As Sufragistas

Compartilhe
Prof.ª Aline Martins dos Santos
Licenciatura em História - UFRRJ
Especialização em História Contemporânea - UFF
Mestrado em História Social - UFF

“Se é certo para os homens lutar por liberdade, então é certo as mulheres lutarem pela delas”. Maud Watts

Dirigido por Sarah Gavron e com roteiro de Abi Morgan, o filme “As Sufragistas” se passa na Inglaterra do início do século XX, alguns anos antes da Primeira Guerra Mundial, e mostra um pouco da luta das mulheres por direitos. Não apenas ao voto, mas por coisas tão básicas quanto à participação na vida política, à guarda dos filhos e a possibilidade de ter propriedades em seus nomes, coisas que ainda eram negadas às mulheres naquele período.

Apesar de o movimento ter ficado mais conhecido pela reivindicação ao voto, na verdade as sufragistas lutavam pela igualdade em todos os espaços, inspiradas pelos mesmos ideais iluministas e humanistas que levaram à Revolução Francesa e formaram a base da “Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão”, mas que ainda excluíam as mulheres da vida pública.

Mesmo sendo, neste primeiro momento, essencialmente uma luta das mulheres de classe mais alta, educadas próximas à política e indignadas por não fazerem parte dela, um dos pilares mais importantes do movimento eram as mulheres de classe baixa, que trabalhavam nas fábricas mais horas que os homens e recebendo menos que eles.

O filme mostra o importante papel de figuras militantes como as conhecidas Emmeline Pankhurst (Meryl Streep), uma mulher de classe alta que tinha meios de se esconder para não sofrer maiores retaliações e que inflamava as mulheres do movimento e mantinha a ‘chama da luta acesa’, e Emily W. Davison, mártir do sufragismo, como ficou conhecida. Porém, o filme tem seu ponto forte justamente ao fugir do que poderiam ser escolhas mais simples e seguras quando a roteirista Abi Morgan coloca como protagonistas e coadjuvantes as mulheres da classe trabalhadora. Ela desvia o olhar para esse segmento ao tentar delinear as realidades de mulheres que realmente sofriam com as extensas horas de trabalho, baixos salários, péssimas condições de trabalho e abusos cometidos por colegas e patrões.

As personagens são retratadas de forma extremamente humanizada, com suas dores, suas contradições, suas esperanças, suas frustrações, forjando suas próprias histórias, sendo senhoras de seu destino e sofrendo as duras consequências de suas escolhas. O filme retrata também novos métodos de protesto e luta cívica, como grandes manifestações, greve de fome (que era combatida com alimentação forçada, inclusive com sondas nasogástricas), interrupção sistemática de oradores com perguntas desestabilizadoras, etc.

“As Sufragistas” mostra todos esses aspectos do movimento através da história da fictícia, mas extremamente real, Maud Watts (Carey Mulligan), uma jovem operária que ficou órfã cedo e leva uma vida difícil ao lado do marido e do filho pequeno. Após décadas de manifestações pacíficas e nenhuma conquista, um grupo militante decide coordenar atos de insubordinação, quebrando vidraças e explodindo caixas de correio, para chamar a atenção dos políticos locais à causa.

Maud Watts (Carey Mulligan), sem formação política, descobre o movimento através de uma colega de trabalho e vai aos poucos se dando conta das injustiças que sofre diariamente, como o abuso sexual do patrão, o salário mais baixo do que o dos homens (apesar de trabalhar mais horas) e a falta de controle sobre a própria vida, já que cabem ao marido as decisões financeiras e sobre o filho. Através do contato com outras mulheres ela ganha força e vai descobrindo a amizade e a solidariedade (em substituição a fraternidade, que significa apenas irmão homem e atualmente, sororidade) e passa a cooperar com o movimento. Maud enfrenta grande pressão da polícia e do marido para voltar ao lar e se sujeitar à opressão masculina, mas decide que o combate pela igualdade de direitos merece alguns sacrifícios.

O filme “As sufragistas” consegue traçar com sutileza e sem tornar-se panfletário, paralelos entre ontem e hoje, mostrando que conquistamos, a duras penas, muitas vitórias, porém não avançamos tanto assim – ainda temos muito poucas representantes na política; é forte o julgamento mora que recai sobre aquelas que escolhem se dedicar a uma causa em detrimento da família; em muitos países as mulheres não têm direito sobre seu corpo; os salários em relação aos dos homens ainda são menores e os abusos sexuais e morais, explorações e assédios, frequentes. Mesmo o direito ao voto é uma conquista recente.  Na Inglaterra retratada no filme, ele foi obtido em 1928; no Brasil, em 1932; enquanto em países do Oriente Médio, como a Arábia Saudita apenas no ano passado foi permitido que as mulheres votassem e se candidatassem a cargos políticos.

… Há muito ainda por conquistar.

Para conhecer um pouco mais sobre o movimento sufragista e seu desdobramento até os dias atuais, indicamos a leitura do artigo de Fernanda Moreira – Clique aqui.