João Goulart e as reformas de base

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Da redação

No dia 13 de março de 1964, o povo brasileiro foi as ruas para assistir João Goulart defender as “reformas de base”. Dentre estas reformas estavam a agrária, a universitária, a eleitoral e a constitucional. O jornal A Última Hora, de março de 1964, estampou manchete que buscava evidenciar que Jango possuía apoio popular, e que as reformas de base iriam ocorrer inevitavelmente.

O que sabemos é que pouco depois dessa manchete, o golpe que estava sendo orquestrado há uma década tomou curso e instituiu no poder os militantes, por longos 21 anos. Sendo um dos poucos periódicos a apoiar Jango e o presidencialismo, A Última Hora não sobreviveu ao golpe. Suas sedes no Rio e Recife foram invadidas e destruídas, e Samuel Wainer, seu fundador, buscou exílio no Chile

Durante o governo de João Goulart (1961-1964), a imprensa foi um dos vetores da divulgação do fantasma do comunismo, uma das principais justificativas para a deposição do presidente. Ao mesmo tempo, propalou a existência de um caos administrativo e participou da divulgação de que era imperiosa a necessidade do restabelecimento da ordem através de uma intervenção militar.

Goulart era vice-presidente à época, e com a renúncia de Jânio Quadros (1961), segundo a Constituição, deveria assumir a presidência. Contudo, pelo seu posicionamento populista, numa tradição varguista bem conhecida no Brasil, sua figura assustada políticos conservadores e os militares que orquestravam na surdina assumir o poder. Foi preciso uma ampla campanha legalista, liderada por Leonel Brizola, para que ele pudesse de fato assumir o poder, inicialmente destituído de poderes, sendo tutelado basicamente por um primeiro ministro, Tancredo Neves.

João Goulart é empossado na presidência da República.
a esq. p/ a dir., à frente: Tancredo Neves (2º), João Goulart (3º) e Ranieri Mazzili (4º).
Fonte: CPDOC (TN foto 0200, número 1)

Após dois anos de parlamentarismo, em janeiro de 1963 ocorreu um plebiscito que resultou na volta do presidencialismo, com Goulart à frente. Com plenos poderes a partir desse momento, Jango passou a defender e promover medidas vistas como conservadoras demais por grupos da esquerda e excessivamente reformistas por grupos da direita. Assim, vários setores mostravam-se descontentes com seu governo, cujo principal foco era a defesa das reformas de base.

A maioria dos jornais comerciais – como Correio da Manhã, Jornal do BrasilÚltima Hora, A Noite, Correio Brasiliense e Zero Hora – manifestou-se contra o veto dos ministros militares que pretendia impedir a ascensão de Goulart à presidência. De outro lado, O Estado de S. Paulo e O Globo se opuseram à posse. O jornal paulista chegou mesmo a se manifestar a favor da convocação das Forças Armadas para impedir que “as forças subversivas” chegassem ao poder.

A garantia da posse de Goulart por meio de uma solução de compromisso sob um regime parlamentarista teve amplo apoio da imprensa, das estações de rádio e da incipiente televisão brasileira. De um modo geral, a imprensa defendeu uma alternativa estritamente legal.

Mas essa posição alterou-se rapidamente devido à forte radicalização política que marcou todo o governo Goulart, com uma escalada de greves, movimentos dos baixos escalões das Forças Armadas e com uma taxa de crescimento econômico em queda e elevados índicesde inflação. Esse momento político assistiu também a um acirramento da Guerra Fria, o que contribuiu para exacerbar as posições ideológicas em conflito. A esses fatores se juntaram as ambigüidades do governo no encaminhamento de soluções para os problemas básicos com que se defrontava o sistema político. Tudo isso minou os apoios que o governo detinha e despertou uma oposição crescente da grande maioria das forças que compunham o espectro político. A imprensa foi se posicionando ao lado dos grupos e movimentos que seu opunham ao governo constitucional, vindo a se constituir no principal portador da mensagem contra a permanência de Goulart no poder.

Poucos jornais ficaram ao lado de Goulart, destacando-se entre eles a Última Hora, jornal que tinha grande penetração no meio sindical e estudantil, e o Diário CariocaO Semanário, um dos órgãos mais representativos na veiculação de idéias e propostas comprometidas com a defesa dos interesses nacionais brasileiros, também apoiou o governo Goulart e denunciou, com alguma antecedência, a preparação do golpe militar. O jornal Novos Rumos, órgão semi-oficial do Partido Comunista Brasileiro, manteve igualmente posição favorável às medidas implementadas pelo governo e às reivindicações dos suboficiais militares e dos sindicatos.

Promovido em frente à estação ferroviária Central do Brasil (e por isso é chamado desta forma), no Rio de Janeiro (RJ), em 13 de março de 1964, o comício anunciado na edição do Última Hora reuniu, aproximadamente, 300 mil pessoas, incluindo trabalhadores do campo e da cidade, membro de sindicatos, partidos políticos e delegações de mulheres, servidores públicos, militares e estudantes.

Jornal Última Hora, 14 de março de 1964

No palanque, em seu discurso com duração de mais de uma hora, Jango anunciou que as reformas seriam feitas. No mesmo dia, inclusive, Goulart assinou um decreto para nacionalizar as refinarias particulares de petróleo, e outro para desapropriar terras com mais de 100 hectares próximas a rodovias e ferrovias federais.

Comício da Central do Brasil, Rio de Janeiro (Arquivo Nacional)

A reação da oposição, já intensamente descontente, foi rápida. No dia 19 do mesmo mês, setores conservadores se uniram em centenas de milhares de pessoas na Marcha da Família com Deus pela Liberdade, em São Paulo (SP) e outras cidades, como Belo Horizonte (MG), defendendo a deposição do presidente e anunciando o que estava por vir: o golpe civil-militar de 31 de março e 1º de abril de 1964, que deu início aos mais de vinte anos de ditadura no Brasil.

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