O povo judeu e sua fé

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Dando continuidade ao projeto As Religiões e a História, o Historiante traz para os leitores, neste mês de dezembro, um texto sobre o judaísmo. Das mais antigas crenças da humanidade ainda em prática na contemporaneidade, a cultura religiosa dos povos hebreus sobreviveu a guerras, tentativas de extermínio em massa de seus adeptos, preconceitos e diásporas. A fé num único deus, Javé/Jeová, e a promessa de um messias que os libertará da opressão são alguns dos pilares que sustentam sua crença.

Boa leitura e ótimos estudos.

A FAMÍLIA DE ABRAÃO

Diz o Velho Testamento que Abraão recebeu de Deus, por volta dos 75 anos de idade, o chamado para se mudar de mala e cuia para os rincões de Canaã, com a promessa de que seus descendentes dariam origem ali a uma grande nação. Dez anos depois, porém, já estabelecido na nova terra, o longevo migrante ainda não havia conseguido gerar a tão esperada prole. Sara, a esposa, o instigou a desposar sua serva, a egípcia Agar, para fazer valer o desígnio divino – união que produziu o menino Ismael. Quando o rapagote completava seu 13º aniversário, Abraão, já com 99 anos, teve outro encontro com Deus, que reiterou a promessa feita anteriormente e garantiu que a posteridade de Abraão sairia das entranhas de Sara. Dito e feito: no ano seguinte veio ao mundo Isaac, filho do centenário porém fecundo patriarca.

Abraão contemplando o céu

   Na festa de apresentação de Isaac, contudo, Sara viu o primogênito zombando do caçula, e ordenou ao marido que expulsasse Agar e Ismael de seus domínios. A idéia de desterrar o sangue do seu sangue não agradou a Abraão, que apenas levou a cabo a ação por ter a garantia de Deus que seu filho com a escrava também teria um destino fabuloso, iniciando outra grande nação. Assim, fornecendo um pão e um odre de água a Agar e Ismael, o patriarca mostrou-lhes o caminho da rua logo na manhã seguinte. Ambos erraram por algum tempo pelo deserto da Bersabéia, até que Ismael se fixou no deserto da Arábia, produzindo doze filhos – as doze tribos ismaelitas, ancestrais do povo árabe. Do outro lado da família, em Canaã, seu irmão Isaac teve como prole Esaú e Jacó. Os doze herdeiros deste último (rebatizado mais tarde de Israel) compuseram as doze tribos que deram origem ao povo hebreu.

O JUDAÍSMO APÓS ABRAÃO

   Isaque, filho de Abraão, tem um filho chamado Jacó. Este luta, num certo dia, com um anjo de Deus e tem seu nome mudado para Israel. Os doze filhos de Jacó dão origem às doze tribos que formavam o povo judeu. Por volta de 1700 AC, o povo judeu migra para o Egito, porém são escravizados pelos faraós por aproximadamente 400 anos. A libertação do povo judeu ocorre por volta de 1300 AC. A fuga do Egito foi comandada por Moisés, que recebe as tábuas dos Dez Mandamentos no monte Sinai. Durante 40 anos ficam peregrinando pelo deserto, até receber um sinal de Deus para voltarem para a terra prometida, Canaã.

   Jerusalém é transformada num centro religioso pelo rei Davi. Após o reinado de Salomão, filho de Davi, as tribos dividem-se em dois reinos: Reino de Israel e Reino de Judá. Neste momento de separação, aparece a crença da vinda de um messias que iria juntar o povo de Israel e restaurar o poder de Deus sobre o mundo. 

   Em 721 começa a primeira diáspora judaica com a invasão babilônica. O imperador da Babilônia, após invadir o reino de Israel, destrói o templo de Jerusalém e deporta grande parte da população judaica.

   No século I, os romanos invadem a Palestina e destroem o templo de Jerusalém. No século seguinte, destroem a cidade de Jerusalém, provocando a segunda diáspora judaica. Após estes episódios, os judeus espalham-se pelo mundo, mantendo a cultura e a religião. Em 1948, o povo judeu retoma o caráter de unidade após a criação do estado de Israel.

   A Torá, de acordo com a tradição judaica, é o livro sagrado que foi revelado diretamente por Deus. Fazem parte da Torá: Gênesis, o Êxodo, o Levítico, os Números e o Deuteronômio. Esses também são os primeiros livros da Bíblia Cristã. O Talmude é o livro que reúne muitas histórias contadas de pai para filho e é dividido em quatro livros: Mishnah, Targumin, Midrashim e Comentários.

