O Projeto da Companhia de Jesus nas terras brasileiras e sua opção pela educação Indígena

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Prof. Carl Lima
Licenciado e Mestre em História - UEFS

Europa do século XVI, período tumultuado, marcado pela transição de uma Idade Média para uma moderna, síntese do velho com o novo, novos costumes, novos modos de pensar, sentir e agir. É a época em que se torna mais proeminente o confronto de concepções de uma sociedade feudal e de uma pré-capitalista. A feudal, com sua hierarquia bem definida, o seu modo de produção autossuficiente e, de modo mais significativo, a força de uma instituição que se fortaleceu e se manteve como sendo a única hegemônica em todo o período: Igreja Católica. Do outro lado, uma sociedade recente, com multiplicidade de relações, na qual o “sangue azul” não fazia mais tanta diferença, baseada na busca do lucro e na acumulação de metais, disseminando as trocas e regida de maneira incisiva por uma nova concepção de relacionamento com o mundo, emanada pelo racionalismo e pelo humanismo. É o momento em que os grandes cientistas (Nicolau Copérnico, John Kepler, Leonardo da Vinci, Galileu Galilei) ganham respaldo na explicação dos fenômenos naturais.

Desse contexto, duas conseqüências são imprescindíveis para entendermos o tema que será abordado aqui: Primeiro, ao desenvolver a ciência (invenção da bússola, desenvolvimento da indústria marítima, aperfeiçoamento da astronomia) bem como a necessidade de novos mercados consumidores e de matéria prima e para, além disso, o bloqueio imposto pelos árabes no mediterrâneo, apontou a Europa para o movimento das Grandes navegações. Segundo, a crise que se abate sob a Igreja Católica no século em questão, além da já dita nova concepção de mundo (racionalista e humanista) a reforma feita por Martinho Lutero (1517) e consumada por João Calvino, veio fortalecer e mostrar o colapso daquela “Igreja Medieval” e florescer a necessidade de mudanças e de funcionamento para adequar-se à nova sociedade.

Nesta perspectiva, e com esse contexto, são disponibilizados por parte da Cúria Romana alguns instrumentos: Tribunal da Inquisição, Índex, Concílio de Trento e a tão destacável Companhia de Jesus. Formando, assim, o movimento de Reforma ou Contra reforma católica.

Com as Grandes Navegações, a consequente dominação e aparecimento do Brasil para o cenário europeu, e a Companhia de Jesus enquanto destacável instrumento da Reforma católica é necessário apresentar o tema deste artigo: a opção dos jesuítas pela catequese dos índios na terra “brasilis”.

Antes de optar pelas missões (em terras descobertas) é lícito caracterizar a opção dos Jesuítas pela educação, muito embora não possa deixar de ser frisada a preferência inicial por uma educação voltada para as elites. Conforme o historiador Egídio Schimtz, uma das objeções que se faz à primitiva Companhia é que não teria dedicado à educação dos mais pobres ou a educação popular, escolha essa que pode ser vista como uma contradição, quando tomamos por base os ensinamentos estabelecidos por Ignácio de Loyola, fundador da ordem, em sua obra “Formula Instituti” que estipulava como principio básico, a educação religiosa para crianças e dos analfabetos.

Tendo sido escolhido o público a quem seria dirigida a educação jesuítica Inaciana – elite adolescente – e, concomitantemente, para o nível secundário e superior, nada mais natural que a criação e disseminação de colégios mistos (para jovens leigos ou para candidatos à ordem) sendo o primeiro deles o de Messina (Itália, 1548) apenas oito anos após a aprovação da ordem. Esses Colégios diferiam dos então existentes, menos pelo currículo do que pela prevalência de uma preocupação com a educação moral do indivíduo. Todas as ações dos Jesuítas estavam baseadas no lema: “Omnia ad Maiorem Dei Gloriam”, “Tudo para a maior glória de Deus”.

A chegada da Companhia de Jesus em solo brasileiro ocorre em 1549, junto com Tomé de Souza, primeiro governador geral, fato que por si só nos dá subsídios que confirmam a opção dos jesuítas pela catequese dos índios, podendo ser fortalecido através do teor de um documento assinado pelo então rei de Portugal D. João III, que ficou conhecido historicamente como regimento de Tomé de Souza: “O principal por que se manda povoar o Brasil é a redução do gentio à fé católica” (trecho do regimento). 

Mesmo os Jesuítas dando continuidade na terra nova ao processo de fundação de centros de educação mista (colégios) que seriam responsáveis pela instrução dos filhos de donatários, senhores de engenho e militares, ou seja, da incipiente elite, nota-se a sua preferência na evangelização dos ameríndios. Para o pesquisador Máxime Haubert, as primeiras ações dos jesuítas no Brasil foram: cuidar dos doentes, fundar escolas, percorrer as ruas carregando cruz e introduzir o canto e a catequese aos índios para fortalecer as doutrinas cristãs.

