OMISSÕES, REPRESSÕES E IMPRENSA ALTERNATIVA : ALGUNS JORNAIS BRASILEIROS NA ÚLTIMA METADE DO SÉCULO XX.

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Prof. Juliano Mota Campos
Licenciado e Mestre em História - UEFS

Não é um editorial final caros leitores, mas um ponto de reticências  no último texto da série sobre a imprensa brasileira, promovida pelo Historiante. Ao colocarmos os holofotes sobre o período de 1964 a 1985, marcado pela ditadura militar no Brasil, visualizaremos quais foram as posturas político-ideológicas adotadas pelos principais jornais da época – especialmente o Correio da Manhã e o Jornal do Brasil, os de maior tiragem no país e circulação nacional –  situando também o surgimento de uma imprensa alternativa e as relações de todos esses folhetins com os diversos sujeitos e instituições em um momento tão conturbado da recente história da república do Brasil.

Um movimento político-militar marcado por violências, perseguições e de transformações abruptas inclusive no campo econômico nacional: assim podemos caracterizar a ditadura militar. Não está em questão um debate em torno de suas origens   (revolução ou golpe?) nem os fatores históricos que levaram a esta intervenção sobre o poder político dos civis entre 1964 a 1985, mas nos é relevante o fato de que este acontecimento foi um marco não apenas de mudanças em setores estruturais do País ao longo de duas décadas, mas também da imprensa. Inicialmente este regime autoritário foi apoiado por amplas parcelas da população, pela maioria dos detentores de cargos eletivos, e obteve, também, o respaldo editorial da quase totalidade dos jornais brasileiros, apresentando-se como uma questão muito mais complexa do que se pensava.

A pesar da grande imprensa, em geral, valorizar a sua posição de crítica e resistência no período da ditadura militar no Brasil, colocando-se como porta-voz da democracia e defensora dos interesses populares, uma pesquisa realizada na USP coloca em dúvida essa questão. Na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) o estudo do professor de história Eduardo Zayat Chammas, intitulado A ditadura militar e a grande imprensa, analisou editoriais dos veículos Correio da Manhã e Jornal do Brasil entre 1964, ano do golpe, e 1968, ano de implantação do Ato Institucional 5 (AI-5). O autor verificou que o papel dos dois maiores jornais no início do regime militar foi complexo, com apoio ao golpe, à ditadura e à condenação do trabalhismo e de movimentos sociais.

Segundo Chammas, os dois jornais tinham um alvo de críticas em comum: os trabalhistas. “Eram contra o projeto social desenvolvimentista que possibilitava mudança nas estruturas sociais, na estrutura de poder”, explica. “Só era legítimo o poder que vinha das instituições formais da democracia liberal, como o poder legislativo ou a própria imprensa, considerada a porta-voz da opinião pública. Os movimentos das ruas não tinham voz para esses jornais”. Um exemplo disso é que ambos foram a favor do Estatuto da Terra, que nega uma reforma agrária voltada ao povo e traz grandes empresas capitalistas para o campo.

Baseado também no estudo dos textos que expõe a opinião do veículo (editoriais), o Correio da Manhã e Jornal do Brasil mostraram-se a favor da queda de João Goulart do poder. O primeiro, inclusive, publicou editoriais na capa pedindo a saída do presidente e se declarou “herdeiro dos ideais democráticos da revolução de 1964”, segundo Chammas.  A postura dos jornais sobre os atos institucionais (AI), uma série de decretos que o governo militaranunciava, com novas normas a serem cumpridas, teve grande importância até o quarto AI. O Jornal do Brasil não contestou nenhum deles, já O Correio da Manhã, por sua vez, fez críticas leves às medidas, nesses atos, que iam contra as liberdades individuais, principalmente de expressão.

Conforme a insatisfação popular aumentava, diversos setores da sociedade mobilizavam-se contra as medidas institucionais impostas pelo autoritarismo dos militares, inclusive depois da passeata dos 100 mil (RJ), em protesto contra os militares, o Jornal do Brasil passou a questionar alguns pontos do regime e O Correio da Manhã fez duras críticas às medidas que apresentavam alguma restrição à liberdade de imprensa nesses 4 anos. Com o advento do AI-5, que diminuiu muito as liberdades dos cidadãos, implantou a censura a toda forma de manifestação contra o governo e aumentou muito mais o controle do estado sobre a imprensa, a postura dos jornais mudou. “Os dois veículos dialogavam com as classes médias e a burguesia, que foram mais afetadas depois do AI-5”, esclarece Chammas.

