O caso de sífilis não tratada de Tuskegee

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Pablo Michel Magalhães
Mestre em História - UEFS
Especialista em Docência da Filosofia - AVM/UCAM

Essa foto captura uma das maiores vergonhas da história da medicina no século XX. O caso de Tuksgee é conhecido como um dos principais exemplos de má conduta médica. Na imagem: um médico coleta sangue de uma cobaia. Fotógrafo desconhecido, c. 1953.

Entre 1932 e 1972, o governo norte-americano conduziu um experimento médico que visava observar a progressão da sífilis em homens negros deliberadamente infectados com a doença. O experimento foi conduzido em parceria com a Universidade de Tuskegee, no Alabama, numa comunidade com prevalência de afro-descendentes. As cobaias jamais deram seu consentimento para participar da experiência, nem sabiam absolutamente nada sobre o contexto. Eles foram informados de que eram portadores de “sangue ruim” e que iriam receber tratamento médico gratuito do governo americano. Seiscentos cidadãos afro-americanos foram infectados com a sífilis, dos quais apenas 74 sobreviveram. Quarenta das esposas das cobaias humanas também foram infectadas pela doença e 19 crianças nasceram com sífilis congênita. Embora já em 1947 se soubesse que a penicilina era eficaz no combate à sífilis, os cientistas optaram por não utilizá-la mesmo nos casos mais graves.

Sangue sendo coletado de um homem negro no estudo de Tuskegee (Arquivo Nacional/EUA)

O falso diagnóstico de “sangue ruim” foi construído pela pseudo-ciênca da Eugenia, muito em voga no século XIX e ainda no século XX, momento em que o caso de Tuskegee se desenrola. O conceito foi proposto por Francis Galton, antropólogo e matemático inglês, primo de Darwin e criador do termo Eugenia (bem nascido, em grego). A partir de uma apropriação antiética da Teoria da Evolução das Espécies, o trabalho da vida de Darwin no campo da biologia, Galton e seus seguidores aplicaram de forma deturpada o conceito de seleção natural na sociedade contemporânea, identificando uma hierarquia de raças entre os seres humanos, cujo ponto mais alto era o branco europeu, e o ponto mais baixo negros e indígenas.

Em seu livro “Inquiry into Human Faculty and its Development” (1883), Galton propõe a ideia de que o “sangue ruim” é inerente a determinados indivíduos, e é passado adiante hereditariamente. Negros, indígenas, mestiços, asiáticos, deficientes mentais, criminosos: para Galton, esse grupo de “degenerados” possuíam sangue ruim. O “sangue bom”, seu total oposto, era típico dos brancos europeus civilizados, que também passavam hereditariamente.  E o eugenista vai além: o corpo absorvia do ambiente más influências, que guardaria nos órgãos sexuais por meio do que chamou de “gêmulas”; assim, mesmo indivíduos de raça dita superior poderiam se degenerar quando submetidos a condições como fome e pobreza gerando gêmulas que se acumulariam.

Qual a solução contra o “sangue ruim”? Galton propõe seleção, de modo artificial ou natural. Os indivíduos degenerados precisariam ser eliminados, evitando inclusive relações sexuais entre o sangue ruim e o sangue bom, impedindo a mestiçagem, condenada por Eugenistas. Isso baseou as principais nações imperialistas a praticar atos que conduziam à morte populações africanas e asiáticas. Fome, envenenamento, prisão em campos de concentração são alguns exemplos de ações aplicadas para “seleção” nas colônias no século XIX. Desse modo, os alemães exterminaram hererós e namaquas na Namíbia, e britânicos mataram de fome milhões de indianos na década de 1870.

Militares alemães exibindo Namaquas capturados [1904](akg-images / Interfoto / Sammlung)

A Eugenia propunha métodos pseudo científicos para melhoramento da sociedade, conduzindo-a a um embranquecimento ideal, simbolizando assim a civilização humana baseada na regra do branco imperialista europeu. Pensando com base na memória histórica de longo tempo, podemos observar que a “Solução Final” dos nazistas não foi uma aberração deslocada de qualquer paralelo na humanidade. Na verdade, Hitler e seus asseclas, ao formular o extermínio em massa de judeus, ciganos, homossexuais, deficientes físicos e mentais, suas bases científicas estavam fincadas na Eugenia e em suas proposições racistas, antiéticas, imorais e desumanas.

No caso de Tuskegee, temos os norte-americanos praticando tais atos, baseados nos ideais eugenistas, mas também na ideia de que eles eram o império das Américas e que poderiam atuar como os europeus atuaram na Ásia e na África. Desde o Destino Manifesto, ideologia alimentada pelos estadunidenses e que apresenta-os como a 13ª tribo de Israel, predestinada a dominar e conquistar a “terra prometida” além mar. Tais elementos construíram uma sociedade baseada na divisão racial e na legitimação da dominação branca sobre os negros escravizados. Assim, manipular os corpos desses indivíduos “inferiores”, para eles, era algo natural e correto.

Um membro da equipe de pesquisadores denunciou o caso à imprensa. Os estudos foram imediatamente encerrados após o vazamento da informação. A revolta gerada pelo experimento racista e antiético repercutiu em todo o mundo e estimulou a criação de normas e códigos de ética médica, tais como o Código de Nuremberg, que estabeleceu diretrizes internacionais para a pesquisa com seres humanos. A experiência científica deu origem a um processo de US$ 9 milhões e a um pedido oficial de desculpas do governo norte-americano em 1997, durante a gestão de Bill Clinton.

Sugestão de filme
Cobaias (1997)
Direção: Joseph Sargent

Sugestões de leitura
Bad Blood: The Tuskegee Syphilis Experiment
James H. Jones

Sífilis por "exposição normal"  e inoculação: um médico da equipe do estudo Tuskegee na Guatemala, 1946-1948
Susan M. Reverby
Doutora em estudos americanos pela Boston University

O Caso Tuskegee: quando a ciência se torna eticamente inadequada
José Roberto Goldim
Doutor em Medicina (Bioética) pela UFRGS

Tuskegee: Uma história americana. E de racismo
Luis Carvalho Rodrigues

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