Lei Rouanet, Minc e Luan Santana – Síntese do Brasil Moderno

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Prof. Carl Lima
Licenciado e Mestre em História - UEFS

Quando os holofotes são direcionados para nosso pomposo e recheado Ministério da Cultura (Minc) acredito na teoria do “Eterno Retorno” Nietzschiano. Passam-se os anos e as coisas quase nunca mudam, pelo contrário, geralmente se repetem. Quem não lembra do famoso caso da irmã do clã Veloso que teve autorizado o financiamento de um blog/ site denominado de “O Mundo precisa de Poesia”, no qual diariamente, no prazo de 1 ano, seriam postados vídeos, diga-se de passagem, dirigidos pelo crápula do Andrucha Waddington, de interpretações de poetas renomados? Graças às manifestações das redes sociais, houve a suspensão dessa sangria do dinheiro público.

Mas isso não impediu que a Diva Santa Amarense – para alguns, claro, obvio que não me incluo nesse rol – tenha auferido de 2006 até os dias de hoje a bagatela de R$ 11 milhões do mesmo Ministério para seus projetos em prol da cultura Brasileira (sic). Para não dizer que é perseguição ao feudo do recôncavo, outros tantos artistas já foram contemplados por essa benevolência estatal, artistas do calibre dos senhores Gilberto Gil, Cacique Brown, Ney Matogrosso, Zeca Pagodinho, Diogo Nogueira, Roberto Frejat, sem contar as bem intencionadas Daniela Mercury, Ivete Sangalo, Maria Gadu, Beth Carvalho, entre outras. O que está por trás dessa torneira de reais? Poderia acusar a política fisiológica , corporativa e nada ética do governo do PT e os respectivos ministros da pasta – Gilberto Gil, Juca Ferreira, Ana de Holanda, mas isso seria mascarar e esconder o male-mor denominado de Lei Rouanet, criada em 1991, no Governo Collor, que objetiva fomentar a cultura, ajudando artistas que transitam em segmentos populares, com perfis menos mercadológicos e em diversas áreas.

O funcionamento é simples, o artista escreve o projeto no Minc, espera o parecer, caso seja positivo, recebe uma autorização para procurar empresas que possa captar esse recurso. Em contrapartida, a mesma que opte por participar tem a isenção fiscal de 100% do valor investido. Em teoria a legislação teria a função de ajudar artistas poucos renomados, experimentais e inovadores, mas na prática tornou-se um balcão de negócio, onde os mais famosos e renomados acabam se beneficiando, pois as empresas envolvidas podem ter uma isenção maior, dado os valores dos projetos, além de contar com eventos de grandes visibilidades, inclusive com direito de merchandising em horários nobres na televisão. São milhões e milhões jogados nas mãos de algumas dezenas que fazem parte de uma mesma “panelinha”, aqueles mesmos que aos domingos aparecem no pródigo “Esquenta”, ou estão lançando filmes que tratam da dita brasilidade, ou ainda tentam dar um golpe inventando instrumentos postiços como a Caxirola, ou disseminando as horrendas micaretas.

Para justificar a captação, é um tal de comemorar aniversário de carreira, lançar DVD celebrando a cultura tupiniquim, criação de coletâneas de suas próprias produções e coisas das mais esdrúxulas. Uma das últimas voltas do ponteiro benevolente do Ministério da cultura e que nos causou embrulho no estômago, fora a autorização para o soberbo cantor Luan Santana captar cerca de 4 milhões para sua turnê denominada de  “Nosso tempo é Hoje”. O formulário do despacho positivo, documento público claro, todos nós temos acesso, é uma piada pronta.

Vejamos a síntese do Projeto, palavras oficiais:

“A Turnê composta por 15 shows do consagrado jovem sertanejo Luan Santana, interpretando sucessos de sua carreira além da apresentação ao público de canções inéditas. A turnê ‘Nosso Tempo é Hoje – Parte II’ é uma oportunidade para os fãs do cantor aproveitarem um evento musical diferenciado, em uma atmosfera temática, romântica e repleta de efeitos especiais e referências artísticas”.

Por favor Riam!!! Mas não para por aí, os objetivos são mais criativos:

“Difundir as raízes sertanejas enquanto manifestação cultural e artística a partir da música romântica, além de sua história e influência na formação da sociedade contemporânea”;

“Promover acesso a entretenimento musical de qualidade”;

“Gerar um ambiente diferenciado com atmosfera especial para o público”.

Agora Chorem!!! Que cultura sertaneja é essa? Será que esse andrógeno cantorzinho, criado na fornalha dos jabás, sabe quem foi e mais, cante nessas suas 15 apresentações fomentadas, alguma coisa de Pena Branca e Xavantinho, Tonico e Tinoco, Alvarenga e Ranchinho ou coisas mais recentes como Teodoro e Sampaio, João Mineiro e Marciano ou Chitãozinho e Xororó? Aposto que não, a sua influência parece mais um mimetismo barato dos caubóis americanos, com artistas pops, uma coisa meio Jonh Wayne com Madonna ou ainda Clint Eastwood com Kenny Chesney. Algo bizarro e contraditório para o típico nacionalismo ufanista defendido no plano de ação do mesmo projeto.

Permitam-me mais uma histriônica gargalhada, seguida de um choro, típico dos desesperados. Num de seus objetivos, senão o principal, está lá estampada a preocupação com a democratização da cultura através do acesso livre com a doação de porcentagem gratuita de ingressos para associações assistenciais e instituições responsáveis por jovens e adultos em áreas periféricas das cidades onde ocorrerão os shows. Que retórica vagabunda é essa? Que eu saiba quando este macunaímico malandro não cobra R$ 300 mil para as prefeituras da vida, suas apresentações pirotécnicas nas casas de shows privadas não saem por menos de 100 reais o vouche. Ainda assim, nossa horda de canalhas artistas posam de independentes, proferindo que essa grana não é dinheiro público. Haja cara de pau!!! Pobre pocilga denominada Brasil, escancaradamente medíocre, soberbo, inoperante e impotente, tão bem representada pelo Minc e sua Lei Rouanet ou tantos outros editais de fomento cultural, e com ídolos da juventude com envergadura moral e artística do Luan Santana.