Mito ou verdade: A civilização medieval acreditava ser a terra achatada, com profundos abismos em suas bordas?

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Na capa deste post, Depardieu, o garoto e a laranja. Cena do filme 1492 – A conquista do paraíso.

Prof. Pablo Michel Magalhães
Licenciatura em História - UPE
Especialização em Docência da Filosofia - UCAM
Mestrado em História - UEFS

Sentados à beira mar estão duas pessoas. Um homem mais velho, que observa calmamente o horizonte, tendo ao lado um pequeno garoto, com não mais que uma dúzia de primaveras de idade. Enquanto descasca pacientemente a laranja que tem na mão, o homem pede que o menino olhe o navio, que se distancia pouco a pouco da costa. “Olhe agora, o que vê?”. “Vejo o mastro” responde o garoto. “Feche os olhos, abra-os apenas quando eu mandar”, diz o homem, ao que, prontamente, o garoto atende. Podemos ver os olhos do mais velho, mirando fixamente o mar, determinado. “Olhe agora!” comanda ao garoto, que abre os olhos e, espantado, constata: “Sumiu…”. Erguendo a laranja, o homem mostra-a ao menino: “Não disse? É redonda! Redonda!”.

Os mais atentos já notaram qual cena descrevi acima. Gerard Depardieu é Cristóvão Colombo, no filme 1492 – A conquista do paraíso, película dirigida por Ridley Scott, e que muitos professores de História adoram utilizar em suas aulas. Pois bem, este filme é responsável por difundir a ideia de que, em pleno século XV, contrariando a tradição de uma vil Igreja Católica inquisitória, um homem resolveu provar que a terra seria redonda! Com seu poder de argumentação, Colombo conseguira convencer os reis espanhóis de tal “novidade”, empreendendo uma das mais célebres navegações de que temos notícia, culminando com a “descoberta” das américas.

Porém, meus caros e caras, é preciso que desmistifiquemos tal informação. A civilização ocidental do século XV, assim como a dos séculos anteriores, já aceitava em larga escala a ideia de uma terra redonda! Longe de ser uma inovação de Colombo, filósofos, astrônomos e demais sábios já haviam escrito diversos livros sobre a circunferência do planeta em que vivemos, e a Igreja Católica aceitava claramente a teoria de uma terra com forma arredondada.

Vamos às reflexões:

1- Os gregos (aqueles curiosos habitantes da Hélade!)

Diversos pensadores helênicos já debatiam teorias sobre a circunferência da terra. Por exemplo, Erastótenes (276 – 194 a. C.) havia desenvolvido o cálculo do diâmetro de circunferência da terra, tendo como base a observação de sombras e passos entre Alexandria e Siena, cálculo este que não era exato, mas forneceu bases para estudos futuros.

Não podemos falar de pensadores gregos antigos sem citar em Aristóteles (384 – 322 a. C.). Dotado de inteligências múltiplas, o polivalente filósofo já postulava em seus escritos ser a terra redonda. Para ele, sendo tudo o que existe composto por quatro elementos (terra, água, ar e fogo), e sendo cada elemento obrigatoriamente impelido a ocupar um lugar natural, logo a terra, o elemento mais pesado de todos, deveria ocupar o centro. E segue: por isso, de acordo com o movimento dos astros em seu redor, Aristóteles assegurava que o planeta nada mais era que uma esfera. Essa reflexão pode ser encontrada em seu livro Sobre os Céus (Clique aqui e veja a versão em inglês).

Aristóteles e Platão

A conclusão do filósofo em seu livro é: “Sobre a posição da Terra e da maneira de seu repouso ou movimento, nossa discussão pode terminar aqui. Sua forma devenecessariamente ser esférica”.

Platão (427 – 347 a. C.), mentor de Aristóteles, também engrossava o coro. Para ele, a terra seria um “corpo circular no centro dos céus”, afirmativa que pode ser encontrada no diálogo Fédon. No Timeu, o filósofo formularia a ideia de que o deus havia ordenado o Universo graças à geometria e aos números, fazendo uma esfera, onde os 4 elementos terrestres estariam rodeados pelo círculo dos céus, formados em proporções harmoniosas.

2- Platão, Aristóteles e seus estudos no período Medieval.

É importante ressaltar que estes dois filósofos aqui destacados, Platão e Aristóteles, foram os pensadores mais influentes durante o período medieval, séculos depois de mortos. Seus escritos foram importantes para a construção do pensamento cristão: Platão foi basilar na filosofia dos Pais da Igreja, em especial Agostinho de Hipona (354 – 430 d. C.); Aristóteles foi redescoberto a partir das traduções árabes, e inserido na doutrina cristã pelo filósofo Tomás de Aquino (1225 – 1274 d. C.).

O próprio Santo Agostinho, entusiasta do pensamento neo-platônico, exortava seus contemporâneos à experimentação e observação da natureza: “Para descobrir Deus alguns lêem um livro. Mas existe um grande livro: a própria aparência da criação. Levantem os olhos, abaixem-nos, vejam, leiam. Deus, que vocês buscam descobrir, não criou as letras de tinta; ele põe sob seus olhos as próprias coisas que fez” (Novos ex codicibus vaticanis Sermones, Nova patrum bibliotheca, sermão CXXVI).

