Os maias, o medo do fim e o fim do medo.

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Nem só de maias vivem as teorias apocalípticas. Esperar o fim faz parte da cultura de civilizações em toda a história.

Prof. Pablo Michel Magalhães
Licenciado em História - UPE
Especialista em Docência da Filosofia - UCAM
Mestre em História - UEFS

    Não, este não é um texto esotérico. Você não vai encontrar algo do tipo “Os maias previram o fim do mundo”, ou “a civilização maia fez contato com seres espaciais”, ou até mesmo “seriam os deuses astronautas?”. Não. Você está n’O Historiante. Aqui, refletimos sobre algo a partir do conhecimento histórico.

 Assim, seja bem vindo, historiante.

   Há um bom tempo vejo crescer o número de sites, blogs, vlogs, microblogs (e demais “ogs” mundo virtual afora) sobre um mesmo assunto: o fim do mundo, o armagedon, o apocalipse, o último capítulo da humanidade, etc, etc. Explicar novamente aquilo que virou um viral é chover no molhado, mas aqui vamos nós: os maias, civilização ameríndia que povoou uma região que hoje corresponde a boa parte da América Central (países como Honduras, Guatemala, El Salvador, sul do México, Belize compõem a região aqui delimitada) teriam fixado, através da observação dos astros e aparente “previsão do futuro”, uma data para o fim dos tempos, onde o ciclo da humanidade haveria de se fechar! O provável dia seria, assim, 21 de dezembro de 2012.

    Bastou isso para que dezenas de pessoas começassem a especular se realmente o fim chegaria, quem seriam esses famigerados maias e como eles poderiam ter previsto tal fato catastrófico.

    Bom, de minha parte, fico feliz em participar de outro “fim do mundo”. Já estive em 1999, quando astrólogos, místicos e esotéricos previram o fim dos tempos, baseados nas teorias de Nostradamus (médico, alquimista e ocultista, que ingeria uma planta alucinógena, pilosela, antes de entrar em transe e escrever suas profecias), de que um grande eclipse, no dia 11 de agosto, seria o sinal revelador do armagedon. E agora outro! Penso, quem sabe, em fazer uma camisa “Eu fui ao Rock in Rio”, porém, escrito “Eu fui ao fim do mundo”, pra comemorar mais esse evento.

   Entretanto, leitor(a) amigo(a), vamos além. Ao longo da história, a humanidade conviveu com outras datas marcadas para o apocalipse, que, no entanto, não se concretizaram.

O ano 1000 e a vinda do Anticristo

“Quando, porém, se completarem os mil anos, Satanás sairá de sua prisão e sairá a seduzir as nações” (APOCALIPSE, capítulo 20, versículos 7 e 8).

   Medo, horror, fome, seca e mortes. Os anos que precederam o ano 1000 trouxeram para a humanidade uma série de flagelos, sinais da vinda do anticristo. Temendo as piores desgraças, a população passou a buscar abrigo nas catedrais e demais igrejas, sob a batuta dos clérigos, e lá oravam sem parar, para que não fossem destruídos. O próprio papa Silvestre II (950-1003) e o sacro imperador romano-germânico Oto III (980-1002) teriam se unido às multidões, tecendo inúmeras orações todas as noites, desejosos de ver o sol raiar após a virada para o ano fatídico. Angustiados, aguardavam o soar das sete trombetas dos sete anjos do Juízo Final.

   Consegue sentir todo esse medo? Pois é. Mas isso não passa de uma fábula.

   Historiadores do século XIX, como Jules Michelet e Henri Martin, teceram descrições primorosas sobre a catástrofe em torno do ano 1000, baseados em escritos de cronistas que viveram quase 100 anos depois dos acontecimentos e em menções isoladas e entrecortadas de alguns documentos da época, que registravam secas, guerras e fome na Europa.

    O historiador, Georges Duby, em seu livro O ano 1000, de 1967, retoma a discussão sobre se teria sido realmente este um ano de frenesi por conta de um provável apocalipse. Para Duby, o ano 1000 (e o período anterior e posterior a ele) teria sido um momento de profundas modificações políticas e econômicas, entre elas a solidificação do sistema feudal e a constante insatisfação popular, a seca de 1004 e a fome generalizada em todo o ocidente cristão.

