Utopia, sociedade perfeita?

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Prof. Marcos Antônio Leite Lopes Filho
Especialista em História e Novas Tecnologias

Vivemos em uma realidade onde a mudança é constante, protestos gerados por insatisfação acontecem constantemente. Desde os primórdios, insatisfeitas por vários motivos, muitas pessoas difundiam ideias e buscavam melhorias econômicas e sociais. Dentro dessa realidade, muitos buscaram traçar caminhos alternativos em busca de um mundo melhor, onde a desigualdade fosse extinta. Não podemos negar que todas estas ideias tecem influência em torno da sociedade, e estas ideias, interpretadas e externadas em vários momentos, se tornaram vozes e anseios históricos.  Abaixo vamos conhecer um dos filósofos do Renascimento que buscava uma sociedade em perfeitas condições, negando várias ideias acerca da sociedade. Sua obra foi bastante importante e a palavra usada para dar titulo ao seu livro ganhou um significado que usamos até hoje. O filósofo que vamos conhecer se chama Thomas More.  

Nascido em Londres no ano de 1478, de pais londrinos pertencentes à nova classe urbana em ascensão, recebeu boa educação e formou-se em direito. Autor de várias obras, das quais vamos destacar apenas uma delas, que se chama “A Utopia”.

A palavra “Utopia” tem como significado mais comum a ideia de civilização ideal, imaginária, fantástica. Pode referir-se a uma cidade ou a um mundo, sendo possível tanto no futuro, quanto no presente, porém em um paralelo. A palavra foi cunhada a partir dos radicais gregos , o “não-lugar” ou “lugar que não existe”.

A obra divide-se em duas partes.  A primeira parte descreve cores sombrias da Inglaterra do Renascimento e a segunda parte retrata uma visão de uma ilha sem problemas, onde dificuldades políticas, sociais e econômicas não existiam e a harmonia pairava sobre seus habitantes.

Ilha com Estrutura Social Baseada na Coletividade 

Utopia tratava-se de uma ilha, onde tinha a forma crescente, oferecendo porto seguro aos navios atracarem. A ilha portava mais de quarenta cidades e mais de 5 mil pessoas em cada uma. Dentro da ilha, existia toda uma organização. Os utopianos  agrupavam-se em famílias e cultivavam os campos. O Estado dirigia a economia na ilha, a propriedade era coletiva e a nobreza não existia. O trabalho se dava seis horas por dia, o suficiente para garantir o bem estar de todos. Em alguns trechos da obra podemos notar algumas semelhanças com o Socialismo.

A preguiça não fazia parte da ilha, todos tinham hora para levantar-se e para deitar-se, o Governo guardava alimentações em armazéns, controlava a alimentação, por conta do risco de saturação dos produtos. A moeda não existia, quando precisava-se de algo, era só pedir às cidades, as mais prósperas auxiliavam as mais desfavorecidas, as famílias com mais filhos distribuíam às famílias com menos filhos.  O ouro é repudiado, este só é usado para fazer correntes para prisioneiros.

As refeições são assinaladas pela trombeta: quando toca, certa quantidade de famílias dirigem-se ao refeitório, os homens em frente, as mulheres e as crianças servem a mesa e comem de pé, após isso fazem leituras de uma obra de caráter moral e entregam-se a conversas do dia a dia. Todos os costumes são regrados e há horas precisas e muitas vezes hábitos rotineiros, onde a ordem seria essencial.

Enquanto o individualismo ganhava força, muitos filósofos renegavam e pregavam o coletivismo, a propriedade privada e a moeda não apareciam em Utopia. A obra de Thomas More teve grande influência. À sua época, a Inglaterra estava cheia de desigualdades, desordens e roubos eram realidades diárias; a economia estava se transformando e o aumento de desempregados crescia cada vez mais. A partir desta situação, a obra serve de crítica acerca da realidade vivida na época. Além de Thomas More, outros filósofos seguiram com ideias semelhantes, onde os grupos exerciam a coletividade como base, renegando o mercantilismo que estava ganhando força ao passar do tempo. Não só Thomas More, mas Campanella, Francis Bacon entre outros, traziam ideias diferentes da realidade vivida na mesma época, a quantidade de obras nessa mesma linha de pensamento florescia na época do Renascimento.

Apesar das dificuldades vividas, a obra serviu para instigar a criticidade em torno da insatisfação do momento, percorrendo as descrições na ilha, percebemos que a mesma funciona de forma rigorosa, com vários elementos da Sociedade Europeia que estavam em crise, sendo alfinetada de maneira distinta a cada página. A obra consiste em negar qualquer valor material que seja herança de fruto capitalista, onde cada livro acentua críticas em diferentes aspectos. Os valores vigentes da sociedade em que vivia serviram de base para Thomas More construir sua história e atacar os pontos onde ele achava que deveria ocorrer mudança.

É interessante vermos como ideias em tempos tão distantes podem se parecer um tanto próximas. Não podemos negar que por ser uma obra fictícia, muita coisa parece irreal, mas a própria palavra já nos traz essa interpretação. A obra atravessou todo esse tempo, e de forma indireta exerceu influência em grandes momentos Históricos. A utopia é importante, pois serve de instrumento crítico para transformação social, e para que a mudança aconteça, a sociedade deve passar por uma visão crítica da realidade.

É, a palavra utopia traz em sua bagagem muita história para ser contada.