Música na sala de aula: uma proposta de ensino

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Prof. Carlos Alberto A. Lima
Licenciado e Mestre em História - UEFS

Ao trabalharmos com a música/canção temos que reconhecê-las enquanto um objeto cultural – que por mais que propicie uma dinâmica que favoreça seu uso em momentos posteriores – datado histórico e socialmente, da mesma forma que um historiador é um homem do seu tempo, um compositor ou até mesmo um intérprete resguarda na sua produção/performance marcas da realidade social vivida. Dessa forma, a canção ganha status de registro histórico e de valoração documental. Assim, para trabalhar com a música na sala de aula, o professor/mediador tem que se cercar de algumas questões, que lhe servirão de farol e, ao mesmo tempo, será parte integrante de sua metodologia. Nesse processo, surgirão algumas inquietações: Qual o objetivo da aula e do conteúdo específico e a importância do recurso no processo de aprendizagem? Quais canções serão escolhidas e o que será analisado na composição? Respondido isto, o próximo passo seria a construção do ambiente didático em si, privilegiando informações acerca do compositor e intérprete das canções, bem como a explicação das possíveis figuras de linguagem utilizadas na composição – metáfora, hipérbole, catacrese, etc. – além de oferecer a letra impressa e proporcionar a audição musical, no seu formato original, evitando assim, as novas versões.

Resguardado esses pontos metodológicos, proponho a utilização da obra de Belchior. Cantor e compositor cearense que deu os primeiros passos na música participando dos badalados Festivais, podendo, por isso, ser considerado como um reminiscente da MPB engajada. Desde 1972 já é uma figura conhecida nacionalmente, devido a Elis Regina gravar “Mucuripe”, uma composição sua em parceria com Raimundo Fagner. Porém, foi em 1976, com o lançamento do seu 2º álbum – Alucinação – completamente autoral, que Belchior marcou de vez o seu nome e suas letras nos corações e mentes da juventude urbana. Será justamente esse álbum, que conta com algumas canções clássicas do seu set list, com destaque para: “Apenas um rapaz Latino Americano”; “Alucinação”; “Como Nossos Pais”; “A Palo Seco”, que indico enquanto recurso didático/pedagógico e fonte Histórica – a música em particular e arte em geral, tem essa capacidade – para analisarmos o processo de redemocratização e abertura política no Brasil, enfatizando principalmente, qual seria o sentimento daquela juventude, agora adulta e envelhecida, que viveu resignada todo o período da ditadura militar, com o futuro da nação, ante aquele processo de liberalização dos instrumentos autoritários.

Ao propor o estudo sobre música, tive o intuito de demonstrar caminhos e indicar trilhos, especificamente em duas direções: 1º possibilidade em estudar a sociedade brasileira e sua história, tomando como referência a produção da cultura material, como marca de uma especificidade. Assim, o compositor, intérprete e musicista, muito mais que artistas, serão tomados e apresentados como informantes privilegiados, verdadeiros arautos de uma memória coletiva; 2º preocupação em desenvolver inquietações e resolver angústias acerca do ensino de nossa disciplina. Não podemos de forma nenhuma renega-las a outros profissionais, se o ensino de História vive uma crise, nós – estudantes, docentes – temos a responsabilidade de propor mudanças e indicar possibilidades.

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Ler: FERREIRA, Martins. Como Usar Música na Sala de Aula. São Paulo: Contexto, 2010.