Agostinho de Hipona

Mais tarde, seria a vez de Aristóteles tornar-se tão fundamental e importante para a filosofia cristã medieval, passando a ser chamado de “O Filósofo”, maior de todos. Apesar de suscitar uma série de debates, ataques e defesas durante o século XIII, o aristotelismo foi uma corrente filosófica extremamente consistente e fértil entre as Universidades medievais. A partir de Aristóteles, constrói-se a ideia de que o Universo é um sistema de esferas concêntricas, e os estudos sobre o movimento dos planetas, segundo Ptolomeu, ampliam ainda mais os horizontes do pensamento medieval.

Tomás de Aquino

Interessante, inclusive, é constatar que os estudos astronômicos no medievo já tinham uma boa consistência, a ponto de prever eclipses solares, com uma propriedade científica bastante sólida. Observem a gravura do século XIII, com uma previsão de eclipse solar:

A previsão de um eclipse do Sol. Imagens do mundo. Paris, BnF. Século XIII

3- Então, quem disse que a terra era plana?

Bem, durante este mesmo período de que falamos, alguns trabalhos de membros da Igreja defendiam a ideia de uma terra plana. Autores como o monge Cosmas Indicopleustes e o padre Lactâncio escreveram tratados que buscavam, através de uma interpretação literal da Bíblia, defender que a terra era, de fato, plana. Cosmas, por exemplo, em seu livroTopografia Cristã, afirmava que nosso planeta nada mais era que uma espécie de baú, sendo a tampa o céu e o interior o espaço em que vivemos. Não podemos deixar de dizer que Cosmas neste livro busca ridicularizar a teoria da circunferência do planeta, afirmando ser nada mais que uma ideia pagã. Soma-se a isso uma concepção geográfica um tanto limitada. Os cristãos medievais acreditavam ser o centro do mundo Jerusalém, a cidade santa, e o planeta estaria dividido em 3 partes, Europa, Ásia e África, de acordo com tradições geográficas herdadas da Antiguidade.

A teoria da “Terra Baú”, de Cosmas Indicopleustes.

Entretanto, é necessário explicar: Lactâncio e Cosmas, bem como Severian de Gabala, Theodoro de Mopsuestia e Deodoro de Tarso, não representavam uma voz tão importante quanto, por exemplo, Tomás de Aquino e Alberto Magno, representantes máximos do pensamento aristotélico no medievo. Não raro, eram desconsiderados pelos centros universitários, e mesmo comparados à tolos.

Porém, é a versão deles que passou a ser perpetuada até nossos dias, a ponto de hoje reproduzirmos a ideia de que Colombo foi quem tentou provar que a terra seria redonda, tirando o mundo do obscurantismo cristão medieval. E como isso aconteceu? Devemos isso às produções históricas, primeiro dos pensadores iluministas, depois dos pesquisadores do século XVIII e XIX.

O mundo em T, de Isidoro de Sevilha.

O Iluminismo, movimento cultural da elite intelectual europeia dos séculos XVII – XVIII, buscava evidenciar a ideia de que o mundo deveria ser esclarecido, sendo responsável por inventar a concepção de Idade das Trevas para o período antecessor. Assim, todos os estereótipos de atraso e obscurantismo foram levantados, para que simbolizassem e estigmatizassem a “Idade Média”: período decadente, de barbárie e ignorância.

Posteriormente, em específico, alguns autores prestaram um profundo desserviço neste sentido: Antoine-Jean Letronne (1787 – 1848) e Washington Irving (1783 – 1859).

O primeiro superestimou o livro Topografia Cristã de Cosmas, dando-lhe uma importância que, como vimos, não existia. Dessa forma, Letronne buscou atribuir à toda sociedade medieval um mesmo pensamento, a partir de um escrito com ínfima expressão em seu tempo.

O segundo, romancista norte-americano, lançou uma biografia, chamada Columbus, em 1828, onde deturpa o conteúdo do Conselho de Salamanca, transformando o que foi um encontro para debate sobre a ideia de Colombo, de que a terra seria menor do que era naverdade, e que navegando direto pelo oeste se chegaria mais rápido às Índias, em um embate entre fé e ciência, em que o navegante tentaria, sem sucesso, provar que a Terra era redonda, sendo condenado com o silêncio pela Inquisição.

Ao final, Colombo estava errado em relação ao tamanho do planeta: a viagem foi longa, difícil, e as Índias não foram alcançadas, tendo ele e sua frota aportado no continente americano. Mas Washington Irving conseguiu seu intento: o livro caiu no gosto do público, e o mito construído virou verdade histórica.

Obviamente que Letronne e Irving são apenas alguns dos exemplos que poderíamos dar. Outros autores do período seguiram a mesma linha, e suas obras, para mais ou para menos, influenciaram o pensamento em torno do mito da Terra plana.

Indicações para aprofundamento:

– Vale a pena conferir o livro Os intelectuais da Idade Média, de autoria do Historiador Jacques Le Goff.

– Uma obra de referência é o Dicionário Temático do Ocidente Medieval, organizado por Le Goff e Jean-Claude ShmittO verbete “Universo” auxiliará em seus estudos.

– Assistam ao filme 1492 – A conquista do paraíso. Apesar das falhas, é uma ótima película, dirigida por Ridley Scott e estrelada pelo sensacional Gerard Depardieu.