Essas verdades: a formação dos EUA por Jill Lepore

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Entre uma Constituição marcada pelo desejo de liberdade e a prática da escravidão dos povos negros sequestrados da África, Jill Lepore reconstitui o processo de formação dos EUA em um livro esclarecedor.

Pablo Michel Magalhães
Mestre em História - UEFS
Especialista em Filosofia - UCAM

Em suas páginas inciais, a historiadora norte-americana Jill Lepore propõe um paradoxo esclarecedor sobre os Estados Unidos da América: na mesma banca de jornais, em Nova York, um cidadão poderia adquirir um exemplar de um periódico com a Constituição anexada, onde seus principais artigos defendem a liberdade e a soberania na jovem nação, e também com o anúncio de uma mulher negra escravizada com seu filho de colo por um preço módico:

“À VENDA. JOVEM CRIADA NEGRA CONVENIENTE, 20 anos de idade. Está saudável e teve varíola. Tem um bebê do sexo masculino”

Seus nomes não eram mencionados.

Temos aqui o ponto inicial de uma das análises mais bem elaboradas sobre a formação histórica dos Estados Unidos, fruto das pesquisas e reflexões empreendidas por Lepore, que é professora de História Americana de Harvard e redatora da revista The New Yorker.

Ciente das limitações que toda e qualquer pesquisa possui, principalmente aquelas focadas em acompanhar as longas durações, a autora foca na História Política e, a partir dela, na formação do ideário em torno na nação norte-americana e suas transformações ao longo dos seus 4 séculos de existência.

O ponto central que gera as discussões do livro está naquilo que Thomas Jefferson chamava de “essas verdades” (não a toa, é o título do livro). São três ideias: igualdade política, direitos naturais e a soberania do povo.

“Consideramos estas verdades sagradas & inegáveis”

“Que todos os homens são criados como iguais e independentes, que dessa criação igualitária derivam os direitos inerentes e inalienáveis, entre os quais estão a preservação da vida, e a liberdade, e a busca pela felicidade; que para garantir esses fins, governos serão instituídos entre os homens, cujos justos poderes derivam do consentimento daqueles que são governados”.

Escreveu Jefferson, em um rascunho da Declaração da Independência dos EUA

Jefferson encontrou no colega Benjamin Franklin um divergente revisor de seus escritos, em especial sobre a ideia de verdades “sagradas e inegáveis” que Franklin fez questão de riscar e substituir por “verdades evidentes”, ou leis naturais, observáveis no dia-a-dia. Jill Lepore vê aí uma interessante deixa para refletir, não sobre as inferências da fé e seu embate com a razão, mas se no curso da História, os Estados Unidos comprovaram as verdades de Jefferson ou as desmintiram.

George Washington (em destaque na pintura) foi um dos líderes da independência dos EUA

A Constituição norte-americana foi ratificada em 21 de junho de 1788, durante o outono. Ela foi aberta ao público antes disso, e a população considerada livre (homens brancos com certo poder aquisitivo) participou de debates sobre sua redação.

Boa parte desses cidadãos era oriunda do ambiente rural. Enquanto liam a versão encartada das leis, “seguiam enfardando seu feno, moendo seu milho, curtindo seu couro, entoando seus cânticos religiosos, afrouxando as costuras dos casacos de inverno do ano anterior para os pais e mães que haviam engordado, e soltando as bainhas das roupas das crianças que haviam crescido” (LEPORE, 2018, p. 10).

Entender a formação política deste país requer o conhecimento de sua construção social, baseada na violência e na força. De Colombo, em 1492, aos eventos raciais no século XX e a conturbada entrada no século XXI, o esforço de pesquisa da autora trafega pela Guerra Civil, pelas colônias americanas, pelo estabelecimento do Estado de direito e as conquistas individuais, passando pelas duas Guerras Mundiais, chegando até os conflitos mais emblemáticos no tempo presente: quando os dois aviões se chocaram ao World Trade Center, no 11 de setembro de 2001.

A oito quadras desse mesmo local, ficava a gráfica que imprimiu aquele anúncio da jovem mãe escravizada e seu bebê e a versão encartada da Constuição norte-americana, em 1787.

“O passado é uma herança, uma dádiva e um fardo”, segundo Jill Lepore. Se não podemos fugir dele, levamo-os conosco aonde quer que formos. Assim, diante da sua presença constante, não há nada a fazer, além de conhecê-lo.

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