Tráfico sexual e os sonhos transformados em pesadelo

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Muito mais antigo do que aparenta, o tráfico sexual é uma mazela social do mundo contemporâneo com raízes na Antiguidade.

Prof.ª Josi Brandão
Licenciada em História - UPE

A novela Salve Jorgeda Rede Globo, está abordando como um dos temas principais o tráfico de mulheres para a exploração sexual. Uma realidade mais próxima a nós do que imaginamos, e muito antiga também, onde mulheres são iludidas por propagandas de vantagens de trabalho fora do país como garçonetes, bailarinas, modelos, ou qualquer outra atividade que valha dinheiro fácil, em dólar, que nada mais são do que iscas usadas por aliciadores para atrair mulheres ao exterior, o famoso dito popular “canto da sereia”. O que não imaginam (e que só quando chegam ao destino percebem) é que foram enganadas e são, na maioria das vezes, obrigadas a se prostituírem, pagando um preço muito caro, com maus tratos, jornadas excessivas de trabalho, pagamento inferior ao prometido, vivendo em condições subumanas, vigiadas constantemente por seguranças, com pouco contato com as famílias e mesmo ameaçadas, caso falem demais. Se não obedecem, podem pagar com a própria vida.

Na novela, a personagem Morena aceita ir para a Europa na esperança de melhorar de vida para ajudar a mãe e seu filho. Só que, ao chegar lá, a realidade é outra. Ela cai na armadilha de uma rede internacional de tráfico de mulheres. Lá, elas são expostas à prostituição, cárcere e, para piorar, são transformadas em mulas (pessoas que transportam drogas em seu corpo, geralmente para outros países e, em casos mais extremos, ingerem a droga encapsulada, ou em forma de pacote, embrulhada com plásticos, correndo sérios riscos de vida).

Apesar de associarmos fortemente a palavra “tráfico” ao comércio de escravos somente entre o Brasil e países da África, ela também é utilizada para se referir a outras ocorrências de transporte sistemático de pessoas destituídas de sua liberdade, tanto no mundo antigo quanto na atualidade. Uma forma cruel e desleal de explorar pessoas pelo mundo, aproveitando-se, muitas vezes, de sua situação econômica e social.

A ficção imita a vida, e grande parte das jovens que seguem para países como Espanha, Portugal e Itália (aceitando as propostas dos aliciadores), vão com a perspectiva de se prostituir. No entanto, outras desconhecem de fato o real caminho que vão enfrentar fora do país, sendo iludidas com falsas promessas.

O tráfico de pessoas ainda é uma atividade que cresce muito no mundo atual por várias razões: por ser uma atividade considerada de baixo risco, já que está relacionada ao fato de que as mulheres traficadas podem entrar nos países com visto de turista, ou ainda porque a prostituição pode ser facilmente camuflada com o argumento de que as mulheres irão trabalhar como garçonetes, babás, gerando um alto lucro (chegando a quase 32 bilhões de dólares anuais segundo a Organização Internacional do Trabalho – OIT), sem contar que, raramente, as pessoas envolvidas no recrutamento para a exploração são punidas e principalmente porque a maioria das mulheres traficadas pertence a classes sociais desfavorecidas, sofrendo com a falta de emprego ou desvalorização da mão-de-obra.

O Brasil é o maior fornecedor de escravas sexuais da América Latina, e os estados brasileiros em que a situação é mais grave são Ceará, Goiás, São Paulo e Rio de Janeiro, segundo um levantamento feito pelo Ministério da Justiça, por serem os principais pontos de saída do país. E os locais de destino são Espanha (32%), Holanda (11%), Venezuela (10%), Itália (9%), Portugal (8%), além de países como Paraguai, Suíça, EUA, Alemanha e Suriname.

O curioso é que o tráfico de pessoas é uma das práticas mais antigas da humanidade. Durante milênios, foi uma instituição fundamental em diversas civilizações antigas, modernas e contemporâneas, algo que mostra o quanto esse problema é alarmante dentro de qualquer sociedade.

O tráfico de seres humanos teve início na Antiguidade Clássica, na Grécia, e, posteriormente, em Roma, onde eram obtidos prisioneiros de guerra, sem o aspecto comercial, para realizarem os trabalhos braçais. Na Grécia, a própria pólis possuía escravos, pois o trabalho não era considerado digno. Na Roma antiga, as mulheres eram chamadas por nomes específicos, pois se levava em conta o local onde realizavam o comércio, suas preferências e nível social: Alicariae, Casoritae, Copae, Dilatrolae, Porariae, Libtidae, Noctunigitae, Prosedae, Pregrinae, Putae, Quadrantariae, Seratiae, Scrotae, Vagae, etc. Eram obrigadas por lei a utilizar uma toga viril, com mitra e véus amarelos, para que fossem distinguidas na sociedade.

A atividade passou a ter lucro em cidades italianas entre os séculos XIV e XVII, durante o Renascimento, o que estimulou o comércio e o capitalismo que se iniciava.

Na América, o tráfico iniciou-se com a colonização por países europeus, dividindo as terras em colônias de povoamento e colônias de exploração. A vinda de negros africanos para trabalhos forçados marcou notadamente a História americana. Com o passar do tempo, o tráfico de seres humanos passou a se fazer presente nestes locais de tal modo que passaram, além de receptores, a exportadores de pessoas, visando a sustentação do tráfico.

O tráfico internacional de pessoas apresenta-se como a terceira atividade ilícita mais lucrativa, perdendo somente para o tráfico de drogas e o de armas. Este tipo de atividade tornou-se um crime cada vez mais comum e a abordagem na novela, feita pela autora Glória Perez, pode promover uma mudança de mentalidade e fazer com que vítimas do tráfico sexual possam não mais se calar pela vergonha e preconceito que sofrem na sociedade. O silêncio precisa ser rompido, começando pela mídia que dá a estas pessoas oportunidade de procurar ajuda, criando condições que permitam à mulher traficada ter seus direitos respeitados e possam reconquistar o controle sobre suas vidas.

Assim, a sociedade precisa discutir o tema, sem puritanismos, para que os índices do tráfico sejam reduzidos, pois isto é uma afronta a toda sociedade.