O “milagre econômico” existiu?

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Entre 1969 e 1973, o evento histórico intitulado “Milagre Econômico” foi amplamente utilizado pela Ditadura como símbolo de eficiência. Mas, ele de fato existiu?

Pablo Michel Magalhães
Mestre em História - UEFS
Especialista em Filosofia - UCAM

Precisamos usar o termo “milagre” assim, entre aspas mesmo. Primeiro porque ele faz parte de um discurso ufanista em torno de um momento histórico marcado pelo crescimento da dívida externa, aumento da desigualdade social e solidificação da concentração de renda. Esses três elementos serão fundamentais para compreendermos como, nos anos 1980, o Brasil entrou em uma expiral terrível de recessão, inflação e quebra econômica.

Ex-ministro Delfim Netto (esq.) conversa com o então presidente Costa e Silva (dir.) – Arquivo/AE Pasta: 46188

O tal “milagre” foi uma época de crescimento econômico elevado durante a ditadura militar brasileira, entre 1969 e 1973. Nesse tempo, a taxa de crescimento do PIB saltou de 9,8% a.a. em 1968 para 14% a.a em 1973, e a inflação passou de 19,46% em 1968, para 15,6% em 1973. Delfim Netto era o ministro da economia nesse momento, e dizia que era necessário fazer o bolo crescer para depois dividí-lo.

O Regime Militar utilizou esse crescimento econômico como bandeira para a defesa do modelo praticado, com forte investimento na ideia ufanista de uma superpotência brasileira.

E, de fato, os números atingidos foram acima da média para o padrão das décadas anteriores.

Além disso, é preciso destacar que no “milagre econômico” grandes obras foram empreendidas, principalmente em relação à infra-estrutura do país. Podemos apontar, por exemplo, a usina hidrelétrica de Itaipú, os projetos habitacionais, a Zona Franca de Manaus e o programa nuclear Angra 1. Há outras obras, todas na mesma esteira de investimento pesado numa infra-estrutura depreciada.

Inauguração da Ponte Rio-Niteroi, outra obra de infra-estrutura do período do “milagre” – Arquivo Nacional

Contudo, esse “milagre” é cheio de paradoxos:

O primeiro deles tem ver com o próprio crescimento econômico. A concentração e o abismo entre classes tornou-se ainda mais evidente. O empobrecimento das classes trabalhadoras, sub remuneradas e sub alimentadas, foi acompanhado do enriquecimento das classes mais altas, em especial a casta mais aproximada do grupo militar. Com isso adotou-se uma política salarial que os sindicatos apelidaram de “arrocho salarial”. O salário mínimo real, apesar de cair menos do que no período entre 1964 e 1966, quando sofreu uma diminuição de 25%, baixou mais 15% entre 1967 e 1973.

Nesse mesmo momento histórico temos a criação do Fundo de Garantia (FGTS) e do Sistema Financeiro de Habitação, que levaram à poupança compulsória por parte dos contribuintes e à centralidade das operações de crédito, além da criação de empregos. Tudo isso seguindo um aumento absurdo na oferta de crédito às empresas privadas: um aumento de 340% aos dados anteriores ao “milagre”

O segundo paradoxo tem a ver com a repressão. Ao mesmo tempo em que promovia o crescimento amplamente divulgado em sua propaganda, o regime reprimiu, perseguiu e torturou como nunca antes. Foi um período de “chumbo” e recrudescimento, em especial pelo AI-5 de dezembro de 1968.

O terceiro paradoxo é o legado: os anos 1980 foram marcados pela quebra completa da economia nacional, fruto dos altos empréstimos contraídos pelos militares, o que mascarou o “milagre”. A fatura saiu bem salgada, mas foram os governos civis quem tiveram que pagar. Os militares saíram de cena em 1985.

Na TV e no rádio, porém, a Ditadura propagandeava um Brasil que dava certo e que marchava rumo ao desenvolvimento. Foram elaboradas frases de efeito como “Brasil Potência”“Brasil Grande” e o mais famoso deles, “Brasil, ame-o ou deixe-o” (slogan amplamente divulgado, sob o patrocínio do Centro de Informações do Exército (CIE), que distribuía gratuitamente os adesivos nas cores verde-amarela, para serem exibidos nos para-choques de muitos carros particulares.

A dívida externa brasileira chegou a US$ 90 bilhões. Para pagá-la, eram usados 90% da receita oriunda das exportações, e o Brasil assim entrou numa fortíssima recessão econômica que duraria até a década de 1990 e que tem como maior fruto o desemprego, que se agravou com o passar dos anos.

Sugerimos a leitura do livro “1964: História do Regime Militar Brasileiro” do historiador Marco Napolitano e da clássica série “Ditadura” de Elio Gaspari, em cinco volumes