Você sabia que… O rei da Inglaterra Ricardo Coração de Leão falava apenas francês?

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Prof. Pablo Michel Magalhães
Licenciatura em História - UPE
Especialização em Docência da Filosofia - UCAM
Mestrado em História - UEFS

Não só ele, como muitos outros reis ingleses do período medieval. No dia-a-dia da corte, no trato com os nobres, nas reuniões de estratégias de guerra, o idioma francês era quase que regra, e falar a língua francesa era sinal de superioridade, além de sinalizar que a pessoa era parte da nobreza inglesa.

Mas, por que isso? Hoje convivemos em um mundo em que o inglês praticamente representa uma linguagem global, servindo como o idioma oficial do turismo, da economia, da tecnologia, só para citar alguns exemplos de áreas em que o inglês é requisito primordial. Por que o inglês foi suplantado pelo francês em plena Inglaterra?

Precisamos voltar ao ano de 1066. Com pretensões sobre o trono dos anglo-saxões, Guilherme, duque da Normandia, promoveu uma das maiores invasões às ilhas britânicasda história. E por que este normando queria o trono inglês? Vamos seguir o raciocínio.

Casamentos, batalhas e a invasão normanda em 1066

Duas relações matrimoniais representaram a união entre normandos e ingleses no século XI: primeiro o rei Etelredo II, que casou-se com Ema, filha do duque Ricardo I da Normandia, e que realizou um massacre de dinamarqueses (inimigos antigos e perigosos dos ingleses) na Inglaterra; depois Canuto, filho do rei dinamarquês Sweyn, que derrotou Etelredo e seu filho, assumindo a coroa, e que também casou-se com a mesma Ema (pois é, ela aceitou prontamente casar-se com o inimigo do marido!), iniciaram o laço com a nobreza normanda.

Desses dois casamentos e do ventre da única mãe, saíram os dois seguintes reis ingleses, Harald, filho de Canuto, que governou por 5 anos a Inglaterra após a morte do pai, e Eduardo, conhecido como O Confessor, filho do rei deposto Etelredo. Antes de falecer, Harald havia chamado seu meio-irmão Eduardo para vir, da Normandia para a Inglaterra, e ser seu sucessor no trono. Apesar da antiga peleja entre os pais, parece que os irmãos haviam superado os problemas, pois Eduardo realmente tornou-se rei dos ingleses, em 1043.

Com o retorno de Eduardo e sua coroação, voltava ao trono a antiga linhagem anglo-saxã. Harald era dinamarquês/normando; Eduardo anglo-saxão/normando. Aqui, vemos a importância que os normandos haviam adquirido, por linha materna, no trono inglês.

Eduardo, após 24 anos de reinado, precisava de um sucessor. Ainda em vida, teria nomeado Harold, filho do conde Godwin de Essex, para assumir o trono após sua morte, tendo aprovação do Witan, a assembleia dos poderosos do reino. Porém, Guilherme da Normandia tinha uma outra versão: alguns anos antes de morrer, Eduardo teria prometido-lhe a sucessão ao trono inglês.

Guilherme, o Conquistador.

Além disso, o duque normando tinha outro motivo para requerer a coroa dos ingleses. Em uma de suas viagens à Inglaterra, por conta de forte tormenta, Harold teve sua embarcação lançada para o norte da Normandia, onde o conde local, Guy, prendeu-o e o entregou a Guilherme. O duque, aproveitando a oportunidade, concordou em libertar Harold, com a condição de este render-lhe homenagem e jurar apoiar e defender as pretensões de Guilherme ao trono inglês.

Com essas premissas, o duque normando, conhecido como Conquistador, dirigiu-se à Inglaterra, com grande exército e uma poderosa frota marítima, com o intuito de reclamar o trono que, para ele, era mais que legítimo. A Batalha de Hastings, de 14 de outubro de 1066, foi definitiva para selar a vitória de Guilherme, com a morte de Harold no campo de batalha.

Os normandos trazem seu idioma

A Normandia era um ducado francês, localizado ao norte do reino da França. Seus habitantes falavam largamente o idioma dos franceses, apesar da descendência nórdica que possuíam. Com a conquista do trono inglês, os normandos passaram a dominar os ingleses e impor seus costumes e seu idioma. O francês passou a ser língua oficial da corte e da aristocracia inglesa, o que relegou a língua inglesa às ruas, sendo inferiorizada e tratada como idioma de camponeses.

Mapa da Europa ocidental, por volta de 923. (IN: McEVEDY, Colin. Atlas da História Medieval. São Paulo: Verbo/EDUSP, 1979, p. 55)

A relação com a França, inclusive, tendeu a crescer ainda mais após o casamento entre Henrique II e Leonor, duquesa da Aquitânia. Assim, o rei inglês, além de duque da Normandia, ainda exercia soberania sobre o território aquitano, possuindo mais terras inclusive do que o rei francês, Luís VII!

Um dos mais célebres reis ingleses, Ricardo I, Coração de Leão, só se comunicava em francês, ignorando quase que completamente o idioma da terra dos anglos. Ele, inclusive, foi um monarca inglês com várias possessões na França. Além de duque da Normandia, em função de sua descendência normanda, ele foi duque de Anjou, título originalmente de seu avô, Godofredo V, e também de seu pai, Henrique II, e duque de Aquitânia, por linha materna.

Durante quase 300 anos, o francês substituiu o inglês como língua oficial da corte e da aristocracia.

CONFIRA TAMBÉM: 

– Na obra épica Os Pilares da terra, ambientada na Inglaterra do século XII, o autor Ken Follet retrata vários diálogos entre nobres e plebeus, aparentemente conduzidos de maneira natural. O problema é que a nobreza inglesa expressava-se em francês normando, enquanto que o povo (anglo-saxão) falava inglês arcaico. Follet parece ter esquecido deste detalhe, ignorando as complicações linguísticas deste período.

– Sugerimos a leitura do artigo do Prof. Ricardo da Costa, intitulado Breve história da Tapeçaria de Bayeux (c. 1070 – 1080). (Clique aqui para ler)

– Assistam à micro-série da BBC, 1066 – the battle of themiddle earth. Nela, os eventos em torno da invasão normanda são retratados com muita ação e fidelidade.