    Outros historiadores levantam outras questões: para ter medo de um ano 1000 aterrorizador, a população medieval tinha que saber que estava no ano 1000! Em uma sociedade de grande maioria rural, a contagem do tempo se dava de acordo com o regime de colheitas, as estações e festas religiosas, ignorando qual ano seria (clérigos tinham noção de anos por seguir o calendário gregoriano, algo muito distante do povo analfabeto dos feudos). A imprecisão em marcar os anos, inclusive dos próprios clérigos, seria um dos argumentos contrários.

   Porém, teria sido a profecia do ano 1000 divulgada em grande escala? E houve quem acreditasse nela?

  Historiadores positivistas (sim, esses famigerados e discriminados, odiados e amados) foram os primeiros a questionar a veracidade daquilo que os historiadores do século XIX haviam escrito. O questionamento deles era o de que não havia documentos (fontes escritas) que mencionassem um temor catastrófico no ano 1000.

   Seguindo essa ideia, podemos tomar dois textos da época como exemplo: a Apologética, de Abbon de Fleury, e as Histórias, do monge Raul Glaber. No primeiro livro, o monge Abbon contestava dois erros teológicos, muito difundidos em sua época: o primeiro, de que o anticristo viria ao mundo tão logo se completassem mil anos, e depois chegaria o Juízo Final; o segundo, de que o fim dos tempos chegaria quando a festa da Anunciação, de 25 de março, caísse em uma sexta-feira santa. Contra a primeira profecia, Abbon utilizou-se de uma reflexão Agostiniana: só Deus sabe o dia do fim, e os 1000 anos contados na Bíblia não correspondiam a uma contagem dos homens e seus calendários, mas sim a de Deus. À segunda teoria, o monge provou que a tal coincidência era mais comum do que se imaginava. Abbon não relata qualquer reação dos fiéis a essa interpretação, considerando ser este problema apenas de ordem técnica.

   O segundo livro é que vai falar sobre o caos e as catástrofes em torno do ano 1000 até 1033. Raul Glaber, em uma série de 5 livros, utiliza-se de uma narrativa terrificante e desesperançada, onde vendavais destruíram colheitas inteiras, e carne humana passou a ser consumida em mercados; valas comuns estavam repletas de corpos pútridos; e, numa noite, o próprio Glaber deparou-se, num canto escuro de seu quarto, com um pequeno homem, com barbicha e lábios secos, o próprio diabo, em pessoa! Solto, o anjo caído estaria aterrorizando as pessoas, encaminhando boa parte para o caminho do inferno.

    Bem, o texto de Glaber, cheio de temores e certezas do fim, foi finalizado pouco antes de sua morte, em 1043 (ou seja, nem o próprio autor viu o fim do mundo que tanto alardeava). Além disso, tomar apenas o texto dele isoladamente, e acreditar que o que está escrito é verdade pode ser um grande risco, principalmente pelo fato de Glaber falar sem ter paralelos (ou seja, ninguém que escreveu na mesma época do monge relata tais eventos, como indícios de um fim dos tempos).

Nostradamus e as plantas alucinógenas

    Alquimista, médico, ocultista, Michel de Nostredame (1503-1566), ou simplesmente Nostradamus, foi um dos personagens mais controversos da França no século XVI. Ligado ao ocultismo e às previsões esotéricas, Nostradamus fez fama na Europa como vidente, lançando almanaques anuais com suas previsões. Como era boticário, pesquisador de plantas e suas funções curativas e alucinógenas, não pôde complementar seus estudos em medicina (aqueles que prescrevem jamais poderiam fazer os próprios remédios).

    Muito requisitado em toda a Europa, Nostradamus esteve na corte de Henrique II da França e, de acordo com interpretações feitas sobre suas profecias, acredita-se que o boticário tenha previsto a morte do rei. A quadra em questão é a seguinte:

O leão jovem vencerá o mais velho

No campo de batalha, em um duelo singular

Seus olhos lhe perfurará dentro da gaiola de ouro

Em um dos dois combates, depois morrerá de morte cruel

(Centúria I, quadra 35)

É provável que esses versos se refiram ao combate entre o capitão Montgomery, chefe da guarda pessoal do rei, e o próprio Henrique II, em uma justa de lanças. Ao se chocarem, a lança do capitão acertou o olho direito do rei, transpassando até a orelha do mesmo lado. A “gaiola de ouro” poderia ser o elmo dourado do rei da França. Poucos dias depois, Henrique II veio a falecer.

