium.

Durante mais de 100 anos, inúmeros conflitos abalaram as estruturas do sistema de governo adotado pelos romanos:

– a Guerra Social, entre romanos e demais povos itálicos, entre 91 e 88 a.C.;

– primeira e segunda Guerras Civis entre Sila e Mário (antigos aliados, que passaram a se antagonizar a partir da nomeação de Sila como general na batalha contra o Rei Mitridates, posto que Mário almejava), entre 88 e 87 a.C. e 82 e 81 a.C., quando Sila, vitorioso, tornou-se ditador vitalício;

– a Guerra Sertoriana, de 83 a 72 a.C., na província da Hispania, contra o general Quinto Sertório, apoiador de Mário contra Sila, e que se mostrava um dos grandes opositores de Roma na região (Pompeu saiu como vitorioso deste conflito);

– a Rebelião de Lépido, em 77 a.C, desencadeada quando este político (partidário de Mário), investido como Cônsul, promoveu uma série de medidas populares, contrárias às políticas ditatoriais de Sila, membro da aristocracia (que já estava morto a essa época, vítima de cirrose), dentre elas, a desapropriação das terras que tinham sido confiscadas pelo ditador, durante a guerra civil, na Etrúria. Desbaratados por Pompeu e Catulo, os exércitos que apoiavam Lépido fugiram para a Hispânia e compuseram o grupo rebelde de Sertório, enquanto o líder foi buscar esconderijo na Sardenha, onde viria a morrer pouco tempo depois;

– a revolta de escravos, liderados por Espártaco, também foi outro conflito importante; sublevados a partir de Cápua, gladiadores do ludus de Lentulus Batiatus agruparam dezenas de escravos na busca por liberdade, e em pouco tempo montaram uma força militar muito organizada nas encostas do Vesúvio. Vitória após vitória, Espártaco e seus comandados só foram derrotados por Licínio Crasso, general escolhido pelo Senado para dar fim à sublevação servil.

Gladiadores em batalha (Reprodução/imagem: historiaespetacular.blogspot.com)

– a Conspiração (63 e 62 a.C.) de Catilina, que foi um nobre empobrecido da família dos Sergius, partidário de Sila e que ansiava por poder e cargos públicos. Frustrado na tentativa de ser investido no cargo de Cônsul, perdeu as eleições muito pela sua fama (acusado de assassinar o próprio filho, além do seu temperamento violento), o que fez com que tramasse assassinar os cônsules eleitos (tentativa novamente frustrada). Seu principal opositor, Cícero, promoveu ataques oratórios no Senado, conhecidos como “Catilinárias”, onde buscava desmascarar Catilina diante dos demais senadores. Ao arquitetar a morte do próprio Cícero, Catilina assinou sua sentença de morte: os gauleses, que estavam sendo influenciados por ele para conseguir apoio da província da Gália em seu favor no caso contra Cícero, foram presos ao sair de Roma, e o documento que levavam, assinado pelos conspiradores, inclusive por Catilina, foi parar nas mãos da possível vítima, que acusou todos os envolvidos no Fórum. O resultado foi que todos os conspiradores, inclusive Catilina, foram executados.

Todos esses eventos foram responsáveis por uma grande instabilidade política em Roma, alternando períodos de relativa paz com intensos períodos de guerra. As disputas de poder dentro da República fortaleceram o Senado em detrimento dos demais cargos executivos (Cônsul, tribuno), no sentido de que esta instituição passou a ter maior controle sobre as decisões políticas. Porém, no campo militar, por não possuir legiões sob seu comando, o Senado continuava dependendo de líderes militares, e essa característica pode ter sido determinante nas disputas políticas que se seguiram até 27 a.C.

César, Pompeu, Crasso. Personagens do primeiro triunvirato que simbolizam o pôr-do-sol da República Romana. Vamos saber porque.

A POMPA

Dos vários enfrentamentos nos séculos II e I a.C, alguns generais alcançaram grande prestígio em Roma, dentre eles Pompeu Magno, vencedor na batalha contra os rebeldes na Hispânia, herói popular, aclamado pelas multidões, e Crasso, que deu cabo a Espártaco e seu grupo de gladiadores rebeldes que disseminavam o terror na península itálica. Retornando de suas respectivas batalhas, montaram acampamento sob os muros de Roma, cada qual exigindo a recepção na cidade com uma marcha triunfal e o direito de se candidatar às eleições consulares de 70 a.C (por decreto de Sila, enquanto ainda era ditador, os homens de armas não poderiam seguir carreira política).

Apesar de terem sido partidários de Sila, eles exigiam que a Constituição deste ditador fosse revogada imediatamente, e mantinham o cerco à cidade. É interessante ressaltar que cada general tinha total poder sobre sua legião, e quanto mais rico era o general, melhor seriam providos de armamentos e treinamento os soldados sob seu comando. Nesse quesito, Crasso saía na frente, por ser homem de negócios influente e dos mais ricos generais de Roma. Vendo que, opondo-se, não conseguiriam vencer o Senado, os dois generais resolveram unir forças.

Diante da pressão, o Senado cedeu: revogou a Constituição de Sila e elegeu Crasso e Pompeu como cônsules. No entanto, a carreira política e militar dos dois seguiu caminhos bem diferentes: Pompeu, por influência e coligações que possuía com tribunos e cavaleiros, recebeu poderes extraordinários para eliminar piratas no Mediterrâneo e enfrentar o rei Mitridates no Oriente no lugar de Lúculo (que revelou-se um péssimo líder para os milites); aos poucos, Pompeu alcançou todo o controle sobre o Leste, vencendo seus opositores e anexando vários territórios, fora as riquezas dos espólios de guerra que conseguiu. Enquanto isso, Crasso vivia à sombra do antigo aliado, assistindo em Roma os sucessos de Pompeu reportados a cada dia.

