A Africa estigmatizada

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Prof. Marcos Antônio Leite Lopes Filho 
Licenciatura em História - Autarquia Educacional de Belo Jardim (AEB) Especialista em ensino da História e Novas Tecnologia - Autarquia Educacional de Belo Jardim (AEB) 

O que conhecemos como África? Muitos conhecem e arriscam chamar a África de país pobre, com miséria e várias calamidades, que só fazem alimentar o estigma que foi dado há muito tempo atrás. Na verdade, a África é um continente e não um país, e o contato que aconteceu, muito tempo atrás, com o homem branco, trouxe várias marcas que até hoje sentimos. Concepções eurocêntricas diziam que as sociedades africanas não tinham história, pois a história da África só existia após os contatos com homens brancos, que se diziam civilizados e racionais, descartando as religiões e práticas ditas animalescas, associando o negro a imagens depreciativas. Abaixo, irei explanar sobre algumas ideias e momentos dentro da História, onde a imagem negativa do homem negro foi criada.

Existiram várias justificativas, por parte dos europeus, para colonizar o continente, desde motivos religiosos a climáticos. O homem branco pensava estar um passo a frente, pois trazia o progresso em sua bagagem, sempre tratando o continente como atrasado, e seu povo, incapaz. Estes processos de aculturação ocorreram baseados em justificativas muitas vezes ridículas, responsáveis por legitimar a destruição de culturas sólidas de povos africanos. Tudo o que na África havia se construído, em torno das diversas identidades e formas de organizações sociais, foram desconstruídas a partir de uma visão preconceituosa, estabelecendo uma compreensão universal onde a África tornara-se o lado obscuro, precisando de correção para se tornar civilizada, a partir de uma ideia dita como única e correta.

Apesar das diversidades encontradas no continente Africano, foi inventado um negro em geral, cheio de estereótipos ao seu respeito.

A dominação colonial foi resultado da expansão de dois imperialismos: o do mercado, apropriando-se da terra,  dos recursos e dos homens, e o da história. A exploração econômica, a expropriação de terras e o inventário da força de trabalho ocorreram por várias justificativas, uma delas surge através da missão colonizadora. O homem branco estaria a cargo de cristianizar o continente, e iria levar o progresso e a civilização, tratando o continente africano como atrasado e incapaz. Este caráter colonizador tinha como objetivo tirar os negros da condição de selvagens; uma vez civilizados, eles seriam assimilados à cultura europeia.

Muitas descrições, criadas há muito tempo, tratavam os africanos como animais selvagens, e o continente, um lugar habitado por monstros, seres semi-homens,  semi-animais. Por volta do século XVI, desembarcaram, na costa africana, portugueses, franceses, alemães, ingleses, belgas, etc., que viram com seus próprios olhos a verdade por trás de tudo que já ouviram falar da África. A partir destes contatos, a imagem do negro poderia ter sido remodelada, mas não foi isso que aconteceu. Os novos relatos continuavam seguindo a mesma ideia, trazendo o negro como animal, com cara de faminto, chifres na testa e com um olho só, era o que predominava nos escritos ocidentais sobre a África.

Apesar das diversidades físicas e culturais entre os negros encontrados no continente, os europeus se impressionaram com algumas características que apresentavam em comum, como a cor da pele, cabelo, a forma do nariz e lábios. Com estes traços físicos, considerados elementos coletivos, montou-se um negro em geral, traçando-se um perfil, onde encaixavam-no como raça única, onde todos eram iguais sem nenhum tipo de distinção. “Ser branco” foi assumido como uma condição normal, mas ser negro necessitava de uma explicação cientifica, a pigmentação da pele era entendida como clima tropical, logo pensaram  que o calor excessivo causava a pigmentação escura da pele, e quem ficasse muito tempo na África ficaria com a pele escura. Mas, logo foi derrubada esta hipótese, uma vez que a experiência dos colonos brancos, instalados no continente africano por muito tempo, mostrou que a pigmentação da pele nada mudou.