    Ao todo, Nostradamus escreveu 12 centúrias com supostas previsões de eventos sem datação precisa. Algumas interpretações feitas apontam para fatos desde o século XVI, passando pelo XXI, até tempos futuros, distantes vários anos a frente de nossa época. Uma das quadras supostamente se refere ao fim do mundo, e foi utilizada pela imprensa internacional em 1999:

Quando a falta do sol então será

Sobre o pleno dia o monstro será visto,

Tudo de outro modo se interpretará

Carestia não esperada, ninguém terá se provido

(Centúria III, quadra 34)

    Segundo a pretensa interpretação, Nostradamus se referia ao último eclipse total do sol do século XX, ocorrido no dia 11 de Agosto. Neste dia, o tal “monstro” surgiria, figura de linguagem para a catástrofe final, e o mundo chegaria ao fim. Não preciso dizer que o alarde geral e as teorias de conspiração em 1999 sobre a profecia de Nostradamus tomaram conta da tv, jornais e internet.

    Como vocês devem ter percebido, o mundo também não acabou em 11 de agosto de 1999 (piada sem graça, mas necessária).

Os maias e 2012

    Por fim, os maias.

    Essa civilização pré-colombiana, que teve seu período áureo entre os séculos II e IX da nossa era, possuía um sistema de contagem do tempo muito bem definido. Basicamente, os maias possuíam 3 ciclos temporais: um de 260 dias (Tzolkin), que corresponde aos 20 signos maia, outro de 365 dias (Haab), que acoplados formavam a roda calendárica, e um de 5.125 anos, chamado de Conta Longa. De acordo com a cosmologia maia, a cada 5.125 anos, o planeta passava por uma renovação após o fim de uma era; a atual teria começado no ano de 3114 a.C. Assim, pelas contas, o ano final desta seria 2012 e, mais precisamente, a data ritual seria 21 de dezembro (levando em consideração os ciclos Tzolkin e Haab).

    Pesquisadores ao longo dos séculos XIX e XX foram responsáveis por decifrar os códices dos maias e apresentá-los para a comunidade mundial. O livro do arqueólogo americano Michael Coe, Os maias, de 1966, congregou estudos e pesquisas desenvolvidas em mais de 100 anos por americanos, franceses, mexicanos e ingleses, e apontava a provável data do fim da Conta Longa: 24 de dezembro de 2011. Uma revisão metodológica na observação do calendário maia fez com que, nas edições seguintes, Coe modificasse a data para a que hoje conhecemos: 21 de dezembro de 2012.

    No entanto, a partir da década de 1970, várias teorias conspiratórias surgiram, buscando interpretar o calendário maia a partir da ótica esotérica e indicando que a civilização pré-colombiana podia prever eventos futuros. Autores como Tony Shearer, Frank Waters e José Argüeles buscaram significados místicos e espirituais na contagem do tempo maia. Para estes escritores, os ciclos de 5.125 anos representavam renovações espirituais, mudanças harmônicas e reorganizações espaciais de estrelas e planetas, criando energias diferenciadas.

    A partir de 1990, eis que surge o tal fim do mundo:  Maurice Cotterell e Adrian Gilbert, por meio do livro As profecias maia, introduzem a ideia, sem base qualquer na cultura maia, de queos ciclos de Conta Longa representariam renovações energéticas solares. Um aumento das explosões solares enviaria um número mais alto de radiação em direção à terra, capaz de aquecer o planeta e reverter os pólos magnéticos. O sucesso comercial desse livro influenciou outro escritor, Lawrence Joseph, que foi além em seu livro Apocalipse 2012: para ele, a inversão dos pólos magnéticos e o aumento da radiação solar causariam explosões vulcânicas e o torpedeamento da terra por raios solares que, em pouco tempo, dizimariam a raça humana.

Como naquele ditado popular, quem conta um conto… cria um fim do mundo!