“Sou amigo de infância de todas as bolas deste mundo” – Série Historiante Futebol Clube

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O homem singular, o mito diferenciado.

Prof. Gesner Santana Silva
Especialista em História do Brasil

O ano de 2013 foi marcado pela despedida do “velho”, da Enciclopédia do futebol, morreu Nilton Santos. Antes de tudo, sou botafoguense, e por mais imparcial que quisesse parecer este texto, não o fiz com a intenção de ser tão parcial, estamos lidando aqui caros colegas, com paixão, com sentimento de vida e com estas situações onde, ou você é, ou nunca foi assim, um apaixonado pelo futebol. Tomo partido de um jogador que defendeu apenas um clube, o maior de todos os clubes de futebol, o Glorioso Botafogo.

Não existe tarefa mais complexa do que redigir algo sobre um ser humano que transcende a figura do homem, do ser mundano e comum. Nilton Santos foi o maior dentre os maiores, está cravado em nome e em prosa no Panteão dos deuses futebolísticos, suas jogadas, sua classe, sua amizade com a bola e com todos aqueles que fazem parte do mundo do futebol (jogadores, torcedores, dirigentes, árbitros, jornalistas) estão eternizadas em crônicas, textos e em livros. É sabido que este super-homem foi o alicerce esquerdo da construção da rica história do futebol brasileiro, que passa lógico, pelos pés dos jogadores do Botafogo. O preto e o branco são as únicas cores.

O maior lateral esquerdo de todos os tempos, não começou sua carreira como lateral, era ponta-esquerda, gostava de atacar e sabia atacar muito bem. Foi Carlito Rocha, o Bruxo Alvinegro que descobriu e profetizou a posição de “beque” para aquele homem alto, de voz um tanto rouca e de uma classe transcendental e única.

Por ser entusiasta do ataque (peladeiro que foi), ter um bom passe e visão de jogo privilegiada, Nilton Santos foi deslocado para a lateral esquerda do maior clube de todos os tempos. E lá fez morada e construiu seu legado, por vezes deslocado para função de “frente de zaga” ou “líbero” o dono da pequena área era sempre ele. Não dava bico para o alto, e por não dar bico foi reserva em 1950 (Copa do Mundo, disputada no Brasil). Não dava carrinho para não sujar o calção. Nunca errou um tempo de bola, nunca foi enganado pelo quique maroto dos campos acabados do interior carioca ou paulista e nem do mundo. Dominava tudo, dominava todos. Atacantes dos mais ligeiros e serelepes respeitavam o atleta que empossava a camisa meia dúzia do Glorioso e da Seleção.

Nilton Santos defendeu apenas um clube entre 1948 e 1964 (precisa escrever qual?), na seleção brasileira de futebol participou de quatro Copas do Mundo (1950/1954/1958 e 1962), sendo campeão por duas vezes (1958 e 1962). No Botafogo foi contemporâneo, amigo e conselheiro do Mané, ajudou o Didi na famosa greve de fome e colaborou também com o ainda jovem Pelé a vencer os desafios e a diminuir a tensão da inexperiência. Destacou-se no clube que amava e jogava, na seleção foi conhecido, reverenciado, e no planeta bola foi perpetuada a imagem da vitória e da solidez, marcas registradas. Por tanta vivência passou a ser conhecido como a Enciclopédia, não por sua sapiência e sagacidade com as palavras e atitudes, mas, por seu amplo conhecimento de causa e de causos. Era um grande contador de histórias.

Nilton também foi o “velho”, alcunha recebida com o avançar da idade, mesmo “velho” (foi convocado para a Copa de 1962 aos 37 anos) era o mesmo jogador, apresentando movimentação e posicionamento ímpar. A classe incomparável de Nilton Santos o diferenciava dos demais, ele não era amigo do erro, nunca errava e foi assim que segundo Zizinho, por sinal ídolo maior do velho, Nilton fez o jogo perfeito onde ficou eternizada esta passagem: “Só quem já viveu do futebol sabe a distância que existe entre acertar com frequência e não errar nunca. Ele não errou nunca.”.

É claro que o tempo em que Nilton Santos jogou era diferente. E vos digo, nunca assisti a uma partida do velho tudo que sei li, ouvi e procurei saber. O que é certo não deixa margem para dúvidas, mesmo romantizado e idolatrado em demasia, Nilton Santos foi e permanecerá sendo uma figura inigualável, como o jogador que foi e como o mito que sempre será.

“Tu em campo,

parecias tantos,

e, no entanto,

que encanto!

Eras um só,

Nilton Santos”.

Armando Nogueira, botafoguense.

Indicação de Literatura:

SANTOS, Nilton. Minha bola, minha vida. (Editora Gryphus, 1998)

MULLER, Maneco. O velho e a bola.(Maquinária Editora, 2013)