Cruzes queimadas no quintal: como Martin Luther King lidou com o ódio racista

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Pablo Michel Magalhães
Mestre em História (UEFS)
Especialista em Filosofia (Instituto AVM/UCAM)

Na foto, Marthin Luther King Jr. retira uma cruz do seu quintal com seu filho em 1960. Ela havia sido incendiada, numa clara alusão ao símbolo da Ku Klux Klan (símbolo esse forjado pelo filme The Birth of a Nation, uma película supremacista dirigida por D. W. Griffith em 1916 e que introduziu a prática ritual da cruz em chamas, algo estranho à Klan em meados do século XIX).

É inegável notar que o trabalho de Luther King Jr, enquanto ativista dos direitos humanos e do movimento negro, foi fundamental para a construção de um caminho gradativo para a melhoria de condições da população negra norte-americana. Suas ações não violentas pautaram boa parte dos debates nacionais contra as leis de segregação racial existentes nos EUA, defendendo a integração de brancos e negros em várias áreas da esfera pública, como, por exemplo, na educação. Contudo, apesar do sucesso de seu ativismo e de ser um personagem querido por grande parcela de estadunidenses, as manifestações de ódio contra suas bandeiras sociais eram constantes e violentas.

Cruzes queimadas, objetos arremessados contra sua casa, multidões hostis empunhando cartazes racistas pró-segregação são algumas dessas amostras de ódio contra Luther King Jr. e seus apoiadores.
Na foto, o pequeno Martín Luther King III aparece num gesto que poderia ser de preocupação. Mas, sendo tão pequeno, será que entenderia algo? O ódio ao diverso é ensinado, não nasce conosco.

Dr. Martin Luther King Jr. discursando para uma multidão composta por 25.000 pessoas durante marcha em Montgomery, Alabama – 25/03/1965 Stephen F. Somerstein/Getty Images

A escuridão não pode expulsar a escuridão, apenas a luz pode fazer isso. O ódio não pode expulsar o ódio, só o amor pode fazer isso.

Martin Luther King Jr.

O pastor protestante foi um dos grandes ícones do século XX. A sua grande popularidade deveu-se à liderança que exerceu na luta pelos direitos civis dos negros nos Estados Unidos da América, nas décadas de 1950 e 1960. King possuía uma grande capacidade de discursar em público e de agregar um grande número de pessoas em manifestações pacíficas contra as leis de segregação racial dos estados do Sul dos EUA. Por tal característica, ele chegou a receber o prêmio Nobel da Paz em 1964.

Martin Luther King será sempre lembrado por seu famoso discurso em 28 de agosto de 1963, proferido em Washington, durante uma marcha que reuniu cerca de 250 mil pessoas contra as políticas racistas e pelos direitos civis dos negros nos Estados Unidos. Nele, o líder do movimento contra a segregação racial no país apresentou seu grande sonho: negros e brancos vivendo em paz uns com os outros, liberdade e justiça sendo desfrutadas por todos os americanos, e seus quatro filhos vivendo em um país onde não são julgados pela cor da pele, mas por seu caráter. Com tal ideal, King entrou para a história. Seu objetivo era fortalecer os direitos dos negros e chamar atenção para os problemas cotidianos por eles enfrentados.

Em função de sua atuação social e política, Luther King despertou muito ódio naqueles que defendiam a segregação racial nos EUA. Por quase toda sua vida adulta, foi constantemente ameaçado de morte por estas pessoas e grupos. Durante os eventos que ficariam conhecidos como “Marchas de Selma a Montgomery”, de 1965, que foram três manifestações, sendo a primeira conhecida como “Domingo Sangrento” (“Bloody Sunday”, em inglês), do movimento pelos direitos civis dos negros nos Estados Unidos que conduziram à aprovação da Lei dos Direitos ao Voto de 1965, uma conquista histórica do movimento negro da década de 1960, o pastor protestante e seus apoiadores tiveram seus protestos duramente reprimidos pela polícia do Estado do Alabama.

Policiais esperam manifestantes atravessarem a Ponte Edmund Pettus no Domingo Sangrento.

Ao longo das três tentativas, e apelando ao direito de protestar garantido pela primeira emenda da Constituição dos EUA, King Jr. buscou conduzir os protestos tendo como base o pacifismo. Sua luta e seu estilo estavam mais baseados na diplomacia e no diálogo.

O filme Selma: a marcha da liberdade (2014) é uma excelente adaptação sobre estes eventos. Dirigido por Ava Duvernay, uma das principais cineastas negras da atualidade, podemos acompanhar a construção do ideal em torno das marchas e como elas simbolizaram um momento de união de negros e brancos contra as leis de segregação racial, conhecidas como leis Jim Crow (este nome faz alusão ao personagem caricato Jim Crow, interpretado por um ator branco, Thomas D. Rice, cuja função era ridicularizar a população negra norte-americana). O lema destas leis de segregação era “separados, mas iguais”, regulamentando a divisão de espaços públicos e privados com base na cor do indivíduo, algo parecido com o Apartheid na África do Sul.

Foi baseado nessas leis, por exemplo, que o Estado norte-americano puniu Rosa Parks que, em 1955, se recusou a levantar e ceder seu lugar no ônibus a um branco. O caso gerou o boicote ao serviço de ônibus em Montgomery, cidade onde o fato se desenrolou. Luther King foi um dos manifestantes a demonstrar apoio à senhora Parks. A desobediência civil não violenta, praticada no caso do ônibus pela corajosa mulher, era também a base da atuação política do pastor.

Infelizmente, na manhã de 4 de abril de 1968, antes de uma marcha, Martin Luther King foi assassinado no quarto de um hotel na cidade de Memphis. Sua vida foi interrompida pelas mãos de James Earl Ray. Há controvérsias sobre a autoria do assassinato. Earl Ray confessou o crime para sair do corredor da morte e, anos depois, afirmou sua inocência.

Contudo, os ideais de King Jr. permanecem até hoje, e sua atuação construiu um forte legado de luta contra a discriminação e o racismo nos EUA e no mundo.

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