A maior pandemia da História?

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Prof. Pablo Michel Magalhães
Mestre em História - UEFS
Especialista em Docência da Filosofia - Instituto AVM/UCAM

O covid-19 ou coronavírus é a maior pandemia da História? Antes de responder a esta pergunta, precisamos dizer algo importante: a humanidade passou por diversos ciclos de epidemias e pandemias ao longo de sua história, e o coronavírus é a ponta final desse fio.

Vamos trabalhar duas que foram as maiores: a Peste Negra e a Gripe Espanhola.

Segundo o autor Jacques Berlioz, “quase nenhum texto descreve a peste negra de meados do século XIV! Boccaccio, no Decameron, escreve mais do que descreve a peste, nos pintores daquela época ela foi mais pintada que descrita, mais representada que exprimida” (p. 458) (Dicionário temático do ocidente medieval).

A falta de qualidade na alimentação provocava deficiências orgânicas graves, agudas (disenteria), crônicas ou congênitas (raquitismo, má-formação, coxalgia, artrose). Essa vulnerabilidade influencia e muito a imunidade dessas pessoas, expondo as populações às doenças. A mais célebre das endemias, ou seja, uma doença que se manifesta apenas numa determinada região, de causa local, não atingindo nem se espalhando para outras, é sem dúvida a lepra, que reinou na Europa a partir do século VII e atingiu sua maior intensidade no século XII (entre 1% e 5% da população teria sido atingida).

(Imagem/reprodução: Google Images)

Mas a epidemia que marca a Idade Média é a Peste Negra, infecção bacteriana comum em roedores e nos homens e causada por um bacilo Gram negativo, isolado em 1894 pelo cientista Alexandre Yersin. A transmissão da doença deu-se de homem a homem na primeira pandemia, e depois do rato negro ao homem na segunda, mas sempre por intermédio de pulgas. O bacilo entra na pele num ponto qualquer do organismo, atinge o gânglio linfático no local da penetração e disso resulta uma inflamação aguda que, no caso da peste, recebe o nome de ‘bubão’.

Essa inflamação é o principal sinal da doença e por conta dela foi dado o nome de ‘peste bubônica’. Uma outra forma de peste era a pulmonar: o micróbio era transmitido por via aérea (tosse, expectoração) do doente a uma pessoa sã. A primeira pandemia – na forma bubônica – vinda da África Central (ou, para outros, da Ásia Central) aparece em 541 em Pelusa, porto do Egito, e devasta as regiões urbanas mediterrâneas, acompanhando as rotas comerciais e os rios navegáveis mais frequentados. Ela também foi chamada de “peste de Justiniano” e desapareceu por volta de 767.

(Mosaico do século VI do imperador Justiniano e sua corte, na Basílica de San Vital em Ravena)

A segunda pandemia, originária da Ásia Central, difunde-se brutalmente a partir da feitoria genovesa de Caffa, na Criméia, já no século XIV; um navio que partiu deste porto transmitiu a todo o Ocidente a doença. A partir do século XIV, subsistindo na Europa até o século XVIII, a peste passará por ciclos de violentas ocorrências a cada 10 ou 15 anos.

De acordo com a historiadora Vera Machline, “Em 1351, a peste já tinha varrido toda a Europa e estima-se que tenha matado, em apenas quatro anos, cerca de 25 milhões de pessoas – o equivalente a quase um terço da população europeia na época”.

Agora, deixe-me contar uma história sobre uma gripe que rodou o mundo.

No dia 4 de março de 1918, um soldado da base militar de Fort Riley, nos Estados Unidos, ficou de cama, com sintomas de uma forte gripe. Naquela semana de março, mais de 200 soldados adoeceram também. Em apenas 14 dias, mais de mil militares foram parar em hospitais. No pico da epidemia, mais de 1 500 militares reportaram a enfermidade em um único dia. A doença se espalhou rapidamente pelos EUA e pegou carona com os soldados americanos que embarcaram para a Europa, para lutar na 1ª Guerra Mundial. E de lá ganhou o mundo.

