Luís XIV, o rei sol do Absolutismo

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Pablo Michel Magalhães
Mestre em História - UEFS
Especialista em Docência da Filosofia - AVM/UCAM

“Eu sou o Estado”. Esta famosa frase é atribuída a esse personagem histórico, muito embora ele nunca a tenha dito. Luís XIV, o conhecido rei sol da França, teve um longo reinado (de 1643 a 1715), marcado pela sua política personalista centralizada em si, governando sob um regime absolutista. Enquanto ainda não atingia a maioridade, sua mãe, Ana da Áustria, regeu a França lado a lado com o bispo Mazarino, o primeiro ministro.

A monarquia francesa até Luís XIII organizou-se de modo a contar com um alto funcionário que governava sob as ordens do rei. Cardeal Richelieu foi um dos mais célebres ministros dentro dessa dinâmica de poder. Ele era quem governava de fato na França, ainda que respeitando a divindade em torno da coroa real e a figura do rei.

Armand Jean Du Plessis, conde de Richelieu, era oriundo de uma família nobre, porém, pobre de recursos e com frágeis ligações políticas que pudessem permitir a ele chegar a um ponto tão alto como o de primeiro ministro. Contudo, sua participação como orador do Clero na Assembleia dos Estados Gerais de 1614 lhe deu certa notoriedade, o que lhe rendeu um cargo no Conselho Real de Mária de Medici, rainha da França e regente durante a minoridade de Luís XIII.

Retrato de Armand Jean du Plessis de Richelieu, 1636, pintado por Philippe de Champaigne.

Alguns anos depois, o cardeal Richelieu não só fazia parte como chefiava o Conselho. Suas principais ações foram a guerra contra os protestantes huguenotes e seus aliados ingleses, destruindo a influência destes na monarquia francesa, e a guerra contra os Habsburgo, família nobre que reinava sobre a Espanha e o Império Romano Germânico. Deste conflito teremos a Guerra dos Trinta Anos (1618 – 1648), que envolveu uma série de países europeus em disputas, com foco especialmente na Alemanha.

Nesse ínterim, Richelieu tornou-se o político mais proeminente da França, sendo o preferido de Luís XIII que, atingindo a maioridade, e mesmo sendo alertado por sua mãe de que o cardeal poderia ser perigoso para a monarquia, o escolheu como primeiro-ministro. Essa parceria foi fundamental para o estabelecimento da monarquia absolutista na França, uma vez que os poderes foram concentrados nas mãos do rei que, contudo, possuía um ministro para executar suas ações.

E no que isso é diferente do que era praticado antes pelas monarquias? Durante a vigência do sistema feudal como modo de produção hegemônico na Europa e, por conseguinte, na França, o poder era descentralizado, repartido entre os vários senhores feudais que, eu seu feudo, exerciam as mesmas prerrogativas de um rei. Assim, o próprio rei era meramente mais um senhor feudal dentre vários. Com a ascensão de uma classe burguesa mercantil, com anseios de mais poder e notoriedade na sociedade, a monarquia encontrou um aliado no processo de centralização do poder. Um Estado forte, com um rei forte, passaram a ser vistos como fundamentais para o processo de expansão mercantilista e, principalmente, colonial.

Assim, Richelieu e Luís XIII trabalharam em conjunto numa política de centralização do poder régio, sendo o rei o centro do poder monárquico, e o cardeal seu funcionário executivo, com bastante influência sobre as decisões de Luís.

POUSSIN, CHEGADA EM ROMA, ESTÃO PRESENTES LUÍS XIII E O CARDEAL DE RICHELIEU / ALAUX JEAN, DE LE ROMAIN (1786 – 1864)
© RMN-Grand Palais (Museu do Louvre) / Hervé Lewandowski

Com o advento de Luís XIV à coroa da frança, essa dinâmica permaneceu sendo praticada, agora com o sucessor de Richelieu, cardeal Mazarino. Alçado ao cardinalato sem ter sido padre antes, protegido pelo seu antecessor e por ele inserido no serviço ao rei, Mazarino seria nomeado primeiro-ministro após a morte de seu padrinho político Richelieu e seria responsável pela continuidade da política absolutista na França. Seus objetivos políticos foram em muito a continuidade da gestão anterior: a vitória sobre os Habsburgo, colocando a França como principal potência europeia; a subjugação da nobreza francesa, colocando-a de joelhos diante do poder monárquico e a modernização do Estado francês.

Com Luís XIV, Mazarino repetiu a dobradinha que Richelieu havia feito com Luís XIII. Essa relação de poder veio a se modificar apenas com a morte de Mazarino, sucessor de Richelieu. Luís XIV, já maior de idade, não substituiu a figura do primeiro ministro aos moldes anteriores. Ele mesmo passou a governar de fato, sem um intermediário. Colbert, seu ministro das finanças, era o mais próximo possível de um chanceler, mas desprovido dos poderes de um Richelieu ou um Mazarino.

Luís XIV não disse a frase “o estado sou eu”, mas sua política foi construída dentro desse princípio: o absolutismo. Seu reinado pessoal começou em 1661. Ele apoiava o conceito do direito divino dos reis, continuando a política de seus predecessores de criar um governo centralizado a partir da capital. Procurou eliminar os últimos vestígios de feudalismo que ainda existiam em algumas partes da França e pacificar a aristocracia, oferecendo a muitos membros da nobreza a oportunidade de morar no seu luxuoso Palácio de Versalhes. Por esses meios, Luís se tornou um dos monarcas franceses mais poderosos da história e consolidou o sistema da monarquia absoluta que perdurou na França até à Revolução Francesa.

Luís XIV escolheu para emblema o Sol. É o astro que dá vida a qualquer coisa, mas é também o símbolo da ordem e da regularidade. Ele reinou como um sol sobre a corte, sobre os cortesões e sobre a França.

Luís XIV no Le Ballet de la nuit. O balé foi coreografado em 1653. Foi significativo porque Luís XIV fez sua estréia na corte. Esse balé durou 12 horas, começando ao pôr do sol e durando até a manhã, e consistia em 45 danças. Luís XIV apareceu em 5 deles. A dança mais famosa do Ballet de la Nuit retrata Luís XIV como Apolo, o rei sol. Arte de Henri de Gissey publicada em cópia do balé por R. Ballard em 1653

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