Agricultura, cidades-estado e zigurates – Algumas considerações sobre o Tigre e o Eufrates

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Prof. Lucas Adriel S. de Almeida
Mestre em História - UEFS

Fazendo parte do que hoje chamamos de crescente fértil, a região da Mesopotâmia (que significa “terra entre rios”) desenvolve-se às margens de dois grandes rios, o Tigre e o Eufrates. Partindo desta constatação, acreditamos que o estudo sobre as atividades agrícolas é ponto fundamental para compreendermos os aspectos mais fundamentais da civilização mesopotâmica. Por localizarem-se entre dois grandes rios, os povos que habitaram a região da Mesopotâmia (sumérios, acádios, hititas, babilônios, assírios e caldeus, entre outros) conseguiram desenvolver um enorme potencial agrícola. Para que isto fosse possível, estes povos tiveram que aprender a conviver com o regime de cheias destes rios.

As atividades ligadas à terra, bem como o controle que os seres humanos desenvolveram sobre os grandes rios, não se restringiram aos povos da mesopotâmia, sendo base também de outras civilizações da antiguidade. Para ficarmos apenas em um exemplo bastante substancial, podemos destacar a sociedade do Egito Antigo que, como classificou Heródoto, consistia em “uma dádiva do Nilo”. A afirmação de Heródoto é uma clara alusão ao forte desenvolvimento que, nesta sociedade, existia em função de práticas agrícolas que iam da drenagem de áreas alagadas à construção de diques para um melhor aproveitamento agrícola da fertilidade proveniente das águas do rio Nilo.

Retornando à Mesopotâmia, os rios Tigre e Eufrates funcionaram como combustível do cotidiano agrícola e pastoril que permitiram ao homem se estabelecer de forma sedentária nesta região. Pautado neste raciocínio, o controle das águas dos rios foi de fundamental importância para o incremento destas práticas agrícolas, bem como para a permanência destes diversos povos numa região tão rica e fértil, já que as cheias destes rios não eram tão regulares quando a do Nilo. Pensando de forma mais abrangente, os povos que habitaram a mesopotâmia originalmente estruturaram aldeias e depois acabaram por se organizar no sistema de cidades-estados.

Este sistema administrativo caracteriza-se pela formação de cidades com governo autônomo. Nas cidades mesopotâmicas, o poder concentrou-se nas mãos dos reis que centralizavam os poderes político, religioso e militar. Estes chefes anteriormente eram chamados de Patesi. Sobre as cidades-estado mesopotâmicas, podemos levantar alguns destaques, a exemplo de Ur dos Caldeus, cidade onde teria nascido Abraão, patriarca Hebreu, ou ainda a famosa Babilônia, cidade de famosos reis como Hamurábi, que acabou impondo o domínio babilônico – por volta de 1973 a. C. –  sobre outras cidades-estado mesopotâmicas, formando o primeiro Império Babilônico. 

No contexto, Hamurábi tem grande destaque ainda pelo primeiro código de Leis escrita que leva o seu nome: O Código de Hamurábi. Fundamentado na Lei de Talião (“ olho por olho, dente por dente”) o Código de Hamurábi regia diversos aspectos da sociedade mesopotâmica. Existe ainda um destaque a ser dado à escrita cuneiforme, onde os sinais eram impressos com estilete em forma de cunha na argila molhada, quando a argila secava, os registros ficavam gravados. Outro rei que se destaca no contexto da Mesopotâmia é Nabucodonosor, famoso pela construção dos Jardins suspensos da Babilônia. Mas este ganhou destaque também por conseguir expandir as fronteiras da Mesopotâmia durante o Segundo Império Mesopotâmico.

(exemplo de escrita cuneiforme)

No que se refere aos aspectos religiosos, a região da Mesopotâmia desenvolveu um politeísmo que cultuava as forças da natureza. Podemos destacar também a presença dos Zigurates – templos religiosos mesopotâmicos em forma de pirâmide. Reparem o aspecto de um Zigurate na imagem abaixo:

Os Zigurates tiveram papel fundamental na sociedade mesopotâmica, funcionavam não só como locais para rituais sagrados, mas foram utilizados também para funcionar como, bibliotecas, observatórios astronômicos, entre outros. Neste caso aqui se faz necessário destacar a importância que tinham os estudos de astronomia e astrologia para os mesopotâmicos. Eles acreditavam que os astros influenciavam na vida dos seres humanos, inclusive em atividades como a agricultura – já destacada por nós como importante aspecto para compreender a sociedade mesopotâmica. Vale destacar também que os povos da mesopotâmia – em função desta preocupação com os astros – acabaram por desenvolver várias das formas de compreender o tempo que utilizamos até hoje, como dividir a semana em sete dias.

O estudo da civilização mesopotâmica é muito vasto e complexo e trabalhar todos os aspectos que compreende tal sociedade não foi a nossa intenção com este breve texto. Na verdade o objetivo deste texto foi o de lançar algumas considerações sobre esta sociedade, destacando a importância da agricultura e das demais atividades ligadas a terra, como a pastoril, para o desenvolvimento desta região. Assim sendo, ganhou destaque também um conjunto de conhecimentos desenvolvidos para “domar” os rios Tigre e Eufrates, o que nos permite refletir sobre a ação do na natureza e principalmente a relação que se estabelece entre o rural e o urbano, inclusive nas sociedades atuais.

Para saber mais sobre a civilização da Mesopotâmia leia:

REDE, Marcelo. A Mesopotâmia. São Paulo: Saraiva, 1997.