“As pedras vão rolar”: a trajetória do reggae no Maranhão (Parte I)

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Prof.ª Joyce Oliveira Pereira
Licenciada em História - UFMA
Mestre em História,Ensino e Narrativas - UEMA

Dentre as várias denominações conhecidas para a cidade de São Luís, capital do Estado do Maranhão, existe a alcunha de “São Luís, a Jamaica Brasileira”. Só por este título já podemos imaginar o motivo, mas você sabe como a “Atenas Brasileira”, a “Ilha do Amor”, a “Ilha Rebelde” passou a ser um dos principais redutos do reggae fora da Jamaica?

O reggae surgiu na Jamaica por volta dos anos de 1960 a partir da mesclagem de vários ritmos como o mento, o ska e o calipso. Segundo a lenda de criação do reggae, foi através da diminuição da velocidade do ska e a introdução da guitarra para marcação que o baixo e a bateria passaram a conduzir as músicas. Na década de 1970, o filme The harder they come, estrelado por Jimmy Cliff, retratou a efervescência do movimento reggae na Jamaica, mas foi com o disco Catch a fire dos Wailers que o reggae começou a se consolidar e a se projetar internacionalmente. Dentre os componentes do Wailers estava Bob Marley que após o término do grupo seguiu carreira solo e aderiu ao Rastafarianismo, religião que mudou o conteúdo das letras de suas músicas; estas passaram a ser mais espiritualizadas e defendiam a paz.

No Brasil, especificamente no Maranhão o reggae começa a aparecer na década de 1970. Não se sabe ao certo como realmente chegou aos nossos ouvidos. Dentre as hipóteses estão:

Os marinheiros que vinham da Guiana Francesa e aportavam em Cururupu (um cidade litorânea do Maranhão) trocavam os vinis de reggae por comida, bebida nos bares, ou para pagar as prostitutas do Porto do Itaqui em São Luís;

O Dj José Ribamar da Conceição Macedo  comprava os discos de vinil de Carlos Santos no estado do Pará e se tornou um dos pioneiros a discotecar reggae no Maranhão;

O reggae pode ter chegado através das ondas curtas dos rádios amadores que conseguiam captar frequências de diversas regiões. Incluindo o Caribe.

Rapidamente o ritmo jamaicano popularizou-se entre as camadas mais baixas da população. Podemos relacionar que esta adesão deveu-se ao fato de que as principais manifestações populares do Maranhão são fruto do legado cultural afrodescendente, bem como o reggae é na Jamaica.

No Maranhão se dança reggae agarradinho, de casal, uma herança das festas de bolero e salsa, os primeiros locais onde se tocou reggae em São Luís. Ir às festas de reggae aos fins de semana representava o lazer e a identidade do negro pobre excluído da sociedade ludovicense, era sua identidade. Estas festas, à época, eram localizadas nos bairros considerados mais perigosos da cidade, e a localização geográfica relegou ao reggae ser visto como coisa de marginal, lugar de violência e, portanto, de repressão.

A repressão ao ritmo jamaicano não foi só no âmbito da justiça; os intelectuais também consideravam um sacrilégio chamar a “Atenas Brasileira” também de “Jamaica Brasileira”, pois, segundo estes, o reggae era uma “Cultura importada” que não tinha nada a ver com a nossa história. Esta polêmica foi tão grande que virou até letra de música:

Se um radinho caísse aqui
caísse um radinho perto de você (2x)
Diga cidadão o que fazer
com informação em megatons
Bati a continência com
o Dial na frequência
ou desse obediência
insuflava a nação

Se um radinho caísse aqui
caísse um radinho perto de você (2x)
Diga cidadão o que fazer
com informação em megatons
Bati a continência com
o Dial na frequência
ou desse obediência
insuflava a nação

Mas atenção pra notícia:
A invasão é pacífica
A percursão é marítima
A explosão é sonora
é munição pós-moderna

O radinho, Cesár Nascimento.

Esta música representa, além desta polêmica, a assimilação do reggae pelas camadas médias da sociedade ludovicense já na década de 1990. Esta música hoje é um clássico da Música Popular Maranhense. Para que houvesse essa aceitação, foi necessário um processo muito grande, que começou com os universitários. Os estudantes de ensino superior nos anos 90 do século XX passaram a se identificar com o reggae roots, que é o reggae de raiz, que se refere a Bob Marley e sua mensagem. A partir disso, criaram-se locais “alternativos”, onde essa classe média pôde frequentar o reggae. Mas, como assim, frequentar o reggae?

Como já disse antes, os primeiros locais de discotecagem eram nas periferias, e esses locais são conhecidos até hoje como salões ou “clubões” de reggae com pouca infraestrutura, onde muitas vezes ocorrem brigas. Mas, a principal diferença é o reggae que se toca. A “massa regueira” ouvia/ouve os reggaes de radiola, que são grandes paredões de som com até 80 caixas que podem ser desmontadas e levadas para qualquer lugar. Os DJs é que comandavam/comandam a festa e as músicas tocadas eram/são os “melôs”. As radiolas têm seu público, seus fãs que muitas vezes acompanham seu percurso de discotecagem pela cidade. O Djs viajavam muito à Jamaica e foram os responsáveis pela “garipagem” dos grandes clássicos do reggae.

Havia/ Há uma grande competitividade entre as radiolas pela exclusividade das músicas. Por isso, muitas vezes, as capas dos discos eram jogadas fora e o público não sabia o nome da música. Daí, eram chamadas de melôs. O melô pode ter o nome do lugar onde toca como Melô da Barraca de Pau (um clube de reggae), de mulheres, como o Melô da Poliana (podiam ser namoradas, amigas dos Djs) ou do que o regueiro acha que quer dizer, como o Melô do Caranguejo ( “White wich is gonna bet you- olha o caranguejo”). Os melôs de mais sucesso são chamados de “pedras”. Essa denominação remete à levada da música, a uma pedra preciosa, preciosidade.

Hoje, depois de todo esse percurso, o reggae, não só em São Luís, mas, também, no interior do Estado, é um dos ritmos mais populares. Os Djs maranhenses, percebendo a força da massa regueira, elegeram, atualmente, um deputado federal que saiu dos bailes de reggae.

Ainda existem discussões se a Jamaica Brasileira existe ou não, mas, o certo é que sempre em algum lugar do Maranhão haverá alguém ouvido e dançando ao som de um reggae.