As obras científicas da época apresentavam várias lacunas ou demonstraram uma grande desconhecimento sobre a História dos povos africanos, tudo isso relacionado a concepção discriminatória e enviesada dos europeus, que fomentava este conhecimento preconceituoso a respeito deste continente. 

Esta construção a respeito do negro estava se enraizando ao longo dos tempos, criando uma estrutura mais rígida, a partir de um discurso acadêmico influenciado pela teoria evolucionista de Darwin e Spencer. Foram criados sistemas classificatórios que buscavam explicar o processo histórico mundial, no qual a África ocuparia um nível consideravelmente abaixo, relacionada como um continente atrasado e com um certo grau de inferioridade. Carl Von Linné lançou o livro “Sistema natural”, onde classifica o Homo Sapiens (entenda-se, o homem branco, segundo o autor) em cinco variedades, de selvagem a peludo. Já o Africano é classificado como instintivo, preguiçoso e atrasado.

Livro de Carl Von Linné, nele o negro é encarado como espécie inferior ao branco, mas uma contribuição aos estereótipos cristalizados ao longo do tempo.

Já em aspectos religiosos, a Igreja católica fez do preto uma representação do pecado e da maldição divina. Nesta simbologia, a cor preta representa uma mancha moral, física, morte e corrupção, ao passo que a branca remete à vida e à pureza. Podemos exemplificar isso dando um simples exemplo: o luto e a paz, onde o primeiro, revestido da cor preta, representa a perda, e o branco representa a paz, esperança.

Nas colônias ocidentais da África, as missões religiosas buscaram utilizar-se de representações de Deus como um senhor de idade branco de barba, sendo seu opositor, o Diabo, sempre representado pelas trevas, associando sempre o negro ao mal. Os missionários religiosos se decepcionaram com suas missões evangelizadoras, pensaram que a recusa dos negros em se converterem ao cristianismo refletia de fato de sua conduta pecaminosa. A única possibilidade de salvar os negros deste abismo era a escravidão, justificativa usada como defesa por muitos que eram favoráveis. Na verdade, não havia nenhum problema moral entre os europeus dos séculos XVI e XVII, pois na doutrina cristã, o homem não deve temer a escravidão do homem pelo homem, e sim sua submissão às forças do mal.

Por conta deste mito criado em cima do negro, foram instaladas capelas nos navios negreiros para que batizassem os escravos antes da travessia. Esta violação foi um grande desrespeito às religiões dos africanos; a preocupação cristã consistia em salvar almas e deixar os corpos morrerem, e nesta linha de raciocínio, os missionários sequer acreditavam que eles possuíam religião, os tratavam como pecadores, estando os brancos a fazer um favor, pois os salvavam do inferno, resgatando suas almas para o céu.

Todo este processo de aculturação, fez com que as sociedades africanas sofressem com a destruição de seus costumes e tradições. Obviamente, isso não ocorreu de forma uniforme, uma vez que muitas comunidades da África tentaram resistir, mas eram sufocados.

Ficamos mais surpresos por toda essa herança influenciar nossa sociedade nos dias de hoje: o racismo e todos os tipos de estereótipos não nasceram do dia pra noite, qualquer tipo de discriminação não se fixa na sociedade do nada, discriminações  acontecem a cada minuto, cabe a nós mesmos nos perguntar o motivo pelo qual a discriminação é tão forte nos dias de hoje. Um bom meio de entender é usar a sociologia e a História ao nosso favor, deixando pra trás o que for de negativo e aprendermos com os erros cometidos a muito tempo atrás. Todo o processo que o negro passou, dentre colonização e escravização, foi um desrespeito ao africanos.

Dica leitura:

Livro História da África, uma introdução, de Ana Mónica e Luiz Arnaut (Ano 2005)