A bruxa do Arco do Telles

Compartilhe
Prof.ª Aline Martins dos Santos
Licenciatura em História - UFRRJ
Especialização em História Contemporânea - UFF
Mestrado em História Social - UFF

Como citar este artigo:
SANTOS, Aline Martins dos. A bruxa do Arco do Telles (Artigo). IN: O Historiante. Publicado em 29 de Abril de 2021. Disponível em: https://ohistoriante.com.br/blog/2019/07/17/voce-sabia-que-o-arco-do-telles-no-centro-do-rio-de-janeiro-ja-foi-refugio-de-uma-bruxa-assassina/. ISSN: 2317-9929.

Meio escondidinho no Centro do Rio de Janeiro, mais especificamente no Rio Antigo, fica o Arco do Telles. Um lugarzinho bem gostoso, com becos e ruazinhas cheias de construções históricas, bastante charmosas, que foram revitalizadas e transformadas numa série de restaurantes, barzinhos, galerias de arte, livrarias, sebos, etc., tornando-se assim um dos locais preferidos para um passeio de fim de tarde, um happy hour após um dia estressante de trabalho… O que poucos sabem é que este lugar esconde muitos dramas e mistérios, sendo, inclusive, palco de crimes horrendos, realizados por uma bruxa, mais conhecida como Bárbara, ou melhor, Bárbara dos Prazeres.

Quando o Rio de Janeiro tornou-se capital do Brasil, foi construída no Largo do Carmo, atual Praça XV, uma casa para os vice-reis, o Paço Imperial (palco de importantes momentos da História do Brasil), o que acabou por valorizar muito a área. O Português Antônio Telles Barreto de Menezes (juiz e proprietário de terras em Jacarepaguá e Baixada Fluminense), vendo uma grande oportunidade, mandou construir uma carreira de casas naquele logradouro, em 1743.

O engenheiro responsável pelo projeto, José Fernandes Pinto Alpoim, teve que traçar umamplo arco para ligar a Rua da Cruz (atual Rua do Ouvidor) à Praça, evitando assim que a via de ligação da Travessa do Comércio fosse obstruída. Os prédios foram todos alugados, ficando os térreos principalmente para as lojas de comércio. A casa maior, a que ostentava o arco, foi ocupada pelo Senado da Câmara (o que hoje equivaleria à Câmara dos Deputados).

Em 20 de junho de 1790, um incêndio que começou numa loja do térreo, denominada curiosamente de “O Caça Negócios”, lambeu o casario da Travessa do Mercado, deixando dezenas de feridos e dois mortos. O fogo teria atingido também o andar superior e consumido os arquivos do Senado da Câmara. A partir daí, o lugar decaiu, passando a ser mal frequentado, virando um refúgio de prostitutas, mendigos, loucos, marginais… e de nossa bruxa.

Barbara, sobrenome desconhecido, era uma bela portuguesa nascida em 1770 que emigrou em 1789 para o Brasil com seu marido. Aqui chegando, foi morar no Rio de Janeiro, mas acabou apaixonando-se por um mulato que tomou como amante, e para poder ficar com ele, simplesmente assassinou seu esposo. Os amantes foram felizes por algum tempo, entretanto, o mulato passou a viver às suas custas, e chegou a consumir a maior parte de seus bens. Mas, parece que o golpe final ao apego de Bárbara pelo rapaz veio mesmo com a descoberta de que era traída. E assim, durante uma briga do casal, ela também o teria matado.

Marcada pelos assassinatos e sem meios de subsistência, restou à bela jovem de 20 anos ganhar a vida se prostituindo. Bárbara fazia ponto exatamente ali, debaixo do Arco do Telles, onde possuía vasta clientela. Seu apelido viria da imagem de Nossa Senhora dos Prazeres que ficava sob o Arco e que, ao que parece, sem ter conseguido o milagre de afastar as almas pecaminosas do lugar, acabou sendo removida para a Igreja de Santo Antônio dos Pobres, onde permanece até hoje. Outros acreditam que a alcunha de Bárbara se deva mesmo à sua profissão.

Depois de quase duas décadas de prostituição e pobreza, o tempo e a vida desregrada cobraram o seu tributo, e a jovem já não atraía tantos fregueses. Além disso, foi atacada por uma doença que, especula-se, fosse sífilis ou lepra. Em busca da beleza perdida, Bárbara teria percorrido muitas casas de feitiçaria e Magia Negra no Rio de Janeiro, procurando uma poção que lhe recuperasse a  beleza e juventude de outrora.

Ela teria gasto todo o dinheiro reunido em uma vida de “prazeres”, alguns dizem até mesmo que o preço pago teria sido muito mais alto, a sua alma. A tal poção teria, como principais ingredientes, certas ervas e sangue fresco ainda quente. Inicialmente, a jovem atacava pequenos animais como cabritos, leitões ou aves, mas em pouco tempo eles já não eram suficientes e ela começou a atacar crianças. Raptava meninos pobres e filhos de escravos e mendigos. Contam também que a bruxa ficava de tocaia na Roda dos Enjeitados (ou Expostos), na Santa Casa de Misericórdia, roubando os bebês ali abandonados. A natureza de suas ações era tão feroz e cruel, que ficou conhecida também como a “Onça”.

A Feiticeira levava as crianças para o mato ou para a tapera em que morava na Cidade Nova, amarrava-as e pendurava-as pelos pés como um leitãozinho abatido em um açougue, seccionava suas carótidas para fazer o sangue escorrer e assim bebê-lo ou banhar-se nele. Dezenas foram as vítimas, o que alardeou toda a cidade. Seu nome era utilizado para amedrontar as crianças e evitar que estas não se aventurassem nas ruas atéaltas horas da noite. Teria surgido daí a expressão: “Cuidado que a Onça está solta”.

Bárbara talvez tenha sido a criminosa mais procurada na cidade em todos os tempos. Seus crimes foram, inclusive, registrados pela Intendência Geral de Polícia, criada por D. João em 1809. Entretanto, Bárbara nunca foi pega viva. Em 1830, ela simplesmente desapareceu. Um corpo feminino desfigurado foi encontrado boiando na praia, próximo ao cais, e alguns identificaram como sendo o de Bárbara, outros dizem que teria sido apenas um engodo das autoridades para acabar com o pavor que tomou conta dos cariocas.

Fato é que não há registros oficiais da morte de Bárbara, e muitos crêem que a poção tenha lhe propiciado a vida eterna, e que ela ainda ronda os arcos à espreita de novas vítimas. Alguns dizem, inclusive, que ela a teria vendido a alguns milionários, em troca de parte de sua fortuna. Outros chegam mesmo a dizer que, ainda hoje, em certas madrugadas sem lua, quando as pessoas que circulam pela Travessa já foram para suas casas e o último bar fecha suas portas, cessando o movimento da boemia,  pode-se escutar choros de criança e a risada de Bárbara ecoando nos vazios escuros do Arco do Telles… 

*Roda dos Enjeitados (ou “dos Expostos”) é uma prática antiga que surgiu na Europa, no século XVI. Consistia num dispositivo giratório instalado em conventos onde mães sem perspectivas abandonavam (expunham, na linguagem da época) seus bebês, que seriam girados para o lado de dentro. O mecanismo funcionava de tal forma que a identidade da mãe não era revelada e os bebês eram recolhidos e cuidados pelas irmãs.