Por que chamamos de “espanhola” uma tal gripe que se originou em solo americano? A Espanha era um dos poucos países neutros durante a Primeira Guerra, tendo uma imprensa livre para noticiar a praga. Nos próprios EUA, o então presidente Woodrow Wilson (1856-1924) censurou qualquer notícia que pudesse abalar a população e os soldados. A situação foi a mesma em outras nações em guerra. Assim, o esforço para manter a epidemia em segredo contribuiu para sua rápida disseminação. Sem saber o que está ocorrendo ou qual gravidade da situação, como tomar medidas preventivas?

O vírus por trás da pandemia é um velho conhecido nosso: o influenza H1N1.

(Soldados de Fort Riley, Kansas, doentes de gripe espanhola, sendo tratados em uma enfermaria de Camp Funston.)

Na gripe espanhola, há indícios de que o vírus, cujo reservatório eram aves migratórias, teria infectado uma criação de porcos no Kansas foco inicial da doença. Mas o H1N1 de 1918 não causava os sintomas de uma gripe comum. As pessoas sangravam pelo nariz, ouvidos, olhos…  Ficavam azuis com a falta de oxigênio, segundo relatos da época. Caíam de cama pela manhã e à tarde estavam mortas, tamanha era a reação que o corpo produzia diante da doença.

Outra característica intrigante até hoje: o ataque do influenza costuma ser mais forte em crianças e idosos, que possuem sistema imune mais frágil. Em 1918, porém, as principais vítimas foram os adultos jovens — tanto civis quanto soldados no front. Uma hipótese é que, justamente por ter uma imunidade mais proativa, a resposta do organismo jovem era vigorosa demais. Isso resultava numa tempestade inflamatória que agredia os pulmões e encurtava a vida de uma maneira nunca antes vista.

Em 1919, da mesma maneira abrupta com que o vírus chegou, ele sumiu… Provavelmente porque grande parte das pessoas que sobreviveram já havia criado anticorpos. Especula-se também que uma nova mutação tenha tornado o agente infeccioso mais ameno, causando reações menos violentas e, consequentemente, sendo menos fatal nos casos de contaminação.

Agora é um bom momento para retomarmos nossa pergunta inicial: o covid-19 ou coronavírus é a maior pandemia da História? Não. A maior pandemia registrada até hoje é da gripe espanhola. Ela matou de 50 a 100 milhões de pessoas em 1918 e 1919. Esse número representa mais mortes do que o montante provocado pelas duas grandes guerras juntas. Mais do que a aids causou em 40 anos. E o Brasil não passou ileso por ela. Por aqui foram cerca de 35 mil óbitos, entre eles o do presidente da época, Rodrigues Alves.

Isso quer dizer que não precisamos nos preocupar? Errado! A pandemia do covid-19 está apresentando uma curva vertical muito alta em novos casos e em óbitos, e isso precisa ser combatido desde já, para que ela não se torne algo como uma gripe espanhola. Por isso: lave as mãos com água e sabão e use álcool em gel; cubra o nariz e boca ao espirrar ou tossir; evite aglomerações se estiver doente; mantenha os ambientes bem ventilados e não compartilhe objetos pessoais.

BIBLIOGRAFIA

BERLIOZ, Jacques. Flagelos. IN: SCHMITT, Jean-Claude; LE GOFF, Jacques. Dicionário Temático do Ocidente Medieval. Bauru/SP: Edusc, 2002.

Artigos da internet

O que foi a peste negra?. Disponível em: <https://super.abril.com.br/historia/corpos-voadores-podem-ter-levado-a-peste-a-europa/>

Coronavirus: o que podemos aprender com a gripe espanhola. Disponível em: <https://www.bbc.com/portuguese/internacional-51824167>

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