OS ENSINAMENTOS JUDAICOS EM TERRAS BRASILEIRAS

   Quem nunca ouviu dizer que não se deve deixar sapato virado ao contrário, roupa pelo avesso, portas de armário abertas, varrer o lixo pela porta da frente de casa, dizer que alguém está “chorando a morte da bezerra” ou apontar a primeira estrela no céu? Estas e outras práticas do cotidiano de tantas famílias de Norte a Sul do país encontram, muitas vezes, associação no judaísmo que era praticado no Brasil. No caso da limpeza das residências, por exemplo, é costume entre os judeus manter sobre o batente da porta da entrada um mezuzá – pequeno pergaminho contendo trechos da Torá, livro sagrado dos judeus. Por isso, varre-se a casa, por respeito e honra, da porta pra dentro, onde o lixo é então recolhido, para que não passe pela mezuzá.

Mezuzá

  Após a segunda diáspora em 135 d.c, as comunidades judaicas se espalharam por todo o mundo. Países como a Alemanha, Polônia, Ucrânia e Rússia receberam grandes números de imigrantes Judeus.

   Em 1503, o cristão-novo (judeu convertido) Fernando de Noronha enviou barcos para extrair pau-brasil da terra descoberta por Cabral. Nas décadas seguintes, a colônia serviu de refúgio para milhares de cristãos-novos, perseguidos na metrópole por praticar um catolicismo duvidoso. Esses imigrantes contribuíram com seus genes e sua cultura para a formação do povo brasileiro.

   Em fins do século XVI, os cristãos-novos já eram donos de boa parcela dos engenhos existentes no Nordeste e ameaçavam os interesses dos cristãos-velhos, incomodados com a concorrência. Esses cristãos-novos não se limitavam ao açúcar: integrados na Colônia, eram influenciados e influenciavam a vida e os costumes locais. Eles exerciam funções na política, na administração e na economia, participando, ao lado dos cristãos-velhos, de várias atividades. Prova desse bom convívio eram os casamentos entre as famílias. A falta de moças cristãs para casar tornava as meninas judias muito disputadas. Esses casamentos serviam para que os antigos judeus pudessem provar que estavam convertidos ao cristianismo, despistando as desconfianças das autoridades da época.

   A primeira sinagoga do Novo Mundo foi edificada no Recife pelo rabino Isaac Aboab da Fonseca, durante o domínio holandês no Nordeste.

Sinagoga em Recife/PE

   Com a criação do Santo Ofício no Brasil, esse quadro de harmonia acabou. Vários cristãos-novos eram acusados de continuar as práticas judaicas, e muitos foram enviados para Lisboa, para julgamento e prisão ou morte na fogueira.

   As acusações apresentavam uma grande variedade de comportamentos vistos como denunciadores da ocorrência do judaísmo vivendo na Colônia, como usar roupas limpas e arrumas a casa às sextas-feiras em respeito ao Shabat, não pronunciar o nome “Cristo”, preparar a comida segundo a tradição hebraica, não ingerindo carne de porco ou peixes sem escamas, entre outras práticas.

   Com tanta perseguição, as casas das famílias judaicas transformaram-se em únicos lugares para a prática dessa religião, onde as mulheres exerciam o papel de mães, professoras e rabis, contando para os filhos as histórias dos povos judeus e ensinando as antigas orações judaicas.

A COMUNIDADE DO ARRECIFE

   No dia 5 de fevereiro de 1638, Manuel Mendes de Castro, cristão-novo natural de Portugal, também chamado de Manuel Nehemias, chega ao Recife desejando criar uma colônia agrícola com 200 judeus, “entre os ricos e pobres”, no Nordeste do Brasil. Seus planos não deram certo, conforme cartas do conde Maurício de Nassau: “em vez de se encaminharem para o seu destino, aqui se dispersaram e cada um tomou seu caminho tendo falecido o chefe”.

   Em 1635, com o domínio dos holandeses na região nordestina, muitos judeus atravessaram o oceano Atlântico e vieram viver em Pernambuco, onde a comunidade do Recife mantinha a primeira sinagoga das Américas e era conhecida em diversos lugares do mundo. Antes disso, muitos judeus já tinham vindo morar no Brasil.

