Você sabia que… Os desenhos animados foram pensados, primeiramente, para as telas de cinema?

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Prof. Pablo Michel Magalhães
Licenciatura em História - UPE
Especialização em Docência da Filosofia - UCAM
Mestrado em História - UEFS

A princípio, a nova técnica causou espanto. Os desenhos, que até então apenas podiam ser vistos imóveis no papel, agora pulavam, giravam, lutavam e divertiam nas telonas. Como descrever a sensação do público, no Theatre Gymnase, em 1908, ao se deparar com imagens animadas bem em frente ao seus olhos? Admiração, espanto, dúvida… Isso e muito mais.

Estou tratando aqui do primeiro desenho animado da história (considerado por muitos pesquisadores). A criação do francês Emile Cohl deixou bestificados todos os presentes quando da sua primeira apresentação, em 1908, nas telas do Theatre Gymnase. Em pouco mais de 1 minuto, personagens brincavam, divertiam e faziam mil peripécias para divertir o público. A TV estava longe de ser pensada, e grande parcela das populações européias mais abastadas ia divertir-se nos teatros (lembremos que estamos no início do século XX, e os países europeus viviam a belle époque, momento de refinamento e, para alguns, o ápice da civilização humana antes das 2 Grandes Guerras).

Os desenhos animados, criados a partir da década de 1900, acompanhavam o aprimoramento das técnicas que se desenvolviam em torno da captura de cenas em movimento, que constituíam o embrião do que chamamos hoje de Cinema. Inclusive, algumas técnicas desenvolvidas no âmbito das reproduções de desenhos animadosfavoreceram o aperfeiçoamento das técnicas de captação de cenas reais.

O praxynoscópio, por exemplo, foi um aparelho desenvolvido tendo como base o zootropo, que, por sua vez, baseou-se nas técnicas antigas do Taumatrópio e Fenacistoscópio, que eram aparelhos que simulavam movimentação de desenhos (em geral, apenas um movimento rotatório, limitado para a nossa época, mas revolucionário para os contemporâneos da invenção). Dispostos em sequência, vários desenhos adquiriam movimento ao serem colocados em superfícies giratórias. O diferencial do praxynoscópio, invenção do francês Émile Reynaud, datada do ano de 1877, era a capacidade de projetar as imagens em movimento em superfícies como paredes. Assim, era oferecido aos espectadores um espetáculo coletivo, diferente dos eventos anteriores, que baseavam-se na observação individual dos movimentos através de lentes.

O praxinoscópio em ação.

A técnica de Émile Reynaud influenciou caras como Étienne-Jules Marley e Louis Aimée Augustin Le Prince, que desenvolveram (utilizando-se do zoopraxicoscópio, invenção de Eadweard James Muybridge) cenas reais em movimento a partir de fotografias.

A partir da década de 1900, muitos passaram a se debruçar sobre a ideia de animar desenhos. Um deles já citamos, foi Emile Cohl com seu Fantasmagorie, em 1908. Após sua obra, outros apresentaram suas criações: o americano Winsor MacCay, em 1914, conseguiu boa fama com sua animação Gertie, the dinossaur. Com 12 minutos em seu filme original(metade da película é com cenas reais, evidenciando um grande aperfeiçoamento nastécnicas de filmagem; a outra metade é da animação propriamente dita), Gertie interage com o público, faz os comandos do seu criador, e provoca bons risos em sua platéia (não dá pra ouvir, não há áudio além da música de fundo, mas podemos ver nas cenas). ComparandoGertie com Fantasmagorie, observamos claramente um aprimoramento dos desenhos e da animação em si.

Tais animações eram criadas pensando na reprodução em telas de Cinema e em grandes teatros nas cidades. O evento era tratado como algo grandioso, e cartazes eram veiculados com o intuito de dar ao espectador um “gostinho” daquilo que seria apresentado. Observem o cartaz de Gertie:

Nesse caso, a intenção é de causar curiosidade e estranhamento. “O dinossauro maravilhosamente treinado” (como o cartaz diz) é um convite ao inusitado.

A partir dessas primeiras experiências, outros desenhos animados foram sendo criados, muito mais longos e bem mais detalhados, como é o caso do Gato Félix, de 1919. Em aventuras mais longas, o carismático personagem se metia em várias encrencas, algo que demonstra bem a qualidade dos gráficos desse desenho, com a inserção dos planos de fundo (uma rua, prédios, casas, postes).

Nas décadas de 1920 e 1930, Walt Disney e seu Mickey Mouse revolucionaram a maneira de se fazer desenhos animados. Traços dinâmicos, situações engraçadas e o foco em um outro público, o infantil (pois é, até então desenho animado era coisa de adultos) foram algumas das inovações criadas pelo americano e seu rato esperto.

Outra animação que atingiu certo sucesso foi Betty Boop, a mocinha de cabeça grande e olhos bem redondos, que usava sempre roupas sensuais. Datada de 1930, a personagem alcançou bom número de público em suas exibições, até que, em 1939, em nome da “moral e dos bons costumes americanos”, Betty passou a ser censurada. Isso decretou o fim dessa personagem ousada.

Esses desenhos (desde o Fantasmagorie) eram exibidos em curtas apresentações, nos teatros e nas recém criadas salas de cinema (os irmãos Lumiére foram os grandes responsáveis pelo boom das produções de filmes, ainda em fins da década de 1890), e passaram a fazer sucesso entre o público em geral. E essa magia parece não ter fim, perdurando até nossos dias.

CONFIRA TAMBÉM:

– O cinema é ótima fonte para estudos sobre a História dos Desenhos Animados. Sugerimos a leitura de:

 MASCARELLO, Fernando.História do cinema mundial. São Paulo: Papirus, 2006.

BARBOSA JR, Alberto Lucena. Arte da Animação: técnica e estética através da História. São Paulo: Editora Senac, 2005.