Neerlandeses versus espanhóis: protestantes contra católicos

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Prof.ª Joyce Oliveira Pereira
Licenciada em História - UFMA
Mestre em História, Ensino e Narrativas - UEMA

A Dinastiados Habsburgos espanhóis deteve a posse das 17 províncias dos Países Baixos quando estas foram herdadas por Carlos V (1500-1558), em 1515, através dos duques de Borgonha. Este, apesar de ter nascido em Gand, nos Países Baixos, e seu educador ter sido Erasmo de Roterdã, era bastante intolerante com seus irmãos de nação, e o seu filho, Filipe II (1527-1598), tinha o mesmo tratamento, senão pior, visto que foi um dos principais baluartes da Contra-Reforma em territórios que lhe pertenciam. Educado na Espanha, Filipe II abominava os “flamengos”, nome pelo qual chamava os súditos que falavam neerlandês.

Felipe II de Espanha, o rei cristianíssimo.

Já em 1520, várias obras protestantes tinham tradução para o holandês e, a partir de 1543-1545, Calvino teve influência notável por ter oferecido a “teologia de combate” aos reformadores neerlandeses. Neste território, podemos destacar a presença, à época, de reformados holandeses, escoceses, valões; presbiterianos, episcopalistas, luteranos, inconformistas, menonitas, além de católicos e judeus.

Quando assumiu o trono,em 1556, Felipe II de Espanha viveu na Península Ibérica e nunca foi aos Países Baixos. Politicamente, elenomeou Margarida de Parma (1522- 1586) como sua regente e o Príncipe Guilherme de Orange (1533-1584) como seu lugar-tenente ou stathouther.  O rei contou com a ajuda do Santo Ofício para a repressão em Flandres e Brabante e, em contrapartida, os pregadores calvinistas foram essenciais, porque participaram ativamente no direcionamento das ações do movimento rebelde. A repressão espanhola se seguiu com a ação do Duque de Alba (1507-1582) a partir de 1567, levando muitas pessoas à morte em execuções sumárias.

O terror assolou as Províncias dos Países Baixos do Sul, pois tanto os protestantes eram castigados pela destruição de imagens, quanto os católicos eram punidos pela sua tolerância. Isto culminou em 1568 nas guerras de independência. A causa foi encabeçada pela cidade de Amsterdã e teve apoio da Inglaterra, na figura da Rainha Elisabeth I, que era anglicana. Em 1579, foi decretada a liberdade religiosa nos Países Baixos do Norte, e isto permitiu o acolhimento de muitos perseguidos religiosos dos Países Baixos do Sul, que ainda estavam sob julgo espanhol, e muitos judeus sefardistas (descendente de judeus de origem portuguesa ou espanhola), luteranos, calvinistas de outras partes da Europa.

Guilherme de Orange, incentivador da independência.

A política de repressão do Duque de Alba culminou na preservação de uma parte dosdomínios espanhóis. A riqueza e o intelecto ficaram com os neerlandeses revoltosos. Estes se autodenominavam “mendigos do mar” porque só tinham o mar como recurso. Estes “mendigos”, a maioria exilada de perseguições políticas e religiosas, tornaram-se grandes hispanófobos. A sede de vingança contra os espanhóis era perceptível entre os emigrados de Flandres e Brabante que portavam marcas físicas da guerra: eram chamados de ‘talhados’ porque muitos haviam perdido o nariz ou as orelhas. E o anseio de vingança permitiu a transformação destes revoltosos numa marinha de guerra que acabou garantindo a independência dos Países Baixos do Norte, tornando-se, no fim do século XVI, a principal força de ataque dos revoltosos neerlandeses.

Posteriormente, em 1588, os Países Baixos do Norte venceram a Espanha num momento em que Filipe II tentou invadir a Inglaterra no episódio da Invencível Armada.  Neste mesmo ano foi proclamada a República das Províncias Unidas do Norte. Auxiliados pela Inglaterra,os neerlandeses levaram a guerra para o território de seu “inimigo hereditário”, a Espanha, na chamada Guerra dos Oitentas Anos, que durou entre massacres e tréguas até 1648 com a assinatura do Tratado de Munster entre as Províncias do Norte e a Espanha, no qual foi reconhecida a soberania neerlandesa.

No entanto, enquanto este reconhecimento não ocorreu, a guerra entre neerlandeses e espanhóis alcançou uma escala mundial, se estendendo da Ásia até a América através da suas Companhias Comerciais. Era a hora da vingança contra a Espanha!

Navio holandês visto por japoneses