   Em terras nordestinas, uma colônia judaica começou a se formar com a chegada dos holandeses. Em 1624 eles invadiram a capital da Bahia, foram expulsos pelos portugueses com a ajuda da Espanha. Seis anos depois, invadiram a região pernambucana, querendo conquistar a produção de açúcar do lugar. Desse período até 1654, quase todo o nordeste brasileiro ficou conhecido como o “Brasil Holandês”.

   Durante esse período, a tolerância e o respeito religioso ficaram garantidos na região holandesa do país, conforme a lei da época, de 13 de outubro de 1629. Por isso, Pernambuco passou a ser o melhor lugar para os judeus viverem. No Recife, o grupo judaico crescia a cada dia, e a cidade já não tinha espaço para tantos imigrantes judeus. A solução veio com a compra de vários terrenos no caminho de Olinda.

   Um pedaço desses terrenos ficou conhecido como Rua dos Judeus, onde funcionou a primeira sinagoga das Américas, criada por David Senior Coronel antes de 1936.

   Até 1644, o rabino Aboab da Fonseca e os judeus da Colônia desfrutaram de grande tolerância e prosperidade. Porém, com a expulsão dos holandeses do Brasil, eles voltaram a ser perseguidos e expulsos por brasileiros e portugueses. Muitos deles, desde 1654, voltaram para a Europa, e outros permaneceram nas Américas, só que em outros países. Um grupo de vinte e três judeus, entre adultos e crianças, foi parar em Nova Amsterdã. Nessa nova terra, fundaram uma comunidade que, mais tarde, receberia o nome de Nova York.

   A velha Rua dos Judeus ainda existe no Recife, mas agora se chama Rua Bom Jesus. Os prédios dessa rua foram transformados, por decreto do prefeito da cidade, em locais públicos, onde o Arquivo Judaico do Brasil fica guardado.

PÁSCOA JUDAICA

  Pessach (do hebraico, passagem), é também conhecida como Páscoa judaica.

   De acordo com a tradição, a primeira celebração de Pessach ocorreu há 3500 anos, quando de acordo com a Torá, Deus enviou as Dez pragas do Egito sobre o povo do Egito. Antes da décima praga, o profeta Moisés foi instruído a pedir para que cada família hebraica sacrificasse um cordeiro e molhasse os umbrais (mezuzót) das portas com o sangue do cordeiro, para que não fossem acometidos pela morte de seus primogênitos.

   Chegada a noite, os hebreus comeram a carne do cordeiro, acompanhada de pão ázimo e ervas amargas (como o rábano, por exemplo). À meia-noite, um anjo enviado por Deus feriu de morte todos os primogênitos egípcios, desde os primogênitos dos animais até mesmo os primogênitos da casa do Faraó. Então o Faraó, temendo ainda mais a Ira Divina, aceitou liberar o povo de Israel para adoração no deserto, o que levou ao Êxodo.

   Como recordação desta liberação, e do castigo de Deus sobre Faraó foi instituído para todas as gerações o sacríficio de Pessach, que abre as comemorações da festa dos pães ázimos.

   Matza é o substituto para o pão durante o feriado judaico da Páscoa, quando comer pão e produtos com fermentos é proibido, comida ou bebida feita à base de trigo, centeio, cevado, aveia, ou de seus derivados, mesmo que em quantidade mínima. A única exceção é a matzá, que é o pão não fermentado, pois foram tomadas precauções especiais para assá-la. Matzá é o alimento básico durante Pessach. É um “pão ázimo”, uma espécie de bolacha não fermentada feita de farinha de trigo e água. 

CHANUCÁ OU HANUCÁ

   Chanucá ou Hanuca (חנכה hănukkāh ou חנוכה hănūkkāh) é uma festa judaica, também conhecida como a Festa das luzes. Realizada em dezembro, essa comemoração significa período de religiosidade e também é sinônimo de dar e receber presentes.

   Chanucá é uma palavra hebraica que significa “dedicação” ou “inauguração”. A primeira noite de Chanucá começa após o por-do-sol do 24º dia do mês judaico de Kislev, Dezembro, e a festa é comemorada por oito dias. Uma vez que na tradição judaica o dia do calendário começa no por-do-sol, o Chanucá começa no 25º dia.