Como tentativa de manter-se ativo na política da cidade, Crasso financiou um jovem advogado em sua carreira entre os democratas alinhados a uma política voltada para medidas populares. Este jovem era Caio Júlio César. Ambos apoiaram Catilina em suas investidas contra o Senado, buscando aprovar leis referentes à reforma agrária (bandeira defendida por Caio Graco muito tempo antes). Porém, após a derrota para Cícero nas eleições consulares, Catilina perdeu o apoio de César e Crasso, passando a atuar só em seus infortúnios políticos.

Catilina desmascarado por Cícero, no Senado.

Apesar da mobilização de Júlio César, Crasso não via qualquer perspectiva em fazer frente à Pompeu, que logo retornaria à cidade, e poderia ser investido nos poderes de um ditador, tão grande era sua fama e prestígio. Porém, uma surpresa contrariou as expectativas: ao invés de entrar na cidade à frente do seu exército vitorioso, montado em seu cavalo e vestido como general, Pompeu preferiu chegar em Roma a pé, vestido como um cidadão comum. Pensava ele que suas glórias bastariam para que fosse aclamado por todos. O que ele não sabia é que tanto o Senado quanto os democratas não viam com bons olhos a ascensão de um novo ditador.

Diante desse revés, uma aliança com Crasso e César se tornou cada vez mais possível. Em 59 a.C, os três formalizaram a aliança, que ficaria conhecida como Triunvirato, e se estenderia até 53 d.C. A parceria se firmava em 3 esferas: a política (Júlio César tinha acabado de se tornar Cônsul), a financeira/econômica (Crasso era um dos homens mais ricos de Roma) e a militar (Pompeu era o general mais afamado e temido, com um exército eficiente e preparado para os combates).

Vercingentorix, líder dos gauleses, se entrega a César.

Porém, apesar da duração de 6 anos, o triunvirato mostrou-se mais frágil do que aparentava. Embora César tenha legislado terras para os soldados de Pompeu e, em troca, tenha recebido apoio deste para sua nomeação como governador na Gália e iniciar a conquista de toda a região, além de Pompeu e Crasso terem sido eleitos cônsules novamente, e o segundo ter conseguido garantir os fundos para sua campanha contra os partas, o entendimento entre os três logo teria fim.

Crasso foi derrotado na Batalha de Carras e morto. Pouco depois, a esposa de Pompeu, Júlia (filha de César) veio a falecer. Esses dois tristes eventos vieram a enfraquecer por completo o elo entre os dois remanescentes do triunvirato, que desfizeram o acordo e passaram para enfrentamentos abertos. Apesar da estratégia do Senado, de manobrar Pompeu e César, para que não rompessem e, assim, provocassem uma nova guerra civil, o inevitável já havia acontecido. Pompeu não queria perder o posto que havia adquirido na ausência de César (era o homem mais influente e o único aliado do Senado que detinha força militar), muito menos César iria se resignar a ser o 2º homem no comando.

Nisso tudo, pior pra Pompeu, que estava sem o grosso do seu exército (estavam na Hispânia), que teve de fugir para o Oriente, numa estratégia que, se não fosse tão lenta, poderia ter surtido efeito: treinar e armar um novo exército no Leste, e cercar César por duas frentes, utilizando-se do exército que possuía na Hispânia. Acuado pelo inimigo na Grécia, Pompeu buscou ajuda junto à Ptolomeu do Egito. Porém, este rei, temendo por sua coroa, assassinou à traição o general romano, tão logo desembarcou em solo africano.

OS PUNHAIS

Eis que as lâminas mostram sua precisão! Morto Pompeu, César ficou a um passo de se tornar o chefe do Estado Romano. Após vencer o filho de Mitrídates, que buscava restaurar o poder perdido pelo pai, e o próprio Ptolomeu, que via em sua irmã, Cleópatra, a única capaz de lhe tirar a coroa (e ela recebia o apoio e as carícias de César!), enfim, o general conseguiu se impor sobre o Senado, agora composto de acordo com sua vontade. Com poderes ditatoriais, César passou a imprimir seu estilo de governo: assegurou-se do supremo controle de todos os assuntos públicos, acumulou diversos cargos em seu nome, limitou o Senado à sua vontade, instituiu a ditadura permanente e vitalícia e lançou bases para um governo autocrático.

Tamanho poder acabou gerando o descontentamento de um grupo de pessoas que se opunham, ainda que silenciosamente, ao ditador. Entre eles, antigos protegidos, como Cassio e Bruto. Temendo que César estivesse buscando tornar-se rei (Marco Antônio teria lhe oferecido uma coroa de presente), em uma reunião do Senado, após longa conspiração, um grupo de senadores o assassinou com uma série de punhaladas.

Há uma tradição que diz que César, ao ver entre os assassinos o protegido, Bruto, teria falado “Tu quoque, Bruti, filii mei!” (Até tu, Bruto, meu filho!). Mas, com tantas facadas, e muitas devem ter ferido seus pulmões, gerando uma hemorragia que o impediria de falar devido às tosses involuntárias, César não poderia ter falado nada, além dos possíveis gritos e gemidos de dor. Segundo Suetônio, autor de Vidas dos doze Césares, César não pronunciou frase alguma.