Se a grande imprensa padecia com a censura da ditadura ou era complacente para com o regime em muitos momentos, os jornais alternativos faziam denúncias sistemáticas das torturas e violações dos direitos humanos que ocorriam no País. A imprensa alternativa era organizada por jornalistas ligados a movimentos populares ou a correntes de partidos políticosde esquerda que estavam na clandestinidade. Eram jornalistas que tinham clareza do que pretendiam com o jornalismo e invariavelmente haviam perdido emprego na grande imprensa. Criavam assim um meio de trabalho, de denúncia da repressão e de pregação de uma outra sociedade.

Inúmeros jornalistas pregavam a revolução para derrubar o sistema capitalista e construir uma sociedade socialista e comunista. Na obra Jornalistas e Revolucionários: nos tempos da imprensa alternativa, Bernardo Kucinski desenha um panorama dos jornais alternativos que nasceram no Brasil durante a ditadura militar. Na apresentação do livro, Kucinski conta que entre 1964 e 1980 surgiram e desapareceram cerca de 150 periódicos  “que tinham como traço comum a oposição intransigente ao regime militar”. Esta imprensa era formada por veículos independentes em relação às empresas jornalísticas e ao mercado publicitário, cujo conteúdo se caracterizava pelo tom crítico em relação à situação econômica e política do País, mas também relativamente aos costumes.

Satíricos, políticos, feministas, ecológicos e culturais, essa era a tipologia dos jornais alternativos que permearam o campo da informação nessa época. O primeiro foi o Pif Paf, criado por Millôr Fernandes em maio de 1964, que teve apenas oito edições. Mais duradouros foram O Pasquim, fundado em 1969, que mesclava textos sobre política, cultura e humor; Opinião, criado em 1972 pelo empresário e futuro deputado constituinte Fernando Gasparian, que se caracterizava por artigos sobre a situação nacional e internacional; Movimento, surgido em 1975 de uma dissidência de Opinião sob a liderança de Raimundo Rodrigues Pereira. A maioria teve vida efêmera devido à censura ou à falta de sustentação financeira.

Os “alternativos” :VersusCoojornalRepórterEm tempo e outros  tiveram vida curta e encerraram as atividades por motivos variados, que vão de divergências políticas internas às dificuldades de administração comercial. O Pasquim foi o que teve vida mais longa, de 1969 a 1988. Até 1975, o jornal sofreu cerrada censura dos militares. No advento dos anos 80, o Pasquim foi vítima desta vez de uma cisão interna por causa de divergências partidárias. Em 1988, o jornal que havia sido símbolo da resistência fechou, depois de ter suas vendas reduzidas a três mil exemplares, em edições quinzenais (e não mais semanais). O correto é que, com a abertura política, os jornais alternativos perdessem sua principal função – de resistência. Muitos jornalistas também foram sendo absorvidos de volta à grande imprensa.

Quanto aos jornais vespertinos, gradualmente desapareceram ou se tornaram matutinos, o número de títulos nas maiores urbes diminuiu. Os líderes, porém, aumentaram sua circulação e se modernizaram tecnologicamente com a introdução da fotocomposição e da impressão offset na década de 1970 e com a informatização, já na fase de transição do regime militar para a redemocratização. Diante das restrições ao noticiário político e social, e da expansão econômica do País, os jornais reforçaram suas editorias de economia. Isso significou o desenvolvimento de um jornalismo econômico vigoroso, tanto nos títulos especializados, quanto nos de informação geral.

A postura política e ideológica dos jornais brasileiros foi complexa, heterogênea e variável durante o regime de exceção, sendo que muitos desses veículos preferiram em vários momentos circular entre os interesses de particulares, partidos ou grupos ligados ao governo e/ou elites e as demandas da população. O papel da imprensa alternativa foi em vários momentos de contrapor a uma massa jornalística favorável aos interesses da minoria, mesmo que sem o mesmo alcance quantitativo que o dos seus opositores. A imprensa desta forma, mais uma vez através dos jornais figura enquanto um veículo importante não apenas para informar os fatos ocorridos no cotidiano do Brasil, mas enquanto um guardião de uma memória tão singular e ao mesmo tempo plural quanto este país.

Não acompanhou a série da Imprensa desde o início? Então comece a leitura:

Texto 1 – O ABC da imprensa brasileira.

VER TAMBÉM:


KUCINSKI, Bernardo. Jornalistas e revolucionários – nos tempos da imprensa alternativa. São Paulo: Edusp, 2003.

MARCONI, Paolo. A censura política na imprensa brasileira: (1968-1978). São Paulo: Global,1980.

FICO, Carlos. Reinventando o otimismo: ditadura, propaganda e imaginário social no Brasil. Rio de Janeiro: Editora Fundação Getúlio Vargas, 1997.