Para facilitar o processo de catequese e educação, o padre Manuel da Nóbrega (responsável pela companhia de Jesus no Brasil) aconselhou aos companheiros a repressão implacável dos costumes intolerantes realizados pelos gentios, bem como a concentração dos mesmos em aldeamentos organizados. As tarefas da Companhia de Jesus foram marcadas pelas dificuldades de todas as espécies, que iriam desde o não apoio dos colonos a essa catequese, pois viam os índios como selvagens e prontos para a escravidão, passando pela dificuldade lingüística no estender e no falar os diversos dialetos existentes; chegando a dificuldade de deslocamento e penetração para o interior do território; sem contar a violência e os atos de antropofagia de algumas comunidades. O enfrentamento das dificuldades era amparado por um ensinamento na formação dos jesuítas: “ficar no mundo servindo o próximo, mesmo com a incerteza da salvação”.

O devotamento na catequese indígena era assegurado pela crença que os Jesuítas tinham em relação à origem desses povos. Para Simão de Vasconcelos, um dos principais teólogos e intelectual da Ordem, os nativos descenderam de uma ilha denominada “Atlante”, que ficava localizada próximo ao Mar Mediterrâneo e que se destacava por ser uma das civilizações mais avançadas política, social e economicamente. No entanto, essa foi inundada por águas do oceano, forçando seus habitantes a migrarem para terras desconhecidas. Dessa forma, as “bestas feras” do novo mundo tinham algum grau de parentesco com os Europeus. Essa concepção da origem dos indígenas, com certeza, contribuiu para maiores esforços dos Padres, pois nessa lógica Ameríndios e Europeus em nada diferiam, uma vez que foram forjados por um único criador, portanto, possuíam a mesma capacidade cognitiva e de crença. Sendo assim, a missão maior seria desenvolver estratégias que ajudassem na diminuição e, se possível, aniquilação dos vícios degenerativos que os gentios sofreram ao longo dos séculos de isolamentos e de aproximação com Satã e outras forças malignas. Em suma, a base dessas estratégias ficou por conta da propalada “Catequese”, que teria, antes de qualquer coisa, um sentido natural/humanista, e sua realização plena iria contribuir para recolocar os Povos Indígenas na rota da humanidade.

Uma pergunta se faz oportuna: quais foram os métodos utilizados para conseguir o sucesso da catequese? Os métodos variavam de região para região, no entanto, podemos apontar alguns que teriam certa recorrência: uso de presentinhos pra facilitar o contato, a destruição de comunidades para forçar uma perda de autonomia e, com isso, facilitar o aldeamento em missões, adoção de jovens indígenas para mediar contatos com outros povos e com isso proporcionar o estudo da variação lingüística nativa.

A perspectiva adotada neste trabalho nos evidencia a opção dos Jesuítas pelos indígenas. Mais uma interrogação se apresenta: o porquê desta opção? Além da já falada origem em comum – da mítica Atlante -, a resposta gira em torno do Projeto colonial português. Para isso, a historiografia desenvolveu a tese da associação direta da Congregação com a Monarquia portuguesa. Mesmo que essa idéia não possa ser tomada por completo, não podemos negar a proximidade que a Companhia tinha com o rei de Portugal, D.João III, sendo considerado, inclusive por Ignácio de Loyola, como o verdadeiro patrono da ordem. Mesmo com essa aproximação formal e com objetivos comuns, não podemos desconsiderar também, os problemas ocorridos na relação entre os padres e os colonos em quase todo o território, especificamente a partir do momento que a alta cúpula da Ordem optou por ser contrária à escravidão indígena da forma estabelecida pelos senhores. Dessa maneira, podemos afirmar que as principais contribuições da ordem para o processo de colonização ficam por conta do apaziguamento do ambiente, bem como no controle dos costumes tidos como intoleráveis e na tentativa de aproximar a cultura indígena da européia, tida como perfeita e correta, num claro processo de aculturação hegemônica. Em face disso, a principal tarefa do missionário seria levar os índios a uma vida regular, contrária a seus instintos nômades, de educá-los ao trabalho contínuo, algo que, aos olhos da alteridade européia, poderia ser refutada por eles, e o de vencerem a sua indiferença ante a necessidade da própria vida.

Por fim, não podemos negar que o interesse dos Jesuítas pelos indígenas deixou marcas profundas nas comunidades. Mesmo defendendo-os das mãos dos colonizadores escravistas, a Companhia de Jesus através de suas interferências contribuiu de maneira ampla para descaracterização da identidade dos gentios, algo visível, atualmente. Parece-nos que a preocupação desses “guerreiros da fé” esteve sempre voltada para as benesses da própria Ordem e para cumprimento de uma profecia que trilhava o ideal de “quanto mais difícil fosse e mais dificuldade encontrasse” demonstrariam o nível de abnegação e renúncia, característica primordial e diferencial da Companhia de Jesus.