Por trás da música: “Índios” e a colonização portuguesa

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Prof. Pablo Michel Magalhães
Mestre em História - UEFS
Especialista em Filosofia - UCAM

Índios é uma canção sobre Colonização no Brasil, mas também sobre a melancolia e a desesperança do hoje.

Imagem do encarte do álbum Dois, com a letra de “Índios”.

O Rock Nacional possui algumas raízes importantes. Desde o rock descarado de Raul Seixas, passando pelo eixo Rio-São Paulo com Mutantes e Cia, e mesmo os movimentos psicodélicos da Tropicália de Caetano, Gil e outras feras musicais. Mas hoje nossas atenções estarão voltadas para Brasília e uma de suas maiores bandas (talvez a maior): Legião Urbana. E é na canção “Índios” que buscaremos tecer algumas análises.

Essa canção foi lançada em 1986 no álbum Dois. Seu título, “Índios”, aparentemente não estava no esboço original com aspas. Renato, excelente letrista e apreciador de metáforas, deu um toque crítico e irônico ao inserir o recurso das aspas no nome da música. Com um som base de teclados do próprio vocalista do Legião e bateria de Marcelo Bonfá, ela recebe um arranjo de violão de Dado Villa-lobos no trecho final.

“Índios” é uma narrativa melancólica sobre a chegada dos portugueses e o princípio das dores para os povos indígenas, retratando como as estratégias de dominação perpassaram diversos mecanismos de dominação, seja o roubo de riquezas, as trocas de presentes e a imposição religiosa. Contudo, ela é também uma metáfora sobre as relações humanas de engodo e mentira e sobre como ainda hoje pessoas exploram a pureza e a ingenuidade de outras.

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Quem me dera ao menos uma vez / Ter de volta todo o ouro que entreguei a quem / Conseguiu me convencer que era prova de amizade / Se alguém levasse embora até o que eu não tinha

“Índios”, Legião Urbana, álbum “DOIS” (1986)

Nesse trecho, podemos identificar o princípio das relações entre europeus e indígenas, a partir de uma das estratégias utilizadas: em busca de riquezas, especialmente ouro e prata, os exploradores portugueses faziam suas “promessas de amizade” por meio da troca de quinquilharias. Um processo mentiroso de compra da confiança dos povos nativos que, dominados e escravizados, foram subjugados pela colonialidade portuguesa. São colonialidades do poder, do saber e do ser que visam a dominação cultural, geográfica, religiosa, física dos indígenas, vistos como bárbaros.

É também uma mescla entre passado e presente: Renato critica o modo pelo qual muitas pessoas ludibriam e enganam outras, conquistando sua confiança, para lhes roubar suas riquezas materiais ou imateriais.

Quem me dera ao menos uma vez / Esquecer que acreditei que era por brincadeira / Que se cortava sempre um pano-de-chão / De linho nobre e pura seda

“Índios”, Legião Urbana, álbum “DOIS” (1986)

Aqui, novamente, encontramos argumentos sobre a colonização. Na “brincadeira” de trocar presentes, pano de chão de material pobre ou feito de linho nobre e pura seda não faziam diferença para os nativos que não distinguiam a diferença de um e outro. Eram apenas presentes, vistos com sinceridade por parte dos indígenas. Contudo, esse nada mais era do que um dos aspectos do sistema de superioridade do ser, do saber e do poder construído pelos europeus: para eles, os indígenas ignorantes e inferiores, e não mereceriam qualquer consideração. Essa é a base da hierarquização social na colonialidade, e foi na América, sobretudo a Latina, que se fez mais evidente e traumática a diferenciação entre índios, negros, brancos e mestiços.

E temos outra conexão entre passado e presente: Renato enxerga a hierarquização hoje, e critica como o ar de superioridade e inferiorização de minorias permanece sólido na sociedade contemporânea. Ludibriar, enganar, tapear para roubar a riqueza do outro é também fruto da ideia de que alguém é superior a outrém, e que esse outro é ignorante, inferior.

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Quem me dera ao menos uma vez / Que o mais simples fosse visto / Como o mais importante / Mas nos deram espelhos e vimos um mundo doente.

“Índios”, Legião Urbana, álbum “DOIS” (1986)

Espelhos e doenças são os elementos deste trecho. Materialmente, espelhos foram também presentes trocados entre indígenas e europeus, causando nos nativos espanto e admiração. Um choque cultural previsível e explorado pelos portugueses. As doenças, por outro lado, foram as mazelas físicas trazidas pelos invasores e que dizimaram centenas de milhares de indivíduos e suas tribos no Brasil.

Mas essas doenças também podem ser observadas por um lado metafórico: a sociedade europeia estava doente, era um mundo doente. Ganância, destruição, escravização, guerras, contendas… Todo um amálgama de violência que aportava ali naquele momento. O aparato colonial visava a transformação dos indígenas em dóceis mestiços alienados, dispostos ao trabalho para a Coroa.

Quem me dera ao menos uma vez / Entender como um só Deus ao mesmo tempo é três / E esse mesmo Deus foi morto por vocês / Sua maldade, então, deixaram Deus tão triste.

“Índios”, Legião Urbana, álbum “DOIS” (1986)

Considerados gentios e bárbaros, os indígenas tiveram sua culturas e crenças subjugadas pela fé europeia. Sem contato com a estrutura religiosa dos exploradores, eles foram engolidos por um processo de dominação cultural que lhes impunha a perspectiva cristã. Renato ironiza isso ao mostrar como seria contraditório tentar entender a premissa trina da unicidade de Deus. Como um Deus pode ser três? E mais: ele foi morto por vocês mesmos? Como assim?

É também uma crítica do compositor à imposição religiosa hoje. Por que devo acreditar no que você acredita, se isso não me entra na cabeça, se não consigo compreender algo que, para mim, é contraditório e distante?

Quem me dera ao menos uma vez / Acreditar por um instante em tudo que existe / E acreditar que o mundo é perfeito / E que todas as pessoas são felizes

“Índios”, Legião Urbana, álbum “DOIS” (1986)

Nesse trecho, Renato expressa um desejo. Ele gostaria novamente de ter uma visão otimista sobre o mundo e as pessoas. A ideia da ingeunidade perdida aparece aqui como um doce anseio, e que poderia ser bem melhor para todos. Que o mundo é perfeito, que as pessoas são felizes. “Quem me dera ao menos uma vez”…

Nos deram espelhos e vimos um mundo doente / Tentei chorar e não consegui.

“Índios”, Legião Urbana, álbum “DOIS” (1986)

O encerramento da canção traz de volta os espelhos e o mundo doente. A colonização e o contato com o invasor são o marco inicial da análise da música que mostra como da ingenuidade os indígenas foram à tristeza, dor e aflição do processo de dominação colonial e do exercício de força do aparato europeu de controle e repressão.

Do mesmo modo, Renato vê no espelho o reflexo e a intersecção entre passado e presente, e esse mundo doente permanece hoje, fruto dos desdobramentos de um processo de roubo, violência e morte marcados na História do Brasil e nas relações humanas no mundo contemporâneo.

Uma letra poderosa de um dos grandes pensadores da música brasileira e do Rock Nacional. Ouçam Legião Urbana e força sempre!

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